sábado, 21 de abril de 2018

Musil e as qualidades de um escritor

Juremir Machado da Silva*
 
 
Como todo mundo, eu já quis ser muitos.

Já quis ser outros. Houve uma época, faz algumas décadas, que eu sonhava ser Robert Musil. Sempre que dava, e mesmo quando não dava, eu citava “O homem sem qualidades”, grande romance do escritor austríaco. Eu me achava um homem sem qualidades e me via nas qualidades do autor da obra. Eu queria ser um escritor pensador, um filósofo literário, o cara. Queria, ao mesmo tempo, detonar o fascismo e não perdoar a esquerda por seus desvios autoritários. Eu pretendia ser tudo. Lembro com saudades dessa época de megalomania. Ao receber “Uniões”, volume com duas histórias de Musil traduzidas por Kathrin Rosenfield e Lawrence Pereira Flores, viajei no tempo. Eu era jovem o suficiente para saber tudo. A passagem do tempo nos dá essa modéstia que estraga as coisas.

Hoje, às 21 horas, no Museu do Trabalho, em Porto Alegre, acontecerá a inauguração de vernissage dos ilustradores do livro – Marcos Sanches, Maria Tomaselli e Raul Cassou. Dia 24, no mesmo horário e local, mesa-redonda com os tradutores e lançamento da obra. Parei para refletir sobre a carne do texto de Musil. Gosto dessa fluência tensa, dessa corda esticada, dessa travessia sem rede de proteção, essa capacidade de descrever o subjetivo como uma realidade.

Gosto desta sinuosidade da frase: “Sob a luz acinzentada, aqueles homens de barbas negras pareciam-lhe figuras gigantescas daquelas sensações encapsuladas em esferas crepusculares. E tentou imaginar como seria sentir isso fechando-se ao seu redor. E enquanto seus pensamentos afundavam-se rapidamente como em um solo macio, informe e esponjoso, ela ouviu apenas uma voz rouca de tabaco, cujas palavras flutuavam na fumaça que roçou seu rosto durante toda a conversa. E havia também uma outra voz, que era clara e alta como um estalido de metal, e ela tentou representar para si o timbre com o qual, estilhaçada pela excitação sexual, deslizaria para o fundo”.

Imagino um leitor pragmático dizendo para si: que exagero! Tem gente que só gosta de conteúdo, o que me faz pensar num personagem de Lima Barreto, em “Recordações do escrivão Isaías Caminhas”, jornalista estrangeiro para quem tanto fazia escrever “nós fomos” ou “nós foi”, pois “o que ele queria era matar, ferir, golpear: a maneira pouco se lhe dava”. Eu já quis ser assim. Já quis ser Lima Barreto. Até virei boêmio para ver se conseguia. Mas ao ler a sua biografia e tomar conhecimento dos seus sofrimentos, imensos, desisti. Voltei a Robert Musil. Até aprender que a sua vida também não havia sido fácil. Escritor, em geral, come o pão que a mediocridade amassa com as patas.

Kathrin Rosenfield resumiu Musil assim: “Em 1924, impressionado pelo romance recém-lançado A Montanha Mágica, de Thomas Mann, Musil percebe as virtualidades de uma nova forma de romance que mescla as técnicas da narrativa épica com o fluxo de consciência e a reflexão ensaística. Volta-se então com intensidade para o seu romance que será o mais amplo, mais crítico e audacioso panorama da sociedade, da cultura e do imaginário austríacos e europeus do entreguerras”. Como, estando empanturrado de literatura e de filosofia, não querer o mesmo?

A professora e tradutora diz ainda: “Nos anos 1934-1938, quando o fracasso da República de Weimar ocasiona o êxito do Nacional Socialismo, Musil volta a redigir longos ensaios críticos e palestras nos quais expressa de maneira corajosa e franca seu repúdio às impiedosas táticas do fascismo, sem temer criticar de modo igualmente franco os desmandos totalitários do stalinismo. Essa crítica da cultura e da política permaneceu em grande parte não publicada devido ao acirrado controle da imprensa pelos nazistas e em função das práticas propagandísticas autoritárias de muitos militantes socialistas e stalinistas”. Tentei ser o Musil da Lancheria do Parque.

Teria encerrado tranquilamente a carreira com este parágrafo: “O espaço vazio entre ela e as coisas perdeu-se e estava estranhamente tenso de relações. Os utensílios ocupavam seus lugares com um impacto inalterável – a mesa e o armário, o relógio na parede –, perfeitamente cheios de si, separados dela e tão firmemente fechados sobre si como um punho fechado; contudo, mesmo assim, às vezes estavam novamente como que no interior de Verônica ou talvez a mirassem como se tivessem olhos, a partir de um espaço que se estendia como uma parede de vidro entre Verônica e o espaço”. Sempre quis entender a alma dos objetos.

Não fui Musil. Que pena. Um bêbado de calça vermelha me arrancou da ficção. Caiu sobre a minha mesa, tomou a minha cerveja e vomitou:

– Você está condenado.

– Eu.

– Usted.

– A quê?

– A ser o que é.

Fui até o bar Lola e na esquisita jukebox ouvi Gal Costa cantar: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. O bêbado provocou:

– Não me olhe como se a polícia estivesse atrás de mim.

Estava. Foi preso horas depois. Voltei para casa e li Musil até o amanhecer, quando saí e fui procurar um emprego. Não achei.
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* Jornalista. Escritor. Prof. Universitário PUCRS. Sociólogo. 
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/04/10806/musil-e-as-qualidades-de-um-escritor/ 21/04/2018
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