sexta-feira, 24 de novembro de 2017

POBREZA E TIRANIA SÃO O PROBLEMA, NÃO A DESIGUALDADE


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 Deirdre McCloskey/imagem da Internet

 McCloskey, uma libertária cristã, decidiu 
mudar de gênero; em 1995, 
Donald tornou-se Deirdre: seu temor de perder 
a carreira não se concretizou, 
a oposição foi da família.
POR SERGIO LUMUCCI/DE São Paulo

A americana Deirdre McCloskey não se cansa de repetir: a pobreza e a tirania são os grandes problemas a serem combatidos, e não a desigualdade. Professora emérita da Universidade de Illinois, em Chicago, McCloskey é entusiasta do capitalismo e do livre mercado. Para ela, o governo deve ficar fora da economia, evitando regulamentações que atrapalhem a livre iniciativa e a capacidade de inovação. Esse é o caminho para a prosperidade das nações, na visão de McCloskey.

Mas mesmo um país desigual como o Brasil não deve dar prioridade a essa questão? "Não se concentrem na desigualdade. Tirem o governo da economia. Não tenham políticas [governamentais]. Políticas são ideias terríveis. Deixem as pessoas sozinhas", responde McCloskey, que esteve no país no começo do mês para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e para lançar o livro "Os Pecados Secretos da Economia", pela Ubu Editora.

McCloskey se diz favorável a programas de transferência de renda para os mais pobres, como o Bolsa Família. "É muito sensato." Ao mesmo tempo, é contra o salário mínimo. "Deveríamos aboli-lo." O piso salarial é algo a ser pago pelo empregador, encarecendo contratações, segundo ela. "Você tem que se livrar de todas as coisas que tornam não lucrativo contratar pessoas, ou você acaba como a África do Sul, o Brasil ou a minha cidade, Chicago, onde há desemprego maciço especialmente nas áreas de população negra. Há o salário mínimo, proteções para o emprego, há zoneamento, há medidas que tornam difícil abrir negócios, há muita taxação sobre as empresas."

McCloskey diz que a esquerda costuma ignorar um fato extraordinário ocorrido nos últimos séculos, por ela chamado de "Grande Enriquecimento". De 1800 para cá, a renda per capita do trabalhador nos países ricos teve um crescimento de 3.000% termos reais (descontada a inflação), afirma.

Em artigo publicado no "New York Times", McCloskey escreveu que o "Grande Enriquecimento" ocorreu "não pela exploração dos pobres, não pelo investimento, não pelas instituições existentes", mas por causa de uma "mera ideia" - o liberalismo. "Dê às massas igualdade perante a lei e igualdade de dignidade social e as deixe sozinhas, que elas se tornam extraordinariamente criativas e enérgicas", afirmou ela, para quem a ideia liberal se deveu a "alguns acidentes felizes" no noroeste da Europa de 1517 e 1789 - a Reforma, a Revolta Holandesa, as revoluções da Inglaterra e da França e a proliferação da leitura. McCloskey diz acreditar que o fenômeno continuará a ocorrer, destacando o crescimento ocorrido na China a partir de 1978 e na Índia a partir de 1991, quando medidas econômicas liberais passaram a ser adotadas por esses países.

A economista reitera que, para ela, os problemas fundamentais a serem combatidos são a pobreza e a tirania, que "em geral andam juntas". "Resolva a questão da pobreza e torne as pessoas livres."

Cingapura e China seriam duas exceções, segundo McCloskey. "Os dois países, no entanto, têm uma substancial liberdade econômica, apesar da prática lamentável de prender opositores políticos", escreveu ela, num artigo publicado no site do Institue for Free Trade.

PhD por Harvard, a economista foi professora da Universidade de Chicago de 1968 a 1980. Em 1995, McCloskey, que se define como uma liberal cristã, decidiu mudar de gênero. Donald tornou-se Deirdre. O temor de que poderia perder a carreira não se concretizou. A grande oposição foi da família. A irmã tentou interná-la quatro vezes. McCloskey nunca mais viu Joanne, a mulher com quem viveu por 30 anos, e os dois filhos. "Tenho três netos que nunca vi."

Ao falar dos EUA, McCloskey não poupa o presidente Donald Trump, a quem vê como um "criminoso" e um "fascista". Para ela, a vitória do republicano nas eleições do ano passado se deveu a uma reação cultural a ideias progressistas, como o direito dos gays, das mulheres e dos negros, e não a um efeito colateral da desigualdade nos EUA. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: A sra. tem uma visão otimista sobre a economia global. Em artigo no "New York Times", escreveu que "o mundo é rico e vai se tornar ainda mais rico. Pare de se preocupar". O que as pessoas subestimam ou não entendem quando acham que o mundo está piorando e é um lugar ameaçador?
Deirdre McCloskey: Um motivo é que as pessoas gostam de ser pessimistas. Elas acham que isso é sofisticado. É difícil - na verdade, impossível - prever o futuro da tecnologia. Quem poderia cogitar em 1980 sobre a internet? Era inconcebível. O meu amigo Robert Gordon [professor da Universidade de Northwestern] escreveu um livro influente no ano passado, e Bob tem uma visão pessimista sobre o assunto. Um outro amigo, também de Northwestern, Joel Mokyr, é um otimista como eu. Joel diz: "Pare com isso! Como você sabe o que ocorrerá na área de pesquisa médica ou de ciência dos materiais, por exemplo?" Se você se guiar pela história, desde 1800, porque nós temos sociedades liberais, em que progressivamente mulheres são liberadas, pobres são liberados, negros são liberados, "queers" são liberados, todos são liberados, estão todos freneticamente buscando inovações, pequenas e grandes.

Valor: O que causou o que a sra. chama de o "Grande Enriquecimento"? Pode dar alguns exemplo de como a nossa vida mudou?
McCloskey: É muito simples. A magnitude é crucial. É um aumento de 3.000% em bens e serviços para o cidadão médio [dos países ricos]. 3.000%! Isso faz a redistribuição e o problema da desigualdade parecerem triviais. Faz os programas do governo parecerem tolos. São todas as inovações que melhoram as nossas vidas. A luz elétrica, o ar condicionado, a universidade moderna.

Valor: Esses 3.000% são um aumento da renda per capita?
McCloskey: É da renda per capita em termos reais, ou seja, descontada a inflação. No negócio em que você trabalha, uma das grandes invenções do século XIX foi a impressora a vapor. Nos anos 1700, os jornais tinham circulações muito pequenas. A invenção da impressora a vapor fez com que a circulação pudesse atingir meio milhão de exemplares por dia. Isso mudou completamente o papel dos jornais na sociedade. Subitamente, os jornais puderam se sustentar com anúncios e se tornaram independentes de partidos políticos. Há centenas e centenas dessas invenções. Por que elas não ocorreram antes? Há uma explicação muito simples: o liberalismo. Igualdade de oportunidades. Sem hierarquias. Todo mundo se tornou maluco por inovação.

Valor: E esse processo vai continuar?
McCloskey: Eis por que eu acredito nisso: China e Índia. Esses dois países estão crescendo muito, muito mais rapidamente do que o Brasil ou a África do Sul, dois países com os quais eu me preocupo. São taxas de crescimento que transformam um país em pouco tempo. Numa geração de 20 anos, se não cometer erros, a China poderá ter a renda média que os EUA têm hoje. Em duas gerações, se continuar a fazer o certo, a Índia terá a renda dos EUA. No Brasil, isso levará cinco gerações. Na África do Sul, nove gerações. É um desastre. Isso ocorre porque Brasil e África do Sul persistem em políticas econômicas não liberais. Há restrições para as negociações salariais, protecionismo para o emprego, protecionismo contra bens estrangeiros, é muito caro começar um negócio etc, etc. Não há nenhum motivo pelo qual esses países não possam ter taxas notáveis de crescimento. Isso resolve problemas de desigualdade, analfabetismo, todo tipo de coisa.

Valor: A sra. diz que a pobreza é o grande problema, e não desigualdade. Por que o foco na discussão tem recaído muito mais na desigualdade do que na pobreza?
McCloskey: Pobreza e tirania são os problemas, e não desigualdade. O foco está na desigualdade porque essa é a agenda socialista. O socialismo é muito natural. A família é uma iniciativa socialista. "A cada um de acordo com as suas necessidades e de cada um de acordo com suas capacidades." É assim que uma família amorosa funciona. É assim que a amizade funciona. Mas, na economia de mercado, tem que funcionar de outro modo. O jogador de futebol brilhante atrai muitas pessoas. Ele tem que ganhar milhares de vezes mais do que você. O médico tem que ser mais bem pago que o lixeiro, para atrair pessoas para a medicina. Você tem que ganhar mais do que um varredor de rua. Eu sou uma cristã liberal. Acho que, nós, como cristãos, temos uma obrigação com os pobres. Eu e você devemos ser taxados para apoiar um programa de renda mínima. Mas deveríamos abolir o salário mínimo.

Valor: A sra. é favorável a uma programa de renda básica?
McCloskey: Renda básica apenas para os pobres. Não para mim ou para você.

Valor: Algo como o Bolsa Família?
McCloskey: Exatamente. É algo OK para mim, é muito sensato. E você tem que se livrar de todas as coisas que tornam não lucrativo contratar pessoas, ou você acaba como a África do Sul, o Brasil ou a minha cidade, Chicago, onde há desemprego maciço especialmente nas áreas de população negra. Há o salário mínimo, proteções para o emprego, há zoneamento, há medidas que tornam difícil abrir negócios, há muita taxação sobre as empresas. Todas essas coisas tornam não econômico contratar pessoas.

Valor: Então um programa de transferência de renda faz sentido, mas não o salário mínimo?
McCloskey: Sim, porque eu e você pagaremos [pelo programa de transferência de renda], ao passo que, no caso do salário mínimo, nós dizemos: "Nós não vamos pagar por isso. Nós vamos fazer o empregador pagar por isso." É de graça para nós. Nós nos sentimos bem, tomando o segundo cappuccino pela manhã, lendo o "New York Times": "Eu sou a favor do salário mínimo, desde que o empregador pague por ele." Pobreza é um problema e tirania é um problema. E elas em geral andam juntas. Há exceções como Cingapura - e a China.

Valor: A sra. escreveu uma crítica muito divertida e ácida de "Capital no Século XXI", o livro de Thomas Piketty. Quais são os principais erros cometidos por Piketty, em sua visão, e por que o livro se tornou tão popular?
McCloskey: Acho que ele é um homem sério. O livro se tornou popular porque ele expressa todos os preconceitos da esquerda, no que parece uma forma científica. Mas há muitos, muitos erros no livro. Um erro muito importante é que ele ignora o capital humano. O modo como eu e você ganhamos nossas vidas se deve principalmente ao que temos entre as orelhas. Não é a nossa força física, como faziam os nossos ancestrais. Ele olha apenas para o capital físico. Isso é um grande erro, porque o capital humano é muito mais igualmente distribuído do que o capital físico. Outro erro é que ele está falando sobre o futuro, sobre o que pode ocorrer. Na verdade, os únicos países no grupo de nações a respeito dos quais ele fala que tiveram aumento de fato da desigualdade foram os EUA, Reino Unido e Canadá. Depois ele abandona o Canadá. Os terríveis exemplos são os países anglo-saxões - os EUA e o Reino Unido. É tudo hipotético. Vai ocorrer porque "r" [o retorno do capital] é maior que "g" [o crescimento econômico], o que por si mesmo é um argumento ridículo, um argumento tolo. Mas o maior erro do livro é não reconhecer o crescimento econômico moderno. Não reconhece esse crescimento de 3.000% na renda dos trabalhadores desde 1800. Ele ignora o Grande Enriquecimento. E as pessoas fazem isso rotineiramente na esquerda.

Valor: A sra. criou o termo?
McCloskey: Sim, eu que criei. Eu o chamei por algum tempo de o "Grande Fato", mas não ia ao ponto. E "Grande Enriquecimento" é o que ocorreu. Se não reconhecermos isso, vamos dizer: "Ah, tudo o que importa é redistribuição, a desigualdade é o problema". Não, não é. O problema é a pobreza. Resolva a questão da pobreza e torne as pessoas livres. Pobreza e tirania são os problemas. As pessoas devem poder expressar a si mesmas e mudar para outros empregos.

Valor: O Brasil tem um nível elevadíssimo de desigualdade, com um índice de Gini na casa de 0,52. Mesmo nesse caso, o foco deve ser na redução da pobreza, e não da desigualdade?
McCloskey: Não se concentrem na desigualdade. Tirem o governo da economia. Não tenham políticas [governamentais]. Políticas são ideias terríveis. Deixem as pessoas sozinhas. Não tenham políticas de redução de desigualdade. Deixem as pessoas sozinhas. É assim que nos tornamos ricos, por meio do liberalismo.

Valor: Nos EUA, as ideias de livre comércio enfrentam um momento difícil. Donald Trump é um protecionista. Como a sra. avalia Trump e como vê essa ascensão de ideias protecionistas?
McCloskey: Donald Trump é um idiota completo e um criminoso. Acredito que ele terminará na cadeia. Ele é um fascista. A minha única preocupação é que a instituição com maior prestígio nos EUA na sociedade são os militares. Depois do Vietnã, o prestígio deles era muito baixo. Hoje, é muito alto. Com Donald Trump no poder, isso é um perigo. Acho que há uma pequena chance de um golpe militar nos EUA, talvez em torno de 5%. Quanto ao protecionismo, veja, o capitalismo, o livre mercado, no mundo não é um jogo de soma zero, como Donald Trump pensa, porque ele é um idiota. É um jogo de soma positivo. Acabei de fazer um discurso em Londres no 200º aniversário do livro "Princípios de Economia Política e Tributação", de David Ricardo, em que ele enunciou o princípio das vantagens comparativas. E vantagens comparativas se baseiam no princípio da cooperação. As pessoas esquecem que nós, maciçamente, cooperamos por meio do comércio.

Valor: Como a sra. vê a ideia de que o que levou à vitória de Donald Trump nos EUA é um efeito colateral da crescente desigualdade?
McCloskey: Não acho que seja isso. O que há é uma reação cultural a ideias progressistas que eu apoio, como os direitos dos gays, das mulheres, dos negros etc, etc. Foi uma eleição muito apertada, apesar das afirmações ridículas feitas por Trump, e ele perdeu no voto popular por 3 milhões de votos. Foi uma eleição por homens brancos contra negros, mulheres e "queers".

Valor: A sra. está preocupada com o impacto da automação sobre o emprego? McCloskey: Não. Todos anos, nos EUA, 14% dos empregos desaparecem para sempre. Em 2000, 130 mil pessoas estavam empregadas nos EUA em videolocadoras. Esses empregos desapareceram para sempre. E o que as pessoas fazem? Ficam nas esquinas? Não, eles vão para outros lugares. Se o conto de fadas do desemprego tecnológico fosse verdadeiro, em pouco tempo nós teríamos uma taxa de desocupação de 50%.

Valor: Então a destruição criativa vai resolver o problema?
McCloskey: A destruição criativa sempre resolveu o problema. É verdade que é um jogo em que se ganha, ganha, ganha e alguém perde. Alguém perde pela mudança. Se você não quer nenhuma mudança, há algo bastante simples a fazer: basta ordenar que, no Brasil, todos façam hoje o que fizeram ontem. Se você não quer o progresso, vá em frente. Mande todo mundo fazer o que fazia antes. Há esse medo de robôs e inteligência artificial. Mas, veja: todo aparelho é um robô. A câmera da fotógrafa é um robô, o seu gravador é um robô, automóveis são robôs. Eu não estou nada preocupada.

Valor: Assim como o vencedor do Nobel deste ano, Richard Thaler, da Universidade de Chicago, a sra. também tem uma visão crítica do conceito do "homo economicus" (que considera os humanos como seres racionais e dotados de grande autocontrole). Há algo em comum entre a sua visão de economia e a economia comportamental?
McCloskey: A visão dele, com base psicológica, é de que as pessoas são dominadas por erros. A minha visão é de que nós somos seres morais, éticos. Não somos apenas prudentes, como o "homo economicus". Eu quero uma "humanomics", que trate as pessoas como atores éticos. Mas quero que elas sejam pessoas livres. Não quero que elas sejam governadas por Thaler. Ele quer dar um "empurrãozinho" ["nudge", em inglês] nas pessoas. "Eu sei o que é melhor para você. Eu sou do governo, estou aqui para ajudá-lo." Essa é a ideia. Sobre as ideias de Thaler, digo que elas são a teoria aplicada do fascismo. É um convite para a tirania.

Valor: Então vocês dois são críticos do "homo economicus", mas a partir de pontos de vista completamente diferentes?
McCloskey: Completamente diferentes. Ele é um fascista. Eu sou liberal.

Valor: Há um aumento da intolerância nos EUA. A sra., como mulher trans, sofreu preconceito ou discurso de ódio nos últimos anos?
McCloskey: Não, não substancialmente. Como saberia se fui discriminada? Sou uma professora, uma pessoa de classe média alta, tenho todas as proteções. Pessoas que apanham no Recife ou são mortas por serem gays, como [ocorre] algumas vezes em São Paulo. Bem, nesse caso, você sabe que elas estão sendo discriminadas.

Valor: E na sua carreira?
McCloskey: Até onde posso ver, não, mas como posso saber? Talvez tenha havido uma oferta de Harvard para a qual não fui convidada porque sou "queer". Não sei. Não percebi. Achei que ia perder a minha carreira, e tinha disposição para fazê-lo, em 1995. Sou uma pessoa muito orientada pela carreira, mas não me importava. Se não pudesse ser uma mulher, não me importaria.

Valor: A sra. sofreu mais resistência da sua família, não?
McCloskey: A minha irmã tentou me internar em instituições psiquiátricas quatro vezes e conseguiu duas. Consegui sair, porque podia contratar advogados. A grande tragédia é que a minha mulher, que ainda é o amor da minha vida, com quem fui casado por 30 anos, e meus filhos se voltaram contra mim. Não falo com eles há 21 anos. Tenho três netos que nunca vi. Eu continuo tentando, modestamente, mas eles não respondem. [Mas] Se eu continuasse a ser Donald, eu seria muito infeliz.
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Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5204377/pobreza-e-tirania-sao-o-problema-nao-desigualdade 24/11/2017

PENSAMENTO POBRE


José de Souza Martins*
 
 "O maior e mais fácil acesso a fontes de informação 
difundiu uma cultura padronizada, privada de componentes críticos e de raciocínio próprio de gente que até sabe 
responder as perguntas, mas que não sabe desconstruí-las, decifrar-lhes as conexões de sentido, 
entender-lhes a lógica interna."

Em comparação com minha época de estudante, as pessoas de hoje são muito mais informadas do que eram as daquele tempo. Mas não são menos ignorantes. Sabem muito, mas imprópria e provisoriamente. Sabedoria que chega ao interessado com uma clicada no celular ou no computador para ser esquecida em 20 minutos. Ficam resíduos que vão constituir a nova cultura popular dos cheios de certeza sobre todos os assuntos. Mas, uma coisa é ficar sabendo, outra, muito diferente, é saber. Por isso, somos hoje mais enganados do que éramos há meio século.

No geral, sabem acertar no acaso dos testes de múltipla escolha, mas não sabem explicar a construção da pergunta nem a razão da resposta. Quem, como eu, é professor universitário, sabe que há diferenças de competência entre os alunos que ingressaram nas grandes universidades em 1960 e os que estão nelas ingressando em 2017. No peneiramento dos talentos, que ocorre ao longo do curso universitário, apenas uma parte dos ingressantes tem as características próprias do que Karl Mannheim define como intelectual. Felizmente, ainda são muitos que as têm porque é muito maior do que no passado o número dos que chegam à universidade, embora sobrem proporcionalmente em menor número.

O maior e mais fácil acesso a fontes de informação difundiu uma cultura padronizada, privada de componentes críticos e de raciocínio próprio de gente que até sabe responder as perguntas, mas que não sabe desconstruí-las, decifrar-lhes as conexões de sentido, entender-lhes a lógica interna. Perguntas são apenas causas de respostas, já não propriamente desafios de interpretação. As hierarquias, no âmbito do conhecimento, foram substituídas pelas equivalências e seus signos. Tudo parece equivalente, o que enche esses novos sábios do cotidiano de certezas definitivas e absolutas. Os saberes são medidos pelo mesmo metro, por mais diferentes que sejam entre si.

Na era do almoço por quilo não há a menor diferença entre filé-mignon e repolho. Não há, também, a menor diferença entre o saber de um engenheiro que teve formação científica e um engenheiro que teve apenas formação técnica. Não há diferença entre um médico que ausculta, apalpa e diagnostica e um médico capaz de fazer um diagnóstico cientificamente explicativo, com base em pesquisa científica. Não há diferença entre o economista capaz de fazer cortes e ajustes na economia que afeta a todos e o economista capaz de propor políticas econômicas baseadas em diagnósticos fundamentados, mas também em avaliações científicas das consequências sociais das medidas que propõe. Não há diferença entre o economista que faz estudos e análises com base na premissa do primado da produtividade e o que é capaz de pensar a economia com base na função da produtividade no bem-estar social.

Embora haja muitas exceções, no geral as pessoas aprendem a repetir, mas não aprendem a pensar. Tenho notado, nas reações ao que escrevo e ao que colegas e conhecidos escrevem ou ao que dizemos em palestras e conferências, especialmente para pessoas de educação média, em diferentes lugares do Brasil, questionamentos chapados, de matriz ideológica, em alguns casos informados por orientações padronizadas de igrejas, em outros por orientações padronizadas de partidos, grupos de interesse partidário ou grupos ideológicos.
Questionamentos baseados em simplificações padronizadoras. Todo negro descende de escravos, o que não é verdade. Todo pardo é negro, ainda que negro de mestiçagem, o que é menos verdade ainda. Todo operário é pobre, o que não corresponde ao fato de que um número extenso de operários tem salários maiores do que muita gente da classe média.

A consciência social crítica dissolveu-se na pseudocrítica da recusa, da intolerância, do ódio. Uma cultura da vingança se disseminou. O pressuposto da resistência está em toda parte. Tudo se tornou, supostamente, resistência. A resistência como sinônimo de ser contra e não como sinônimo de ser crítico, isto é, de ser capaz de desvendar os aspectos
ocultos e invisíveis de todos os campos sobre os quais pode incidir a pesquisa científica.

Nas ciências humanas isso é particularmente complicado. A pessoa comum não tem como compreender na superfície do visível causas e fatores profundos e ocultos dos acontecimentos sociais. Luta contra porque acha que sabe. Opõe-se ao conhecimento científico porque este esvazia criticamente o conhecimento ideológico.

O pensamento já não é a consciência social da práxis, do pensar para transformar, para emancipar, para estar junto com os outros. O pensamento pobre sobre ricos e pobres em vez do pensamento rico sobre pobres e ricos, sobre as contradições que nos dividem e nos afundam.
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* José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Fronteira – A Degradação do Outro nos Confins do Humano” (Contexto).
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5204397/pensamento-pobre