quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Agora é o momento

Diogo Alves* 
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A verdadeira questão é como preparar os futuros líderes. Cerca de 50% da população mundial tem menos de 30 anos e esta é a geração que tem de ser mais envolvida como parte da solução para os problemas

Muitas vezes dizemos que “o céu é o limite” para descrever que as oportunidades são infinitas se lutarmos pela sua conquista. Este artigo foi literalmente escrito no alto dos céus, num avião de volta do Encontro Anual dos Global Shapers na Suíça. Durante quatro dias verdadeiramente inspiradores, juntaram-se mais de 350 representantes das várias cidades/hubs que fazem parte da comunidade dos Global Shapers do Fórum Económico Mundial.

O mote do evento foi “The time is now” e, de facto… “agora é o momento”. Momento para refletirmos sobre o passado e começar a enfrentar e desenhar um futuro que apresenta um conjunto de desafios nunca antes vistos. Desde logo, desafios supranacionais e globais como a crise dos refugiados, as alterações climáticas, modelos inovadores de educação ou a revolução tecnológica e o seu impacto nas empresas, pessoas e governos.

Em artigos anteriores, outros Shapers já abordaram temas tão importantes como a inovação científica e social, a igualdade de género ou a educação. Neste artigo, gostaria de me focar nas várias lições que retirei da minha participação como representante do hub de Lisboa na Suíça e falar de histórias que considero serem verdadeiramente inspiradoras e impactantes de liderança e mudança.

Comecemos então a viagem em Nicósia. Na capital do Chipre, os Shapers locais organizam e oferecem workshops a centros de refugiados, ajudando-os a aceder a serviços públicos ou apoiando-os na sua integração com aulas de ioga e meditação. De Nicósia caminhemos até Manila, nas Filipinas, onde os Shapers da mesma cidade reconheceram a necessidade de fazer algo face aos elevados índices de poluição da atmosfera. Ainda na Ásia, em Katmandu, no Nepal, a comunidade dos Shapers conseguiu apoio financeiro local e está neste momento a trabalhar na construção de uma clínica e de uma escola que irá albergar cerca de mil estudantes.

Do Nepal vamos até Ulan-Ude, na Rússia, onde a equipa dos Shapers desenvolveu uma aplicação móvel para apoiar na identificação do aparecimento de fogos e na rápida atuação dos bombeiros nestas situações. Da Rússia, partimos para o Gana onde a comunidade dos Shapers do hub da cidade de Ho está a apoiar a introdução de dispositivos de realidade virtual em escolas locais. Para além disso, estão também a trabalhar num projeto de tratamento de água potável, devido à poluição na região.

Podia continuar a transmitir os inúmeros e extraordinários exemplos que tive a oportunidade de conhecer, mas gostaria de realçar três elementos transversais a todos: liderança, sentido de comunidade e impacto.

Falando da primeira, o professor Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Económico Mundial, definiu liderança com uma analogia simples, em seis dimensões: corpo, cérebro, alma, coração, músculos e nervos. Por um lado, um líder tem de estar em boa forma física e mental, alicerçando-se num sistema e conjunto de valores que o unam à sua comunidade ou equipa. Por outro lado, um bom líder caracteriza-se pela sua paixão e a capacidade de transformar a sua visão em ação, nunca esquecendo que terá de se adaptar e ser bastante flexível durante o seu caminho.

Atualmente, e em muitos casos, existe um descrédito face a muitos dos líderes dos nossos tempos. Contudo, a verdadeira questão não é só e apenas como lidamos com as lideranças atuais, mas sobretudo como preparamos as lideranças futuras. Cerca de 50% da população mundial (3,5 mil milhões de pessoas) tem menos de 30 anos e esta é a geração que tem de ser progressivamente mais envolvida como parte da solução para problemas locais, nacionais e globais. Com o objetivo de enfrentar este problema, também os Global Shapers de Lisboa decidiram agir, através de iniciativas como o Leadership Summit Lisbon que co-organizamos. A conferência irá decorrer no dia 26 de Setembro em Lisboa e debruçar-se-á sobre a partilha de diversos exemplos de liderança nas mais diversas áreas, do mundo dos negócios às artes ou até mesmo ao humor.

Da liderança passamos ao sentido de comunidade. E até pode parecer fácil escrever ou falar sobre o assunto — difícil é agir. A realidade é que, em todas as iniciativas acima referidas, há denominadores comuns que devem ser práticas do dia-a-dia de todos os cidadãos. Desde logo, o sentimento de inclusão dos outros, seja qual for a sua raça, credo, género ou nacionalidade, bem como o reconhecimento da necessidade de atuar sobre problemas que nos tocam a todos, procurando soluções inovadoras. Um exemplo prático disto mesmo é o Global Dignity Day, no qual vários dos nossos hubs a nível mundial intervém junto de crianças desfavorecidas, debatendo o real sentido da dignidade humana. Em Portugal, já o fazemos desde 2013, tendo recentemente conseguido uma parceria com a Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade, o que permitirá o alargamento da iniciativa que terá agora impacto junto de cerca de cinco mil crianças e jovens estudantes no nosso país.

Criar impacto significa respeitar as aprendizagens do passado, viver ao máximo o presente e criar mecanismos para, em comunidade, construir um futuro melhor.

Sendo jovem, acredito que é sempre necessário fazer mais. É preciso ajudar a potenciar projetos de impacto social e ambiental. É preciso procurar soluções inovadoras para os problemas globais. É preciso reconverter, reforçar e, no limite, modificar mentalidades e competências neste mundo de rápido desenvolvimento económico, social e tecnológico em que vivemos. É preciso deixar uma marca em quem nos rodeia e em nós mesmos. É preciso agir. Agora é o momento.
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* Cronista
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/agora-e-o-momento/
Imagem da Internet

O super-homem não é o super pai

Francisco Alvim*
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Isso sim pode ser um rombo na imagem e na marca CR7. E não há milhões que lhe valham, a ele ou aos filhos. 
Uma mãe não tem preço.

Depois de mais um ano cheio de conquistas e recordes, eis que Cristiano Ronaldo é notícia por duas razões bem diferentes: alegadamente deve uma brutalidade de dinheiro ao fisco (são 14,7 milhões de euros!); e parece que encomendou mais dois filhos – um par de gémeos – a uma barriga de aluguer.

A nossa admiração por Ronaldo não nos pode impedir de analisar a realidade que o envolve. Confesso que nunca esperei ver o nosso super-homem embrulhado em esquemas de fraude fiscal. E muito menos esperei vê-lo como protagonista de uma novela com filhos sem mãe. Se há quem diga que a primeira trapalhada belisca a sua imagem, eu cá acho que a segunda a mancha de outra forma.

Diferente de tentar “poupar” uns milhões, comprar filhos por encomenda, privando-os de terem mãe, é algo mais preocupante. Já com o primeiro filho tinha sido assim. Talvez seja um devaneio excêntrico, diziam uns. É uma manifestação pura de egoísmo, diziam outros. Não podemos saber o que vai na cabeça de Ronaldo, mas a ser verdade o que se diz, o que me apoquenta é o seguinte: insistir nesta prática indicia que talvez o nosso “mais que tudo” não saiba ao certo o que significa ser família.

Não creio que a culpa seja exclusiva de Ronaldo. Pelo contrário, creio que ele é apenas mais uma vítima do seu tempo e da ideologia dominante. Mas no caso dele, e por ser quem é, o problema assume outras proporções. E por isso o que escrevo vale para Ronaldo como para qualquer um que entre nesta deriva. Porque não se coleccionam filhos como se coleccionam bolas de ouro. Os filhos não são troféus; não são bens transacionáveis; nem deviam ser fruto de um simples acto de vontade de um super-herói. Os filhos não podem ser um caminho de auto-satisfação ou realização pessoal, como quem põe um “check” na obrigação de ser pai.

Não se trata de fazer um juízo moral sobre a actuação de Ronaldo; trata-se de constatar e compreender a natureza como ela é. Tipicamente, a expressão família refere-se a um conjunto de pessoas com um grau de parentesco entre si e que habita na mesma casa. Mas no que respeita ao modelo de família, só conheço um: o natural. Ou seja, aquele que resulta da união entre homem e mulher geradora de filhos.

Naturalmente, isto não significa que os casais que não podem ter filhos deixem de ser uma família, nem significa que os viúvos ou os cônjuges abandonados, a partir desse momento, vejam desvanecer-se a família existente. Nenhum desses circunstancialismos é auto-imposto. A família subsiste. Por isso, todas as aproximações desse conceito serão consideradas família na medida em que procurem respeitar a sua natureza original. O resto serão reproduções mais ou menos incompletas da mesma e não deixarão de ser válidas, excepto quando a falta de completude é deliberadamente provocada. Quem se lixa, convençam-se, é a criança.

Por exemplo, o instituto da adopção foi pensado para conferir às crianças privadas dos seus pais a possibilidade de experimentarem um modelo o mais aproximado possível da realidade que teriam caso aquela privação não tivesse ocorrido – e isso só é possível com um pai e uma mãe adoptivos. O que se fez depois com a adopção é outra conversa e tenho dúvidas de que a preocupação central tenha sido o superior interesse da criança.

Os que legitimam estes comportamentos alegam que todos devem ter direito ao desenvolvimento da sua personalidade e à realização pessoal, justificando assim que quem quer ser pai, pode e deve sê-lo. E pode, ninguém diz que não, mas e porque não arranjar uma mulher que queira ser mãe dos seus filhos? É que também temos direito à nossa identidade e à filiação natural, coisa que estas atitudes ignoram. É a dignidade do ser humano (no caso, da criança) que é posta em causa.

Por outro lado, não cola a ideia de que os homens, querendo, devem poder recorrer a um óvulo ou a barrigas de aluguer apenas porque as mulheres podem recorrer a um dador de esperma anónimo para serem mães, de acordo com as técnicas de procriação medicamente assistida. Se formos sérios no debate e se pusermos o olhar na criança, facilmente se percebe que não se trata de uma questão de igualdade e será injusto (e muito redutor) resumir a discussão a uma luta de sexos.

Lá porque são legais, não quer dizer que essas técnicas estejam certas. Como explicava o professor Bigotte Chorão, as leis iníquas não são para cumprir. E o mesmo vale para a co-adopção por casais homossexuais. Basta pensar na aberração da semana: na Colômbia, três homens decidiram “casar”. Querendo, qualquer um deles pode adoptar ou “mandar vir” um filho e a criança terá então três pais e nenhuma mãe.

A falácia está aqui: pegaram no modelo natural de família e chamaram-lhe tradicional e depois inventaram uma série de outros modelos e disseram que são formas modernas de família. A semântica, essa grande arma.

O ataque ideológico à família é avassalador. E ver Ronaldo embarcar nisso, mesmo sem se aperceber, entristece quem o admira. Não digo que não seja carinhoso com os seus filhos ou que não lhes proporcione todas as condições (desde logo, materiais) para que tenham uma vida confortável. Mas no dia em que os seus filhos lhe perguntarem porque é que os seus colegas na escola têm mãe e eles não, o que lhes dirá o super pai?

Custa ver que uma pessoa que muito se apoiou na sua mãe, Dolores, e que sempre fez um esforço por se rodear dos seus irmãos, assim se preservando de outros males, prive agora os seus filhos de terem uma mãe biológica e uma família completa. Isso sim pode ser um rombo na imagem e na marca CR7. E não há milhões que lhe valham, a ele ou aos filhos. Uma mãe não tem preço.

Podia ser qualquer outro, mas a responsabilidade de Ronaldo não é só a nível social ou fiscal. Ela implica também ser um modelo a nível familiar. Basta pensar na quantidade de miúdos que, ao verem esta confusão, se perguntarão se isto é normal. Por favor, alguém lhes explique que não é. Afinal, o super-homem não é o super pai.
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Advogado
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/o-super-homem-nao-e-o-super-pai/

Rachel Cusk: “Os ingleses têm desdém pelo intelectualismo e pela arte”

Rachel Cusk usa a realidade à sua volta para os seus livros. "Tenho de estar preparada para aborrecer e irritar as pessoas."

"A Contraluz" foi um dos 10 melhores livros de 2015 para o New York Times. A imprensa americana adora-a. Já o Reino Unido, onde cresceu, não lhe tem dado descanso.  
"Talvez eu não seja britânica", diz.

Faye chega a Atenas, no pico do verão, para lecionar um curso de escrita. A primeira pessoa da narrativa conhece-a logo no avião. A primeira de muitas, que lhe hão de contar, à vez, a história das suas vidas: os amores falhados, os medos, as esperanças. Há tudo isso que é viver ao longo das 233 páginas do romance A Contraluz (Quetzal), na forma de longos diálogos. O que Rachel Cusk não deu aos leitores foi um início, um meio e um fim clássicos de uma história. “O livro é uma fotografia de um momento”, justifica, em entrevista ao Observador.

Primeiro volume de uma trilogia, da qual se acaba de publicar em inglês o segundo volume, intitulado Transit, basta ler sobre a vida de Rachel Cusk para começar a juntar as coincidências entre a realidade e a ficção. Faye vai até à Grécia para um curso de escrita criativa e Cusk já foi professora de escrita criativa — o livro dá até alguns conselhos úteis sobre o processo de escrever. É defensora da utilização da realidade, por oposição à invenção pura e dura. Mas essa opção já lhe trouxe problemas pessoais.

A escritora nascida no Canadá, em 1967, mas a viver no Reino Unido há já vários anos, tem nove romances lançados. O primeiro, Saving Agnes, ganhou o prémio Whitbread em 1993. Em 2003, foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas britânicas. O mundo literário não anda distraído.

Em 2014 ganhou mais visibilidade ao lançar A Contraluz (Outline, no original), que no ano seguinte chegou à América e integrou a lista dos 10 melhores do ano para o New York Times. A história, que o jornal considerou na altura “subtil, não convencional e letalmente inteligente”, também foi finalista do prémio Baileys, que distingue a melhor obra de ficção escrita por uma mulher.

Rachel Cusk vê material literário nas coisas mais corriqueiras, nos problemas habituais de cada pessoa, nas rotinas. Eventos únicos, verdadeiros, especiais, que distingam a sua vida da das outras pessoas, não lhe interessam. A imprensa americana venera-a. Mas os críticos ingleses, que com ela partilham o sotaque, não têm sido meigos. Numa conversa com o Observador, durante o festival Literatura em Viagem, em Matosinhos, a autora assume a diferença de tratamento que existe entre os dois lados do Atlântico. E isso está a mexer com a sua identidade. “É engraçada a questão que está a abrir-se na minha vida atualmente. Que talvez eu não seja britânica, que afinal eu venho da América. É um sentimento engraçado, pensar que talvez toda esta hostilidade e rejeição seja uma projeção da pessoa adotada e que o meu verdadeiro lar seja onde compreendem o meu trabalho.”

“A Contraluz” foi publicado este ano (2017) pela Quetzal. Custa 16,60€.

A sua honestidade trouxe-lhe alguns problemas no passado. No livro In The Last Supper: A Summer in Italy, um dos personagens que descreve moveu-lhe um processo, porque considerou que podia ser identificado. O livro Aftermath, lançado há cinco aos, foi muito, muito falado e discutido, porque abriu uma janela para os detalhes do seu divórcio, desde as crianças até às partilhas e pensões. Que marcas é que isto deixou? Mudou algo na sua forma de escrever depois de tanta atenção mediática?
Suponho que me afetou a mim e, consequentemente, a minha escrita. Fiquei muito cansada disso tudo, do facto de os livros não serem compreendidos da maneira correta, porque não foram escritos para provocarem as pessoas. Percebi que tinha de encontrar uma nova forma de… Fazer o que quero fazer. Sem entrar em campos como o da raiva. É uma pergunta muito técnica. Não foi difícil perceber como é que eu podia ser eu mesma e continuar a fazer o que eu quero fazer, sem esta problemática.

Mas o problema era as pessoas ficarem zangadas com o que escreveu sobre a maternidade ou sobre o divórcio, ou era andarem a discutir a sua vida pessoal?
O problema para mim era a maldade, a crueldade, a desaprovação. Porque é um livro, não é que eu tenha poderes, não sou política. Percebi que as pessoas estavam a usar-me como um escape, uma desculpa para defender certos valores ou atacá-los. O problema era eu usar as memórias enquanto estilo. Escolhi fazer assim de uma forma fria e deliberada, por razões artísticas e não porque queria escrever sobre a minha vida. Nem é particularmente sobre a minha vida, é… Uma tentativa de representar certas experiências que me parecem pessoais de uma forma diferente, como ter um filho ou divorciar-me. São experiências em que, por serem contigo, são muito intensas. Desejarias ser outra pessoa durante essas experiências, então a memória pareceu-me absolutamente certa enquanto estilo. Mas foi interpretada como uma confissão, o que tornou mais fácil o ataque das pessoas.

Sentiram-se no direito de discutir a sua vida pessoal porque estava ali, escrita.
Sim, sim. Ou parecia que estava, o que não é o que eu faço. Eu uso pedaços da minha vida porque é o material que eu tenho, mas há muitos, muitos outros aspetos da minha vida sobre os quais eu nunca sonharia escrever. Como crescer na América, por exemplo. Simplesmente porque isso não é habitual, são coisas que apenas eu experienciei, só me vão servir a mim. Mas senti que fui mal compreendida.

O que mudou então quando partiu para este livro?
Vi que a artificialidade, a tela do romance, não precisava de estar lá. Senti que podia tirá-la, deixar a memória de lado e a confissão pessoal, sem perder na narrativa. E não foi assim tão difícil, eu já escrevi vários livros e sei como funcionam as frases.

Ao ler A Contraluz, senti que as várias pessoas com quem a narradora, Faye, se cruza partilham muitos episódios da sua vida. Mas ela resguarda-se mais, comenta, conta algumas coisas, mas não partilha da mesma forma. Não é uma consequência da sobre-exposição que viveu no passado?
É uma forma de fazer com que a superfície do romance funcione. No meu entendimento sobre o que divide a memória da ficção entendi que, na ficção, o narrador sabe muita coisa que finge não saber. Essa é a base de grande parte da escrita descritiva. Eu quis livrar-me disso, então tudo tinha de ser visível à superfície do livro. Nada de entrar nos pontos de vista ou na consciência dos personagens, porque isso é, essencialmente, falso. Na vida real, não podes entrar na cabeça de uma pessoa. Então, quando o narrador diz algo, ela diz o que diz, são os pensamentos dela. Como é que experiências a realidade humana? Vês o que as pessoas fazem e ouves o que elas dizem. E isso era tudo o que eu tinha.

A vida real supera a ficção na hora de fazer literatura?
Eu não estou interessada em inventar coisas. Não é que eu ache que há alguma coisa particularmente interessante na minha vida. Só que é o material que eu tenho à disposição. A maioria dos escritores que eu admiro fazem o mesmo e, quando lês, não é que as vidas deles sejam assim tão diferentes das coisas sobre as quais estão a escrever. Quando lês Thomas Mann, normalmente não encontras nada muito desconexo de um alemão do século XX. A arte não é invenção, é representação. Não estou a tentar entreter as pessoas para fazer dinheiro.

E em relação ao anonimato? É uma escritora muito conhecida, que escreve também sobre a sua vida e a das pessoas que a rodeiam. Não se autocensura por vezes?
Não. É o meu processo. Embora tu possas pensar que eu estou a escrever sobre uma pessoa, mas na verdade não sabes. Acho que a única área em que tive de aprender a ter mais cautela foi essa, porque houve uma ação judicial em que a pessoa achou que se reconhecia no livro.

Como é que isso terminou?
O livro foi retirado e eu tive de pagar uma compensação. Bom trabalho, ãh? [risos] Eu… uso o que está à minha volta e não discrimino assim muito. Quando estou a escrever, uso o que quer que esteja disponível. É verdade que, por vezes, esqueço-me de… Às vezes uso compósitos de coisas diferentes, mas não faço isso deliberadamente, é apenas o que preciso. Este processo não é muito consciente e por vezes posso escrever algo que seja reconhecível, por isso tive de me tornar um pouco mais consciente. E não gosto.

Sente que lhe tira liberdade?
Sim. As pessoas querem manter boas relações umas com as outras, é normal pensar-se “eu não vou fazer isto ou dizer aquilo para não perder o meu amigo, ou para manter a paz”. E isso está certo, mas eu não conseguiria fazer o que faço se pensasse dessa forma. Por isso, tenho de estar preparada para aborrecer e irritar as pessoas.

Assim as pessoas que conhece estão sempre alerta quando estão consigo.
Por vezes, algumas pessoas mais próximas dizem-me: “vou contar-te uma coisa, mas não é para tu usares.” E a partir do momento em que dizem, eu respeito. O que eu acho é que tudo o que é dito para a esfera pública pertence a toda a gente. Isto para mim é óbvio, se andares nua pelo hotel, as pessoas vão olhar para o teu corpo nu. Se não queres que olhem, não andes nua. A discrição é uma decisão pessoal.

Entre os críticos americanos goza de ótimas avaliações. Sente que os críticos ingleses são demasiado duros consigo?
Sim. É engraçada a questão que está a abrir-se na minha vida atualmente. Que talvez eu não seja britânica, que afinal eu venho da América. É um sentimento engraçado, pensar que talvez toda esta hostilidade e rejeição seja uma projeção da pessoa adotada e que o meu verdadeiro lar seja onde compreendem o meu trabalho.

Está a sentir que talvez se deva mudar para a América?
Eu tenho dois filhos… Acho que isto está a acontecer quase com toda a gente, porque o país está a dividir-se em dois. E a parte feia está a ganhar poder. Acho que estas questões estão a levar toda a gente a pensar onde é que pertencem e qual é a sua identidade.

A América está a passar por uma fase semelhante.
É verdade, mas a cultura intelectual americana está mais robusta do que a nossa. Os ingleses têm desdém pelo intelectualismo e pela arte. Os americanos não. Além de que o Donald Trump são quatro anos, o Brexit é para sempre. É diferente.

Ao falar sobre o livro com uma amiga, ela disse-me que sentia que todos os personagens estavam como que inacabados. Posso perguntar porque escolheu Outline (em tradução literal para português, esboço] como título do livro? Tem a ver com o facto de os personagens, tal como cada pessoa, estarem em constante construção?
Em parte é para descrever a paisagem mental do romance, que é sobre perda, alienação e perda de identidade. Em particular, a perda de formas de vida, de um casamento, da vida familiar, do anonimato. E no que, nestas circunstâncias, se podem tornar os encontros com outras pessoas. Por outro lado, é sobre escrita, é um esqueleto literário. Quanto aos personagens estarem inacabados, as pessoas também estão. O livro é uma fotografia de um momento.

A Contraluz foi o primeiro volume de uma trilogia, da qual também já publicou, este ano, o segundo volume, Transit [ainda sem título em português]. Já terminou a terceira parte?
Ainda o estou a escrever e vou publicá-lo no próximo ano.

É a primeira vez que se envolve numa trilogia. Quando é que percebeu que a história sairia em três livros? Já tinha tudo planeado desde o início?
Acho que quando terminei A Contraluz percebi que, por um lado, tinha mais a dizer dentro daquela forma, que era uma boa forma. No final do livro havia tantas questões… Sobre como é que se continua a viver. Interessou-me ver se conseguia respondê-las. E tinha de haver uma ponte entre elas. De certa forma, Transit é essa ponte.

Os três volumes tocam todos na nova fase da sua vida após o divórcio?
São o movimento entre uma realidade e outra completamente diferente. Entre uma realidade que a certo ponto é tão sobrecarregada que cede e desaba. Há um período de trauma e há depois um desejo de encontrar algo mais verdadeiro, em termos pessoais e do outro. Foi mais ou menos isso que eu percebi. Que era um processo, e que, por isso, precisava de mais fases.

É por isso que não dá ao leitor um início, um meio e um fim clássicos.
Exatamente. O segundo livro também vai ser narrado por Faye mas, desta vez, ela vai estar em casa, não vai ser uma estrangeira numa terra estranha. Ela vai ter de revelar coisas sobre si, porque aí ela vai estar no seu meio, onde as pessoas a conhecem. Ela muda-se para Londres e vai tentar criar um lar. Será sobre esse processo e a história, mais uma vez, vai passar-se num curto espaço de tempo, apenas alguns dias. Ela corta o cabelo, conversa com o seu empreiteiro. Essencialmente, vê-se obrigada a lidar com a vida e com o facto de as pessoas a responsabilizarem pelo seu passado. Há ganhos, mas há uma perda de liberdade e ela questiona-se se é isso que ela quer. E se quer viver.
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Reportagem por  Sara Otto Coelho
Fonte:  http://observador.pt/2017/08/26/rachel-cusk-os-ingleses-tem-desdem-pelo-intelectualismo-e-pela-arte/ - acesso 21/09/2017

TOTALITARISMO


 Paulo Tunhas* 
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Age-se como se cada um fosse como um camaleão, pronto a se metamorfosear naquilo a que aspira. Podemos descer na escala dos seres até aos animais ou tornarmo-nos divinos, de acordo com a nossa vontade

É verdade que ainda me surpreendo de vez em quando. Mas o sentimento mais recorrente, desde há algum tempo, é mesmo o tédio. Estou-me a referir aos furores legislativos em matérias que têm a ver com o que dantes se via como vida privada, nomeadamente com a sexualidade. Segundo li, os maiores de dezasseis anos poderão em breve escolher em Portugal qual o seu “género”, e em Espanha o Podemos reivindica naturalmente maior precocidade: os doze anos. E concebem-se penas pesadas para os pais que se oponham a tais decisões da sua prole.

O tédio tem certamente a ver com a frequência com que estas questões são apresentadas no chamado espaço público (a repetição, salvo para os maníacos, afasta a curiosidade) e com o desinteresse político que me sugerem. No que diz respeito ao essencial, a complexidade da psique humana em matéria de sexualidade, Freud, há mais de um século, disse o que havia para dizer, e é muito curioso que, sinal dos tempos, o seu nome se veja arredado de qualquer discussão. Não é só ignorância: Freud, para quem se der ao trabalho de o ler, continua a inquietar. Para mais, e continuando no essencial, a vida dos outros é a vida dos outros e quanto menos nos metermos nela, pretendendo dirigi-la, melhor. Mas, é claro, a questão que hoje é discutida pouco se ocupa destas coisas. Mais uma vez sinal dos tempos, ela centra-se por inteiro na legislação. A legislação tomou todo o espaço do essencial e a complexidade da psique não é para aqui chamada. O inconsciente, para voltar a Freud, não existe no quadro legal. A única coisa que interessa é o modo como o Estado nos pode obrigar à liberdade concebida segundo as modas quadriculadas do dia.

Francisco José Viegas, discutindo brevemente esta questão ontem num artigo do Correio da Manhã, citou o escritor inglês Martin Amis: “Pessoas que querem mudar a natureza humana – é isso o totalitarismo”. A frase toca sem dúvida em algo de importante, e algo que tem uma história que vem de há muito atrás, no início nada tendo a ver com o Estado, totalitário ou outro: a plasticidade do ser humano. Num escrito célebre, publicado em 1480, o humanista italiano Giovanni Pico della Mirandola afirmou a ilimitação do indivíduo. Deus – ele chamava-lhe: “o óptimo artífice” – fez com que os homens tivessem em si algo de todas as outras criaturas, de modo a nenhuma limitação os constranger. Mais: cada ser humano decide aquilo que é, cria a sua maneira particular de ser, nascer é exactamente poder ser aquilo que se quer. Cada um é assim como um camaleão, pronto a se metamorfosear naquilo a que aspira. Podemos descer na escala dos seres até aos animais ou tornarmo-nos divinos, de acordo com a nossa vontade. O ser humano não se encontra preso a nenhum lugar específico.

Pico não pensava certamente nas matérias que hoje ocupam os legisladores, mas a questão da plasticidade dos seres humanos estava no centro das suas preocupações. No entanto, essa plasticidade era para ele sinal de uma mobilidade cósmica dos seres humanos, que correspondia efectivamente a um gesto de liberdade essencial. A coisa no entanto muda com o início do século XIX. Cada um à sua maneira, Hegel, Auguste Comte e Marx desenvolveram filosofias que enquadraram essa plasticidade da natureza humana no contexto de teorias que apontavam, embora com óbvias e significativas diferenças, para a necessidade de uma evolução (ou, se se quiser, de um progresso) orientada para um fim. Os modos de ser humano mudariam necessariamente de acordo com uma sucessão mais ou menos rígida de etapas com vista à realização plena das suas possibilidades.

Essa visão das coisas encontra-se ainda, de uma maneira ou outra, presente entre nós. O exemplo mais notório, embora não o único, é o discurso do marxismo ordodoxo do PC (lembram-se do “homem novo socialista”?). No entanto, sensivelmente a partir dos anos oitenta do século passado, uma doutrina algo equívoca mas com indiscutível sucesso mediático, o chamado “pós-modernismo”, proclamou, pela voz de um dos seus teóricos mais eminentes, o filósofo francês Jean-François Lyotard, o fim das “grandes narrativas”. Significava isso, entre outras coisas, que as teorias da história teleologicamente orientadas (isto é, concebidas a partir da ideia de um fim, previsto desde o início, que haveria necessariamente de se realizar: o comunismo, por exemplo) se encontravam ultrapassadas. Reinaria antes uma nova pluralidade, que não importa aqui detalhar.

O que interessa salientar é que, nessa dissolução da ideia de um fim único da história e na pluralidade conquistada de fins diversos, permaneceu, na prática, a ideia da necessidade da realização de cada um desses fins. As tais “grandes narrativas” bem podem ter colapsado, embora tal seja matéria para discussão, mas o impulso humano para detectar necessidade na realização dos vários estilhaços resultantes da explosão das causas únicas não colapsou de forma alguma.

Mais do que isso. À sombra protectora de um Estado tutelar guiando os nossos mínimos passos, cujo advento Alexis de Tocqueville, para sua grande glória, previu quase até ao mais ínfimo detalhe no século XIX, o universo das causas necessárias e urgentes proliferou como nunca. Talvez, como disse, as “grandes narrativas” tenham conhecido um fim. Mas, em sua substituição, lidamos quotidianamente com um universo em expansão de “pequenas narrativas”. E os seus apóstolos não são menos ferozes nem menos convictos do que os das outras. Como não é menos forte a sua convicção na plasticidade da natureza humana e do papel que o Estado tem em a detalhar no papel da lei.

É nisto que estamos. E a palavra “totalitarismo” que Martin Amis usa convém aqui plenamente. Porque o conceito de “totalitarismo”, um conceito razoavelmente equívoco, como o são todos os conceitos de teoria política, implica não apenas, como, por exemplo, o de despotismo, um poder autoritário que suprime as opiniões políticas divergentes, mas a intromissão na vida concreta de cada um na sua esfera íntima. Em última análise, a indistinção da esfera pública e da esfera privada. Não se trata apenas de calar as opiniões divergentes (embora isso, é claro, também aconteça), mas sobretudo de afirmar a necessidade de, no nosso próprio coração, pensarmos como o Estado quer. E se isso é feito em nome da nossa própria liberdade, que maravilha que é.

A concepção da plasticidade humana ganha assim uma nova forma inteiramente distinta daquela que gozava em Pico della Mirandola. A natureza humana é plástica por um decreto do Estado, que só encontra felicidade em, em nome da nossa própria libertação, estender o seu poder sobre os mais íntimos detalhes da vida individual. Na prática, isso traz o benefício suplementar de calar as questões políticas verdadeiramente substantivas. Dantes, chamava-se a isso alienação. O totalitarismo, versão democrática, não quer outra coisa. O tédio vem também daí: já sabemos como vai ser.
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Nasci a 18 de Maio de 1960. Licenciei-me em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e doutorei-me, também em Filosofia, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Sou professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador no Instituto de Filosofia da mesma Universidade. 
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/totalitarismo/ 21/09/2017
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Nanotecnologia “para uma sociedade mais segura”

O chão e o tecto são perfurados para facilitar a circulação do ar
Células solares para o revestimento de edifícios sustentáveis e bio-sensores que monitorizam a presença de toxinas na água são desenvolvidos no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga. São dispositivos medidos ao milímetro, feitos numa sala limpa de ambiente espacial

De regresso à sala de aspecto ficcional, com um permanente ruído de fundo a lembrar o que se ouve na cabina de um avião em pleno voo. Investigadores e funcionários de manutenção cruzam-se no corredor principal de acesso, com o tecto e o chão perfurados para facilitar a circulação do ar, de fato branco vestido e máscara na cara. Não é fácil identificarem-se, mas cumprimentam-se sempre em inglês — a língua oficial de trabalho do INL. Pedro Salomé, doutorado em Física Aplicada pela Universidade de Aveiro, chega a entrar e a sair da sala limpa “umas 30 vezes por dia”. Descrever os equipamentos, alguns do tamanho de automóveis e até de autocarros, a quem de laboratórios com tecnologia de ponta pouco ou nada sabe — a não ser o que os filmes sobre catástrofes químicas vão revelando — é um desafio para os cientistas. As analogias tornam-se indispensáveis.

Só mais uma, para terminar a visita guiada à sala permanentemente a 20.3 graus celsius, na passagem pela área cinzenta, mais técnica: “Se estivéssemos num teatro, esta seria a parte por detrás do palco.” Aqui, as regras de higiene são um pouco menos apertadas, culpa dos equipamentos de dimensão considerável e ruído mais elevado. Uma das aplicações destas máquinas é o desenvolvimento de sensores de campo magnético. “Quando bate, o coração cria um pequeno campo magnético”, explica. “Novos sensores estão a tentar fazer uma monitorização contínua desse campo magnético” — e sem ser necessário “perfurar ou fazer uma micro-cirurgia de instalação do próprio sensor”, algo que pode ser útil, por exemplo, em unidades médicas de queimados. “No protótipo criado, temos uma cama onde o dispositivo é instalado e onde a pessoa se deita, de peito para baixo, para que o dispositivo faça a medição.” Tudo numa escala inferior a um milímetro quadrado. 
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Fonte:  https://www.publico.pt/2017/09/21/ciencia/noticia/nanotecnologia-para-uma-sociedade-mais-segura-1786077

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

António Miúdo Catolo

António Lobo Antunes*

Susa Monteiro

Vi-o partir para a mata, vi-o regressar da mata com a sua tropa e nunca vi tanta veneração por um chefe como aquela que os homens tinham por ele. Veneração, respeito, amor. E um dom natural para as relações humanas. Jamais o vi ler ou escrever fosse o que fosse. Mas tinha uma capacidade natural para entender os outros e, apesar de duro, era extremamente afetuoso

No Leste, na fronteira com a Zâmbia, nas Terras do Fim do Mundo, encontrei o mais extraordinário militar que conheci na vida: António Miúdo Catolo, o comandante dos Flechas, que faziam a guerra ao nosso lado. Uma ocasião íamos atrás do Comissário Sangue do Povo, um dos mais prestigiados nomes do MPLA, cujas pegadas se reconheciam pelas botas que usava. E dessa maneira o seguimos até à margem do rio, onde as suas marcas acabavam. A ideia da tropa era que ele tinha atravessado o rio e continuado a partir da outra margem.

Ficámos a olhar as pegadas desiludidos, até que António Miúdo Catolo disse

– Ele não atravessou o rio. Descalçou-se, voltou para trás às arrecuas e continua deste lado.
E mostrou-nos que os calcanhares estavam, na areia, mais fundos que as biqueiras o que apenas se consegue caminhando dessa forma. E isso permitiu continuar no rastro dele. António Miúdo Catolo era excepcionalmente inteligente, excepcionalmente corajoso e excepcionalmente bem disposto. Possuía uma autoridade natural única e, além disso tudo, era meu amigo e meu compadre. Miúdo Malassa, Miúdo Machai, os outros comandantes, tinham por ele um respeito total e uma confiança sem limites. Mesmo a população, ao cruzar-se com António Miúdo Catolo, não lhe dizia
– Môio
que significa olá, dizia-lhe
– Muata
que significa chefe. Punham as mãos e diziam
– Muata
numa veneração total. Até o Soba Caputo, um Soba com muito prestígio, o tratava por
– Muata
e a propósito do Soba Caputo ele tinha um filho chamado Sindicato, Sindicato Caputo. Sindicato, por sua vez, teve um filho também e veio convidar-me para padrinho. Perguntei-lhe
– Como se chama o seu filho?
e o Sindicato respondeu-me, com orgulho
– Crítico
e portanto tenho um afilhado que se chama Crítico. Voltando ao António, que era alto, magro e de enorme bigode, eu sentia por ele uma grande consideração e uma grande amizade. Tratava-me por Senhores Doutores

(o plural era uma honra para mim)

e fui também padrinho de uma filha sua. Às vezes convidava-me para jantar na sua casa, num quimbo como os outros, uma moamba feita pela Domingas, sua mulher. Eram sempre jantares solenes: o António e eu sentávamos-nos numa esteira, a Domingas, a Senhora da Casa, trazia-nos uma bacia com água, um sabonete e uma toalha para lavarmos as mãos, este sinal de amizade era comovente, e a seguir oferecia-nos as melhores moambas de galinha que alguma vez comi na vida. Claro que ela não se sentava connosco porque os homens comem sozinhos, mas sentíamo-la por ali, atenta e educadíssima. Era uma rapariga bonita e simpática e tinham uma relação muito forte. Sempre que falava na Domingas o António iluminava-se. Vi-o partir para a mata, vi-o regressar da mata com a sua tropa e nunca vi tanta veneração por um chefe como aquela que os homens tinham por ele. Veneração, respeito, amor. E um dom natural para as relações humanas. Jamais o vi ler ou escrever fosse o que fosse. Mas tinha uma capacidade natural para entender os outros e, apesar de duro, era extremamente afetuoso. As pessoas são muito diferentes do que parecem e demoramos muito tempo a conhecê-las. Sucedeu-me isso, por exemplo, com Ernesto Melo Antunes. Fui estúpido: demorei a compreender a grandeza do seu coração, demorei ainda mais tempo a compreender a sua bondade. Era duro e exigente e acabámos a gostar tanto um do outro. Nunca me esquecerei de quando o primeiro rapaz dele desapareceu. Olhou-me em silêncio um ror de tempo até que disse baixinho

– Tinha jurado que os levava a todos e as suas pálpebras estavam diferentes. Na véspera ou antevéspera de partir disse-me

– Acordei esta noite todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade.

E lá fui, atrás do caixão, com uma filha sua em cada braço. Era, com António Ramalho Eanes, o homem que conheci mais capaz de um amor viril por um amigo. E sinto-me abençoado por os ter conhecido. O Ernesto, o António e o António Miúdo Catolo foram para mim, são para mim uma trindade única de rectidão, honestidade e valor. Meu Deus a vontade que tenho de ir de novo às Terras do Fim do Mundo e abraçar o meu compadre António Miúdo Catolo, voltar a passear com ele, voltar a ouvi-lo, voltarmos a rir-nos. É que não é muito frequente, na nossa vida, encontrar um Homem, ter tido o imenso privilégio de encontrar um Homem. Eu que pouco valho ao pé deles. É que felizmente há pessoas que nos ajudam a erguermo-nos sobre as patas de trás. E estes três, que vivem e viverão para sempre em mim, conseguiram-no. 
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* Escritor e psiquiatra português. 
(Crónica publicada na VISÃO 1279, de 7 de setembro de 2017)
Fonte:  http://visao.sapo.pt/opiniao/2017-09-14-Antonio-Miudo-Catolo

JANOT: "Eu não criminalizei a política. Criminalizei os bandidos".

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Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 "Eu não criminalizei a política. Criminalizei os bandidos", afirma o ex-procurador 

Na primeira entrevista depois de deixar o comando da Procuradoria-Geral da república, Rodrigo Janot relata ao Correio os bastidores dos momentos mais importantes da Lava-


No quarto andar da sede da Procuradoria-Geral da República, funcionários trabalham para adaptar um amplo gabinete ao novo ocupante, que acaba de chegar. Um arco e flecha pendurado à parede divide o espaço com uma escultura de tuiuiu e com uma coleção de canetas — uma delas, em destaque, foi usada para assinar a delação premiada de executivos da Odebrecht.

De camisa polo e com visual despojado, Rodrigo Janot parece alheio ao bombardeio que vem recebendo há meses. O mineiro, de Belo Horizonte, deixou o posto de procurador-geral da República no mais conturbado momento de seus 33 anos de carreira. Até a transmissão de cargo à sucessora, Raquel Dodge, foi controversa: Janot não compareceu à cerimônia de posse. Na entrevista exclusiva ao Correio, Janot explica a ausência: “Quem vai em festa sem convite é penetra”.
O procurador revela que não foi convidado nem mesmo para transmitir o cargo. Se fosse ao auditório, teria de procurar um assento. Ele conta que não havia sequer uma cadeira reservada. Mas garante que não se sentiria constrangido em dividir a cena com políticos que denunciou, como o presidente Michel Temer. “As pessoas que têm de se sentir constrangidas”, aponta.
Em duas horas e 20 minutos de conversa, o ex-chefe do MP relata os bastidores de momentos importantes que marcaram a Lava-Jato: o pedido de prisão do então senador Delcídio do Amaral, a morte do ministro Teori Zavascki, a “escolha de Sofia” na imunidade concedida ao empresário Joesley Batista em troca de provas contra Temer e as suspeitas envolvendo integrantes do próprio Ministério Público.
Janot deixou o cargo, mas não se afastou da turbulência. Pelo contrário. Ele sabe que, agora, começam de verdade os ataques, principalmente na CPI da JBS, comandada por aliados de Temer. “Vão tentar usar todo mundo e tudo contra mim… Tudo é possível, vão tentar desconstituir a figura do investigador”, diz. E já se defende: “Não levei dinheiro do Miller nem autorizei ninguém a receber mala de dinheiro em meu nome. Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento”. Para quem acha que o ex-procurador-geral exagerou, ele rebate: "Não criminalizei a política. Criminalizei os bandidos". 

Por que o senhor não foi à posse da sua sucessora, Raquel Dodge?
Na minha terra, se diz o seguinte: a gente não vai a festa sem convite. Quem vai em festa sem convite é penetra.

O senhor não foi convidado?
Para a posse, definitivamente, não fui convidado. A gente tratou como seriam colocados os termos no convite. A primeira proposta foi com meu nome: “O procurador-geral da República convida”. Mas o pessoal da transmissão pediu para sair em nome do Ministério Público da União, por e-mail. Eu é que expedi esse e-mail.  Mas não recebi convite nenhum. Os convites para chefes dos poderes pediram para que eu fizesse nominalmente. Mandei aos presidentes do Supremo, da Câmara, do Senado, da República, aí sim, um ofício meu, enquanto procurador-geral. Meu mandato terminou domingo, dia 17, até lá eu era procurador-geral. Perguntei se queriam uma transmissão de cargo, mas me informaram que eu não posso transmitir aquilo que eu não tenho mais. Por isso que não fui, porque não fui convidado.

Não seria constrangedor sentar à mesa com pessoas que denunciou?
Não sentaria à mesa. Mas eu estou na minha casa, as pessoas que têm que se sentir constrangidas, não sou eu. Fiz o meu trabalho. Se tivesse sido convidado, iria, com certeza. Outro detalhe: também não tinha lugar reservado para mim no auditório, não. Eu teria que chegar e bater cabeça para achar uma cadeirinha.

Por que a rivalidade com Raquel Dodge chegou a esse ponto?
Não sei. Nunca houve uma rivalidade a esse nível, claro que não.

Substituições de equipe podem comprometer o trabalho em andamento na Lava-Jato?
Em tese, todos estão preparados para esse tipo de trabalho. É claro que as pessoas têm que trabalhar com quem têm afinidade. Isso é normal. Eu me espantei porque havia ofício formal, com convite para que toda a equipe da Lava-Jato continuasse. Existia um ato formal dela. Houve uma conversa com o pessoal da equipe, em que ela disse novamente que todos estavam convidados. Depois, ela começou a desconvidar.

O que houve?
Não sei. No sábado, fiz uma feijoada para a despedida da minha turma. A turma dela ligou para dois colegas meus, o Fernando (Alencar) e o Rodrigo Telles, desconvidando-os. Com relação ao Rodrigo Telles (que auxiliou Janot na investigação contra Agripino Maia), o que disseram é que havia muita resistência ao nome dele, não disseram de quem, e sobre o Fernando, disseram que ele ultrapassava o percentual que o Conselho (Superior do Ministério Público) estabeleceu para o recrutamento de pessoas. Esses foram desconvidados no sábado.

Fora do MP, o senhor foi muito questionado, sobretudo por causa do processo relacionado à JBS. Saiu de uma posição de herói e, de uma hora para outra, passou a ser apontado como vilão...
Existem estratégias de defesa. Quando o fato é chapado, quando o fato é mala voando, são R$ 51 milhões dentro de apartamento, gente carregando mala de dinheiro na rua de São Paulo, gravação dizendo “tem que manter isso, viu?”, há uma dificuldade natural para elaborar defesa técnica nesses questionamentos jurídicos. E uma das estratégias de defesa é tentar desconstruir a figura do acusador. É assim que eu vejo. De repente, passo a ser o vilão da história, o dito vilão da história, porque há necessidade de desconstituir a figura do acusador. O que fizeram comigo vão fazer com outros. Tenha certeza absoluta.

Mas o senhor enfrenta críticas de acusados desde o início. O senador Collor, por exemplo, já soltou impropérios contra o senhor... 
Mas numa proporção muito menor… Ele só xingou minha mãe várias vezes (risos). Mas agora cheguei ao poder real. No núcleo de poder, no centro dessa Orcrim (organização criminosa), e a reação é essa mesmo. Eu já imaginava que isso aconteceria, mas não imaginava que seria nessa proporção. Não imaginava como viria o coice. A orquestração é visível.

Ao se despedir, na sexta-feira, o senhor falou em sofrimento…
É um desgaste danado, você catalisar tudo sozinho… Eu tinha que manter a equipe funcionando até 17 de setembro. Foi tudo muito intenso. Investigações importantes foram chegando maduras nas duas ou três últimas semanas do meu trabalho. Essas investigações dependiam de atos de terceiros também. Para a denúncia da organização criminosa do PMDB da Câmara, tive que aguardar a conclusão do inquérito. O delegado só relatou o inquérito na segunda-feira, um excelente relatório, de mais de 400 páginas, que mostra um retrato da atuação dessa organização criminosa. De um lado, eu tinha que manter a equipe funcionando e tirando deles a pressão para que trabalhassem com eficácia e eficiência. Eu tinha que absorver tudo isso sozinho, não é para criança, não. Não é brinquedo, não. Só pancada. Não é para amador.

Na delação de Joesley, houve questionamentos com relação ao fato de ele revelar crimes tão graves e ir embora de avião particular para os EUA. Como lidou com a revolta que isso suscitou?
Eu tinha uma escolha de Sofia. Ele chega, nos traz uma demonstração, que foi um pequeno take do áudio, que revelava crimes em curso praticados pelo alto escalão da República. O presidente da República, um senador importante que teve 50 milhões de votos na eleição anterior, um deputado federal, a prova fazia menção a um colega meu infiltrado. Eram crimes gravíssimos e em curso. Tomo conhecimento disso, vejo que tem indicativo de prova. Eles disseram: “A gente negocia qualquer outra coisa, menos a imunidade”. A minha escolha de Sofia era: se eu não pego o material que eles tinham, eu não poderia investigar, eu teria que ficar quieto vendo esses crimes acontecerem ou então eu tinha que negociar a imunidade.

O fato de Joesley ir para a cadeia é de certa forma um alívio para o MP depois de tantas críticas? 
Ele foi mais esperto que ele mesmo. A esperteza capturou ele próprio. A gente tem que deixar muito claro: a colaboração premiada é um instituto novo para a gente, já aprendemos muito. Quando a gente faz um acordo desse, é de natureza penal, a gente está negociando com bandido, bandi-dê-ó-dó. O cara, porque é colaborador da Justiça, não deixa de ser bandido. As coisas têm que ser muito claras. A mesa de negociação é um lugar muito duro, um ringue mesmo. O colaborador tem que vir de coração aberto, tem que vir para o lado do Estado. Tem que falar tudo. Quem faz juízo sobre a prática ou não de delito é o MP, não o colaborador, ele tem que entregar tudo. A gente tem muito anexo que não tem nada de palpável, mas a gente recebe e analisa. O juízo nós que fazemos. E o que eles fizeram? Eles esconderam fatos. Trouxeram “A” mas não nos trouxeram “B”. Porque não trouxeram “B”, está contaminado todo o acordo. Só que o fato de ele não trazer o “B” não influencia nem tangencia o “A”. Não contamina. A rescisão me permite continuar usando a prova. Mas dá um gosto amargo, o sujeito não pulou o lado, continuou ao lado da bandidagem. 
"O cara, porque é colaborador da Justiça, não deixa de ser bandido. As coisas têm que ser muito claras. A mesa de negociação é um lugar muito duro, um ringue mesmo"

E as denúncias envolvendo o ex-procurador Marcelo Miller? O fato de ele ter negociado com o grupo JBS quando ainda fazia parte da equipe da PGR compromete a validade das provas?
Existe uma investigação em curso, mas, se ele fez isso, foi sem o nosso conhecimento. E se fez sem o nosso conhecimento, ele não pode contaminar um ato que é nosso. Se ele fez, não está comprovado ainda, vai ter que responder por isso.

O fato de ele ter abdicado de uma carreira como ao MP não despertou dúvidas na sua equipe?
No último um ano e meio, cinco colegas saíram. 

 Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
"Não levei dinheiro do Miller nem autorizei ninguém a receber mala de dinheiro em meu nome. 
Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento%u201D 

É o salário?
É dinheiro. Também é muita responsabilidade, muita restrição. O fato de ele ter saído não suscita nenhuma suspeita. O Marcelo trabalhou forte na colaboração da Odebrecht. Ele já tinha voltado para o Rio de Janeiro havia um ano e continuou na força-tarefa como colaborador, eventualmente era chamado a fazer alguma colaboração aqui. Mas não estava no núcleo.

O senhor se sente traído?
Eu quero ver a conclusão da investigação para fazer algum juízo. O caso do Ângelo (Goulart) está investigado, ali eu me senti traído, com certeza.

O procurador Ângelo Goulart criticou sua forma de atuação, disse que o senhor agia rapidamente para chegar ao presidente Temer…
É engraçado isso, ele não trabalhou comigo. O Ângelo trabalhava no eleitoral, nem no mesmo prédio ficávamos. Quando foi chegando ao fim do mandato, como tinha interesse de permanecer em Brasília, ele perguntou se poderia ser designado para a força-tarefa da Greenfield, da PRDF. 

É verdade que o senhor vomitou quatro vezes ao tomar conhecimento desses fatos relacionados ao procurador Ângelo Goulart?
Sim. É muito triste isso de prender um colega. Tem um crime militar que a gente chama de perfídia. Perfídia é o sujeito que é do teu grupo e que vende esse grupo para o inimigo. Ele passa a ajudar o inimigo a te dar tiro. Esse é o sentimento que deu na gente. A situação é muito ruim, sentir que contaminou.

O procurador Ângelo alega que atuou para tentar encabeçar as tratativas da eventual delação. Ele agiu motivado por dinheiro?
Essa linha de defesa ele já adotou no processo administrativo disciplinar aqui dentro. Ele tentou se passar por herói. Como se ele tivesse se oferecido a eles para poder derrubá-los. Como se fosse o mocinho, o super-homem. Mas como faz um trabalho desses de atuação infiltrada sem falar com os russos? Ele faz isso sem falar com os colegas, com ninguém? Não falou com o Anselmo (Lopes, coordenador da Operação Greenfield). Agora vamos ver os fatos. Houve uma reunião em que o Anselmo fez um desenho à mão da estratégia da investigação. Esse papel foi aparecer com um advogado da JBS. A troco do quê? Ele foi pilhado numa ação controlada em que conversa com desenvoltura. Depois, ele tem gravada a conversa com o advogado. Tudo isso ele bolou sem avisar ninguém? É fantasioso. E acertou dinheiro, sim, R$ 50 mil por mês.

Há provas de que ele recebeu dinheiro?
Tem relato do Francisco (de Assis, advogado), tem advogado acertando, dizendo que tinha dinheiro, tem o croquis do planejamento, tem gravação, visitas. A expressão que a gente usa é “batom em certo lugar”. 

Ainda citando o que ele diz, o senhor se referia a sua sucessora como a bruxa?
Não. É aquela coisa, como se faz para desconstruir o acusador.

Essa campanha que o senhor menciona para tentar atacar o acusador como foi?
O nível é muito baixo, chegaram à minha família, à minha filha.

Saindo do cargo, acredita que vai diminuir?
Pelo contrário. A notícia que tive é: vai aumentar. A pressão para cima de mim só vai aumentar.

Teme que a CPI da JBS vire instrumento de vingança?
A CPI não é da JBS. O relator já afirmou que o escopo da CPI é investigar os investigadores. O escopo da CPI não são os empréstimos da JBS no BNDES. Ninguém falou sobre isso. Estão falando em convidar também o Ângelo, o Eugênio Aragão.

Em um texto divulgado na internet, o procurador Aragão defendeu Ângelo, e disse que ele apenas atuava com métodos heterodoxos para conseguir acordos de colaboração...
Sabe por quê? Quem trouxe o Ângelo para atuar no eleitoral foi o Dr. Eugênio Aragão. 

Como vai se proteger desses ataques que o senhor já prevê?
Primeiro, quero descansar, vou tirar 20 dias, viajar. Depois, vou ver as estratégias. A imprensa tem que ser muito atuante agora. Essa CPI não pode ser a CPI dos investigadores. Essa CPI tem que seguir o escopo dela. Não é a CPI dos empréstimos do BNDES? E querem investigar quem? Eu? Eu não participei de empréstimo nenhum da JBS. O acordo da JBS foi judicial. Foi homologado pelo Supremo e foi reafirmado pelo Supremo. Como o Congresso pode querer desconstituir isso? 

Vão tentar usar o Miller contra o senhor na CPI?
Vão tentar usar todo mundo e tudo contra mim… Tudo é possível, vão tentar desconstituir a figura do investigador. Não levei dinheiro do Miller nem autorizei ninguém a receber mala de dinheiro em meu nome. Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento.

Acredita que a população vai aceitar uma atuação como essa da CPI?
O brasileiro é honesto. Espero que a cidadania seja ativa para enxergar esse tipo de manobra. Outra estratégia também é usar a imprensa estrangeira, já começaram a falar lá fora, e a falar forte. Quando começaram as alterações no grupo de trabalho da Lava-Jato, saiu uma notinha com a chamada "It begins" (“Foi dada a largada”, em tradução livre). O título diz tudo.
"O brasileiro é honesto. Espero que a cidadania seja 
ativa para enxergar esse tipo de manobra"

O que achou do fato de Dodge não ter citado nenhuma vez a Lava-Jato no discurso de posse? Foi pelo fato de a operação ter se tornado a marca do senhor?
A Lava-Jato não pertence ao MP, pertence à sociedade, ao mundo. Não é uma marca minha. Eu dei as condições necessárias para que outros colegas pudessem trabalhar, em Curitiba, no Rio, em São Paulo. A Lava-Jato não pertence mais ao Ministério Público. É um patrimônio da sociedade brasileira. Ela corre o mundo.

A Lava-Jato corre risco real?
Está cedo para avaliar. É preciso aguardar para ver como a coisa evolui. Se houver risco, não acredito que isso contamine nem Curitiba, nem Rio, nem São Paulo, que já têm investigações com pernas próprias. 

O senhor foi flagrado conversando com o advogado Pierpaolo Bottini, que representa Joesley, em um bar. Não foi um encontro impróprio, dadas as circunstâncias?
Não era um bar, era uma distribuidora de bebidas. Vou àquele lugar todo sábado. Chego ali, tomo uma cerveja e vou embora para casa. Conheço todo mundo, conheço o dono, o César, desde a época em que ele vendia minhocas, conheço todos os frequentadores. A gente conversa, passa ali meia hora, uma hora. Abriu uma feijoada ali do lado aos sábados que é ótima.

Disseram até que essa reunião era comparável ao encontro de Joesley com Temer no Palácio…
Meio dia, em um lugar público, frequentado por um zilhão de pessoas? A conversa não durou 10 minutos, não falamos de trabalho, de nada disso. Falamos de cerveja. Aconselho passearem por lá, tem tudo quanto é cerveja artesanal.

O advogado Willer Tomaz, também denunciado, recebia em sua casa  figuras importantes, inclusive o procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bessa. Causa suspeição?
Relacionamento da gente com advogado é uma coisa normal. Dos meus amigos que fiz em Brasília quando cheguei há 33 anos, a maioria é advogado. Todo mundo se conhece. E advogado de bandido não é bandido, a gente tem que ter esse relacionamento.

O senhor teve embates duros também com o ministro Gilmar Mendes. O STF vai enfrentar o tema da suspeição do ministro?
Vão ter que enfrentar, claro. Quando alguém argui suspeição, esse é um termo técnico normal. A arguição de suspeição é para garantia da atividade da magistratura e dos jurisdicionados. O magistrado tem que ser isento. Eles vão enfrentar, sim. O resultado, não sei.

Fazendo uma comparação com a Operação Mãos Limpas, na Itália, o senhor teme pela sua vida?
Temer, não! (risos). 

Acredita que o MP estará com o senhor?
Acho que sim, não só o federal, o Ministério Público do Brasil inteiro. O Ministério Público brasileiro hoje está em outro patamar.

Durante sua gestão, onde errou?
Com certeza, erros aconteceram, mas não consigo fazer esse juízo agora. Preciso de um afastamento para poder enxergar.

A Lava-Jato é uma sucessão de delações. Como isso começou?
Tem um momento para mim que foi um divisor de águas. O que deu impulso danado nas colaborações foi a decisão do STF, que disse: condenou em segundo grau, vai para a cadeia. Os caras começaram a fazer conta. A estratégia era empurrar, agora não tem mais jeito. Esse foi, na minha leitura, um dos pontos que gerou essa mudança. Grandes delações também chamaram todas as outras.

O Supremo vai rever alguma delas?
Não acredito que o STF vai recuar. Seria um prejuízo enorme. 

A delação do Delcídio, com a prisão de um senador no exercício do mandato, foi decisiva?
Sim. Divisor de águas foi a colaboração do senador. Ele gravou, os fatos eram gravíssimos, e era um senador, líder do governo. Quando fiz o pedido de prisão, sabia que tinha cruzado o rubicão e que tinha queimado a única ponte atrás da tropa, que não tinha mais recuo. Era só para a frente. Foi um momento de muita tensão, era uma novidade e eu não sabia o que aconteceria. 

Com a morte de Teori, temeu pelo fim das investigações?
Temi, sim. Eu sou agnóstico, eu creio muito pouco. Com a morte dele, eu passei a crer ainda menos. Eu dizia: não é possível.

Suspeitou de assassinato?
No começo, claro. Mas a investigação foi feita por nós, pelo MPF, em Angra dos Reis, e estamos seguros de que foi acidente mesmo.

Foi o momento mais difícil?
Esse foi um dos mais difíceis, com certeza, foi devastador para todo mundo. Ele era muito firme. Ainda bem que o ministro Fachin também é. 

Como avalia a atuação de Moro?
A gente está no meio de um lamaçal, no meio de bandidos, cheiro de podre para todo lado, só tem uma maneira de não se contaminar, a gente tem que ser reto. O Moro é duro, eu fui duro, e tem que ser mesmo.

O que foi essencial na Lava-Jato?
O grupo de Curitiba foi muito importante. O juiz foi muito importante. Uma parte que pouca gente fala, mas que permitiu chegar até agora, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que manteve com firmeza todas as decisões.

O Brasil mudou com a Lava-Jato?
Está mudando. Na minha terra, quando a gente fazia muita traquinagem, apanhava com vara de marmelo, aquela bem flexível. Aquilo na perna dói para caramba. Nós envergamos essa vara e temos que ter cuidado para ela não soltar, senão volta batendo em todo mundo e vai ficar em pé. Estamos nesse ponto de inflexão, a vara foi dobrada, mas não foi quebrada. E essa vara tem que ser quebrada. 

Ainda tinha muita flecha?
Sim, tenho ainda algumas ali (aponta para arco e flecha que recebeu de índios).

Mesmo depois do início da Lava-Jato, muitos atos de corrupção prosseguiram. Gim Argello, por exemplo, negociava convocações para a CPI da Petrobras…
Com três anos e meio de Lava-Jato, vimos várias conversas não republicanas, malas para cá, malas para lá. Mas seria mais grave sem a Lava-Jato. A vara está envergada, mas não foi quebrada. Tem que ser quebrada.

O senhor falou de egoístas e escroques ousados. Eles estão em todas as instituições?
Sim, até na minha tem.

Como será julgado pela história?
Quero ser julgado de maneira isenta. Se eu errei, que apontem os erros. Se eu acertei, que mostrem os acertos. Só isso. 

Uma das críticas é a forma como o MP consegue as delações, que os acusados falam só para fugir da cadeia. Um dos casos levantados é o do ex-ministro Palocci...
Essa história de que a gente prende para ter colaboração, muita gente falava isso, e a gente só mostrava a estatística: 85% são com pessoas soltas. A pessoa só tem medo de ser presa quando comete crime. É crime e castigo, tem até um livrinho com esse nome. A lei diz que a colaboração tem que ser espontânea, voluntária, se não for assim, não pode ser homologada. A iniciativa tem que ser do colaborador, com advogado. Não posso ter conversa escondida com colaborador. A negociação é dura. Concluído isso, a gente faz o contrato do acordo, o magistrado chama o colaborador, sem a nossa presença, e pergunta se foi instigado, incentivado, obrigado, ameaçado. Existe toda essa preocupação para que o colaborador possa falar. Quando ele fala, não basta imputar algo a alguém, tem que dar o caminho da prova. Diziam que era coisa de X9, de dedo duro. Ele tem que dizer o crime que cometeu, o comparsa dele, como participou desse crime e revelar o caminho da prova. Se imputa falsamente, ele comete crime. E não acabou a colaboração. Ela é homologada e, no fim do processo, o juiz analisa a eficácia dessa colaboração. O colaborador tem que ajudar a acusação na obtenção das provas. Se não fizer isso, ele perde a premiação. Se o colaborador der causa à rescisão, como acontece agora com Batista e Ricardo Saud, ele perde toda a premiação, responde pelos crimes que cometeu e toda a prova que ele deu para a acusação é válida. É uma situação muito delicada a do réu colaborador.

Como veio à tona esse novo áudio de Joesley?
Quando foi feito esse acordo, contrataram um grupo para fazer levantamentos dentro do grupo empresarial para identificar as provas para a orientação da colaboração. E, aos poucos, iriam fazendo os novos anexos e indicação dos fatos criminosos. Pediram 120 dias para fazer isso. No acordo, constaram aqueles anexos que trouxeram no primeiro momento e, no período de 120 dias, trariam complementos. Um pouco antes, pediram a prorrogação por mais 60 dias. A gente concordou com a prorrogação. Com medo de perderem o prazo e ter rescindida a colaboração, eles empurraram tudo para cá. Vieram muitos anexos e muitos áudios. Para agilizar, a gente dividiu tudo entre os colegas. No grupo da Lava-Jato, ficou todo mundo ouvindo os áudios. A Carol (procuradora Ana Carolina Rezende) ficou com um grupo de áudios. Tinha um anexo que envolvia uma pessoa cujo processo está em sigilo, o codinome era Piauí, com quatro áudios. O maldito áudio Piauí 3 não tinha nada a ver com esse anexo. O Piauí 1, 2 e 4 tinham a ver, eram conversas com determinado senador. A Carol, domingo de manhã, manda mensagem no nosso grupo dizendo que tinha um áudio jabuti, contrabando, de quatro horas, falando de Miller, de várias coisas. Viemos para cá, passamos a tarde aqui. Era um jabuti, um anexo de contrabando colocado sem nenhuma remissão de que não tinha nada a ver com Piauí. A PF disse que tinha recuperado 7 áudios, que estão sob sigilo, porque o advogado dos colaboradores disse que boa parte é conversa entre advogado e cliente. E que a perícia da PF teria recuperado mais 11 áudios.

 Joesley tinha apagado e a PF conseguiu resgatar?
Isso. Na leitura que fizemos, isso não poderia ter sido um equívoco, foi uma casca de banana mesmo. O ministro Fachin lacrou os 11 áudios, nem nós conhecemos. Eles, com medo de um dos 11 áudios ser um dos que estão recuperados pela polícia, colocaram um jabuti. Lá na frente, quando estourasse o negócio, diriam que entregaram e nós ficamos calados. É óbvio que foi uma armadilha. E como desarma uma armadilha? Coloca luz sobre ela. Santa Carol! Se ela não fosse tão CDF, poderia ter passado.

Há alguma possibilidade de o desfecho da segunda denúncia contra Temer ser diferente no Congresso?
Acho que não. Mas a solução política não me interessa. Tenho que fazer o meu trabalho. A Câmara não rejeita a denúncia, ela autoriza ou não o processamento. 

O senhor virou carrasco dos políticos corruptos?
Cada um tem que fazer o seu trabalho. O corrupto tem que entender que acabou a era de que nada acontece com ele. Grandes empresários, o poder econômico e o poder político, está todo mundo respondendo igualmente, não é mais a justiça dos três pês. 

Como vê as acusações de que age com interesses partidários?
Primeiro eu era petista, indicado pela Dilma. Quando viram o meu radar, virei perseguidor de político. Não estou criminalizando a política, estou criminalizando bandido.
"Eu não criminalizei a política.Criminalizei 
os bandidos" 

Como responde a críticos que dizem que o MP sai menor?
O MP sai gigante, pois é reconhecido fora do Brasil. Aonde você vai, os colegas de fora reconhecem nossa atividade, na França, na Suíça, nos EUA, todos os ministérios públicos do Mercosul reconhecem nossa atividade.

Depois dos 20 dias de descanso, como vai refazer a vida?
Tenho projetos que quero tocar, não quero sair dessa área de combate à corrupção. As pessoas de fora me pedem para não sair dessa área. Nossa atividade virou paradigma. O Brasil deu um passo gigantesco no combate à corrupção. Mas isso, para o bloco, não é suficiente. Se o Brasil continua esse caminho, e acho que vai continuar, pode começar a exportar corrupção. O bloco tem que caminhar de forma harmônica e as pessoas pedem que eu seja uma voz no combate à corrupção. Na PGR, vou atuar na área criminal do STJ.

 Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Traição: "Eu quero ver a conclusão da investigação para fazer algum juízo"

Na eleição de 2018, como garantir renovação?
A cidadania vem com força para 2018. Ninguém aguenta mais ser enganado dessa forma. Agora, é importante também que a política faça a sua parte. Temos que ter reforma política profunda.

Como fazer isso com um Congresso contaminado?
Vamos imaginar que os novos políticos de 2018 recebam da cidadania uma cobrança muito forte para que haja essa mudança. Não podemos ter senador que teve zero votos, um deputado federal que teve 15 votos, que ninguém sabe quem é.

Com a saída de Dilma, a corrupção ficou mais explícita?
A cada dia que passa, a gente está jogando mais luz sobre a corrupção. É isso.
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REPORTAGEM POR  Ana Dubeux , Ana Maria Campos , Helena Mader