quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Uma vida a falar da vida que não se teve, da vida no corredor da morte

Curtis McCarty esteve preso 21 aos, 19 dos quais no corredor da morte Daniel Rocha

Curtis passou 19 anos à espera de ser executado. A condenação foi anulada e foi libertado, o que não significa que ficou livre. 
A impossibilidade de fazer conversa 
é um dos pesos que carrega.

Há pouco tempo, Curtis McCarty teve “uma experiência bizarra”. O pai, viúvo, voltou a casar e quando estava a arrumar a casa onde vivia com a mãe encontrou as cartas que ele enviara da prisão. “A partir de certa altura, havia ali muita violência. Não reconheci aquela pessoa. Era eu, mas era uma versão perversa de mim, não reconheci muito do que tinha escrito”, diz.

Curtis fala das cartas quando está a tentar explicar que não se lembra assim tão bem dos muitos anos que passou preso, 21, por um crime que não cometeu e dos três julgamentos, em 1986, 1989 e 1995, em que foi condenado à morte pelo assassínio de Pamela Willis, de 18 anos. “Sei que devia ter memórias mais vívidas, mas não tenho. Não sei como é que suportei esses julgamentos. Só sei que me levantava todos os dias da cama.”

Curtis nasceu pobre, na cidade norte-americana de Oklahoma, no estado norte-americano com o mesmo nome, e tomou más decisões. Aos 15 anos já tinha problemas com drogas e desistira da escola. Conheceu Pam, filha de um polícia que levava uma vida parecida. Pam foi morta em 1982 e Curtis, então com 19 anos, foi uma das muitas pessoas que os investigadores ouviram.

Quatro anos mais tarde foi acusado e condenado. Já tinha um filho com seis anos que vivia com a mãe e com quem nunca conseguiu construir uma relação desde que foi libertado, há sete anos.“Alguém decidiu que o melhor era dizer-lhe que eu era má pessoa, que não queria saber dele. Não culpo ninguém, mas foi uma má decisão. Mesmo um adolescente tem direito à verdade”, diz Curtis, depois de contar que o próprio filho, já pai, começou a fugir das suas responsabilidades. “Ele devia saber melhor, não é? Tendo o meu exemplo. E sabe, mas escolheu agir errado mesmo assim.”

Nos 21 anos de cárcere, os pais foram a única presença constante na sua vida. A mãe estava muito doente quando saiu da prisão e morreu três anos depois. “Eram a minha fundação no mundo real, emocionalmente, financeiramente, socialmente, eram só eles… Todos os meus amigos eram toxicodependentes e pequenos criminosos. É incrível, eu conhecia muita gente, nunca mais vi nenhuma das pessoas que conhecia em Oklahoma, nem uma.”

Os amigos desapareceram e não o apoiaram, embora alguns tenham ido falar com os pais, explicar-lhes que tinham medo de ser acusados de alguma coisa se o defendessem. “A polícia ameaçou-os”, explica Curtis. “Só uma pessoa é que testemunhou, Tracy, ela sabia onde é que eu estava e não teve medo de falar. Eu tinha conhecido a Pam através dela. Foi corajosa mas não valeu de nada.” Quando Curtis foi libertado, Tracy tentou contactá-lo e até enviou um recado através de um jornalista, mas Curtis não quis vê-la.

Tanto cansaço
 
O homem de 52 anos que agora conhecemos parece exausto. Está fisicamente cansado, chegou de Roma no domingo, passou três horas a responder a perguntas no chat de Facebook organizado pela Amnistia Internacional que o convidou a estar em Lisboa esta segunda-feira, 30 de Novembro, Dia Internacional Cidades Pela Vida – Cidades Contra a Pena de Morte.

A conversa com o PÚBLICO aconteceu segunda de manhã mas o cansaço de Curtis é maior do que o de uma noite mal dormida. É o cansaço de uma vida interrompida e impossível de recuperar. Há pausas enormes depois das perguntas e antes que a sua voz baixa comece a falar, sempre pausadamente. Às vezes os olhos encontram-se com o interlocutor, muitos períodos em que parecem perdidos no infinito. Há lágrimas e há dor, muita dor.

Pam foi violada, estrangulada e esfaqueada. Curtis foi condenado por um júri que acreditou no testemunho de uma analista forense, Joyce Gilchrist, que afirmou que os cabelos na cena do crime podiam ser seus e que o esperma recolhido na vítima correspondia ao seu tipo de sangue. Gilchrist tinha alterado as suas notas em 1985, para acrescentar a parte dos cabelos – algo que os advogados de Curtis só descobriram muito mais tarde.

Em 2000, a analista começou a ser investigada por falsos resultados noutros casos e acabou despedida por falsificar provas. As provas que examinou foram usadas em 3000 processos e conduziram a 23 sentenças de morte; onze destas pessoas foram executadas. O procurador que acusou Curtis em 1986 e 1989 também foi mais tarde acusado de “esconder provas essenciais”. Segundo o Registo Nacional de Exonerações, um projecto da Faculdade de Direito da Universidade do Michigan, Robert H. Macy enviou 73 pessoas para o corredor da morte em 21 anos, mais do que qualquer outro procurador nos Estados Unidos.
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Reportagem por 
Fonte: http://www.publico.pt/mundo/noticia/uma-vida-a-falar-da-vida-que-nao-se-teve-da-vida-no-corredor-da-morte-1716065

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