terça-feira, 2 de dezembro de 2014

CORROMPREENDEDORISMO

Eugênio Bucci*
 
Sim, você se atrapalhou quando tentou ler em voz alta o título aí em cima. Não se culpe. Não sofra. O que temos aí é mesmo uma palavrona empedrada, cheia de sílabas e, para piorar, vertebrada de consoantes atravancadas, congestionantes. A pronúncia escorreita não sai assim de primeira. Na sua forma e no seu conteúdo, corrompreendedorismo não é uma palavra de fácil assimilação.

Ela deriva de outra que também não tem sido afável à fala espontânea: empreendedorismo. Convenhamos que esta aqui também não é fácil. Quando um incauto dá de cara com ela pela primeira vez, sente que bateu numa parede. Empreendedorismo não é como “getulismo”, que todo mundo sabe que vem de Getúlio. Não é como lulismo, que se refere evidentemente a Lula. Empreendedorismo, à primeira audição, parece descender de prendedor, isso mesmo, prendedor, aquele utensílio que as mulheres usam nos cabelos para se embelezar com ares de descontração. O substantivo “empreendedor” nunca primou pela popularidade. Não faz parte do linguajar corrente das ruas. Foi só depois de muita doutrinação que a gente começou a aprender que “empreendedorismo” se liga à atividade do empresário, ou à ideia de “espírito empreendedor” (no termo Unternehmergeist, cunhado por Schumpeter). Realmente, como versão em português de entrepreneurship, ou algo por aí, o vocábulo não vingou. Bateu na trave.

Em poucas encrencas, como nesta agora, 
política e economia estiveram tão entrelaçadas 
pelo que têm de pior
 
Não surpreende, portanto, a dificuldade do improvável leitor com “corrompreendedorismo”. Apesar disso, é o caso de insistir. Não podemos mais viver sem essa palavrona. Com todo o desconforto fonoaudiológico que nos traz, ela é indispensável. As cifras exorbitantes que vêm sendo aventadas a partir do oleoso e denso escândalo da Petrobrás a tornam obrigatória. Sem ela a realidade subterrânea das relações negociais escusas nos será inapreensível. Sem ela não há como definir e compreender o modus operandi desse vasto segmento das petroempreiteiras.

Se a tal livre-iniciativa precisa lubrificar (e não apenas “molhar”) a mão do agente público para conseguir empreender, de que “empreendedorismo” estamos falando, afinal de (e das) contas? Lembremos a quantidade de zeros envolvida, que sobrepuja a casa do bilhão. São bilhões e mais bilhões de reais. Muita coisa. Estamos diante não mais de um desvio de um lobista qualquer que foi lá e amaciou o deputado, mas de um modo de produção extenso, complexo e generalizado, implantando há décadas com protocolos bem azeitados e regras próprias (não escritas e, principalmente, não faladas). Esse modo de produção não pode ser chamado de “empreendedorismo”, assim, sem mais nem menos, pois depende visceralmente da corrupção como método e como “investimento” inicial (uma taxa de ingresso, se você quiser) para poder estabelecer-se. Aqui, o círculo virtuoso que se presume no “empreendedorismo” precisa do gatilho vicioso da propina, do impulso baixo do suborno, dos préstimos providenciais e degradantes da também chamada bola. Isso não é “empreendedorismo” nem aqui e muito menos na China.

Um dos desafios da história é tentar entender quem está corrompendo quem. Altíssimos executivos de empresas privadas foram presos. Seriam os corruptores. A presidente da República viu nisso um ineditismo policial sensacional e declarou algo na linha “nunca antes na História deste país”. Se o corruptor for mesmo o empresário (o corrompreendedorista em pessoa), o raciocínio presidencial tem fundamentos.

Sem prejuízo dessa linha de suposições, porém, há outra possibilidade especulativa. Os “operadores” (essa nova categoria da teoria econômica em tempos de corrompreendedorismo) de vários partidos, mancomunados por detrás dos gabinetes com elevadores privativos nas sedes da Petrobrás, podem também atuar como polos ativos da corrupção. De que modo? Muito simples: eles agiriam para forçar uma aliança, uma relação promíscua – e criminosa – entre representantes do mercado e servidores públicos, porque iria extrair benefícios dessa aliança, transformando as empresas privadas dos “corruptores” em doadoras fiéis e pontuais de barris de dinheiro para as campanhas eleitorais e para outras régias regalias. Quer dizer: se o corruptor privado “compra” o funcionário público para lucrar sem trabalhar e sem ter de se aborrecer com concorrentes, o “operador” partidário “compra” o corruptor privado para garantir uma caixinha segura, mensal, líquida e certa (embora errada). E então? Quem corrompe quem?

De um jeito ou de outro, por um ângulo ou por outro, por uma lógica ou por outra, o fato é que os corruptores, partidários, públicos e privados, bem como os corruptos, de muitos lados do balcão, foram alcançados pelas investigações e isso, claro, é positivo. De um jeito ou de outro, as engrenagens do corrompreendedorismo estão nuas como as intenções de seus agentes e a sociedade está mais informada sobre o que não deveria ter acontecido nunca.

Tudo isso talvez suscite no improvável e estimado leitor a lembrança do conceito de acumulação primitiva, tão caro a Karl Marx, ou do conceito de patrimonialismo, conforme Victor Nunes Leal e Raymundo Faoro o descreveram. Este articulista, igualmente improvável e nem tão estimado assim, também pensa sobre isso. Agora, contudo, para sorte de muitos, o espaço deste artigo já vai secando como um campo de petróleo que se extingue miseravelmente. Restam poucas linhas para uma nota rápida, que não pode ser mais do que telegráfica. Ei-la: quanto à acumulação primitiva, seria interessante considerar que, agora, não se trata de um atalho para que o capital se fortaleça antes de ingressar no mercado; estamos lidando, isso sim, com uma gangrena asfixiante e retardatária, uma decrepitude do capitalismo que não tende ao livre mercado, de jeito nenhum. Antes tende a matá-lo.

Em poucas encrencas, como nesta agora, política e economia estiveram tão entrelaçadas pelo que têm de pior.
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* Eugênio Bucci é professor doutor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP). É colunista do jornal "O Estado de S. Paulo" e do site "Observatório da Imprensa". Integrou o conselho curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo) de 2007 a 2010. Autor de livros e ensaios sobre comunicação e jornalismo, foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. Como crítico de televisão e de cultura, manteve colunas em jornais na "Folha de S. Paulo" e "Jornal do Brasil" e nas revistas "Veja", "Nova Escola" e "Sem Fronteiras". Na Editora Abril, foi diretor de redação de revistas mensais e secretário editorial. Bucci é graduado em Jornalismo e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e é doutor em Ciências da Comunicação, também pela USP.
Fonte: O Estado de S.Paulo, 27/11/2014.
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