quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Primeira encíclica do papa Francisco sublinha pertinência pública da fé, diz diretor da Pastoral da Cultura

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O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre José Tolentino Mendonça, considera que a “Lumen fidei” (A luz da fé), primeira encíclica do papa Francisco, acentua a pertinência pública da fé. 

«O papa Francisco corrobora algo de essencial, que é dizer assim: é preciso colocar a fé cristã no centro do debate público. A Igreja tem atualidade não apenas pelo magnífico gesto de Lampedusa, mas por isto que mulheres e homens transportam na história, a fé, que não pode ser acantonada para um gueto, mas tem de ser a questão primeira, a questão que se discute, algo que se privatiza», disse num encontro realizado esta terça-feira em Lisboa com o pensador Eduardo Lourenço.

No debate organizado pelo Centro de Reflexão Cristã, o vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa vincou que «a fé discute, pensa-se e reflete-se»: «Esta urgência para que a fé e a reflexão sobre ela reencontrem a sua natureza pública e de debate, parece-me um contributo extraordinário da encíclica».

«Podemos pensar que uma encíclica sobre a fé seria para o interior da Igreja; e, de certa forma, só interessa aos crentes, aos suspeitos do costume. Mas este texto, com a força do pensamento de um teólogo raro como era Bento XVI, e com a força profética do papa Francisco, leva-nos a uma reflexão sobre a pertinência pública da fé», afirmou.

No entender do padre Tolentino Mendonça, «o futuro da fé passa por aquilo que é vivido pelos crentes, e não apenas pela aceitação que a cultura contemporânea pode ter do que é a fé».

Por isso, «a vivacidade do debate que a encíclica pode suscitar no interior das comunidades é essencial para que o depósito da fé ganhe uma reverberação e uma impertinência que torne a fé naquilo que ela é, isto é, sal e luz».

A centralidade que Francisco deu à fé torna-se ainda mais acentuada perante o «grande risco» que existe ao analisar mediaticamente o seu pontificado, que «faz a Igreja ganhar relevância por coisas que ou se situam no magistério chamado social, ou então são os pequenos detalhes, como o papa levar a sua mala para o avião, ou quebrar os ritos do protocolo».

A «linha de continuidade» entre Francisco e Bento XVI, que redigiram a encíclica, foi também realçada, não só pela comunhão que representa, mas também pelas diferenças entre os dois pontífices, com o papa argentino a «desconstruir a imagem do papado».

«Há uma imagem do que é um papa do Ocidente, que conhecemos porque olhamos para o exemplo de todos os papas que a História nos legou, e em pequenos gestos – a linguagem dos símbolos, sendo imensa, faz-se de detalhes ínfimos – o que vemos é que ele nos dá a ver o papa pela primeira vez. Provavelmente há dimensões do próprio pontificado, deste homem que faz pontes, que estamos a descobrir no papa Francisco», apontou Tolentino Mendonça.

«Num pontificado marcado pela originalidade do temperamento e das relações – não podemos esquecer que o palácio apostólico está vazio, porque ele mora noutra casa… são elementos simbólicos de uma força extraordinária –, o acolhimento que o papa Francisco faz, estabelecendo uma continuidade entre os dois pontificados, é um gesto profético. Sendo ele, claramente, a nível simbólico, uma figura de cultura, ele escolhe dar um sinal de continuidade. Pode não ser, no imediato, uma força deste texto, mas quando for olhado com a distância histórica, entendendo todo o seu alcance, vamos perceber que é um grande dom o papa ter assinado uma reflexão proposta pelo seu predecessor», acrescentou.

O alargamento dos horizontes culturais manifestado na “Lumen fidei” foi também enaltecido pelo sacerdote no debate intitulado “A luz da fé e os desafios das periferias”.

«Talvez pela primeira vez numa encíclica não se citam apenas os filósofos da modernidade. Nós lembramos a grande novidade que foi a primeira encíclica de Bento XVI, “Deus é amor”, porque cita autores inesperados, como Juliano, o Apóstata, ou Nietzsche. Nesta nova encíclica volta a citar-se Nietzsche, mas cita-se também Wittgenstein, Rosseau, mas não só… citam-se os poetas, como Dante, Eliot, grandes narradores, como Dostoiévski; e citam-se não apenas os teólogos antigos, da Patrística, como é normal citar nas encíclicas, mas também autores contemporâneos de relevo, e muito distintos entre si, como o cardeal Newman, Romano Guardini e Martin Buber», destacou.

O recurso a uma maior variedade de autores «mostra bem como a rede de pensamento se vai alargando, isto é, a reflexão sobre a fé não é apenas monocórdica, mas procura-se uma polifonia que dá a este texto uma densidade e, ao mesmo tempo, uma grandeza muito significativa».

Depois de lembrar José Saramago, quando ele se referia à violência causada por motivos religiosos, o diretor da Pastoral da Cultura disse que «uma das tentações de quem procura o convívio com a verdade é tornar-se totalitário e dono dessa verdade».

No seu entender, a encíclica desarmadilha as «tentações de violência, fundamentalismo e obscurantismo no interior da religião, bem como na imagem pública que muitos setores têm do fenómeno religioso», e salienta o contributo da fé para a vincar a dignidade humana, promover o perdão e desenvolver uma atitude de respeito pela natureza.

Para o padre Tolentino Mendonça, «nenhuma encíclica é um texto completo», e a “Lumen fidei” não foge a essa regra, como se comprova, por exemplo, com a ausência da questão da fé enquanto problema político.

À semelhança de qualquer texto, a “Lumen fidei” exige dos seus leitores uma disposição ativa, que a complete e enriqueça: «O que é acolher uma encíclica dentro da Igreja? Penso que é acolhê-la no debate, e por vezes também no dissenso. Não é apenas um acolhimento devoto ou beato, mas fazer dela um texto que é alimento e, simultaneamente, suscitador de uma energia reflexiva e crítica dentro da comunidade».
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Reportagem por Rui Jorge Martins
© Fonte: SNPC | 19.09.13

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