terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A culpa é dos telômeros

Juremir Machado da Silva*
Crédito: ARTE PEDRO DREHER SOBRE FOTOS CP MEMÓRIA
Li que já nasceu a criança que viverá 150 anos. Ainda não se sabe quem é nem se isso será um ganho ou um pesadelo para ela. Certo é que a ciência está no encalço do aumento da expectativa de vida e também do bloqueio ao envelhecimento. Dentro de algum tempo, a adolescência terminará aos 45 anos, quando, então, o pessoal sairá de casa e tentará arranjar um emprego. O grande problema continua sendo o maldito desgaste do corpo e das células. Já é praticamente certo que existe um vilão. E esse vilão não é o Naji Nahas, embora não fosse má ideia meter essa culpa nas costas dele também e do juiz que concedeu reintegração da posse à sua massa falida em Pinheirinho. O vilão pode ter sido identificado pelos cientistas. Ele tem nome. Não sei se tem sobrenome também. No Brasil, com certeza, terá apelido: Tel. Os vilões podem ser os telômeros. Isso mesmo. Nem desconfiava? Nem eu, claro.
Utilidade pública só prestada por uma coluna como esta, que oferece serviços inestimáveis aos leitores: os 23 pares de cromossomos possuem extremidades protegidas por fileiras de DNA (se dependesse de mim, seria ADN). Essas estruturas são os telômeros. Ah, bom! Muito prazer. E daí? Bem, daí que cada vez que uma célula se divide - elas são piores do que alguns partidos brasileiros em se tratando de divisões -, os telômeros encolhem um pouco. O sujeito morre quando não há mais como dividir seus telômeros. A proximidade da morte é quando aparece um telômero com perna curta. Assim fica mais claro entender como marchamos para o fim. Estou levando na brincadeira, mas é sério. A gente sempre culpa o coração, os pulmões, os rins, o fígado e por aí afora pela morte. Pois é hora de pensar nos telômeros. A identificação dos vilões é um bom caminho para tentar se chegar a uma solução. Só espero que os cientistas, se conseguirem controlar o encurtamento mortal dos telômeros, não venham a ser culpados pelo rombo da Previdência do futuro próximo.
Nossos netos viverão o dobro do tempo. Poderão ver o BBB148 e o centésimo título brasileiro consecutivo do Corinthians, salvo se houver alternância com o Flamengo. Nem tudo, porém, será assustador assim. Haverá mais tempo para vadiar, ver o pôr do sol, não necessariamente o do Guaíba, e conversar com os amigos. Será que os nossos descendentes verão outros episódios lamentáveis como o de Pinheirinho? Depois de Eldorado do Carajás, do massacre da Cinelândia e do Carandiru - a lista pode ser interminável -, Pinheirinho entra na galeria da barbárie verde-amarela em lugar de destaque. Parece que os telômeros dos que cometem brutalidades injustificadas como essa encurtam lentamente. Deveria ser o contrário.
Vamos viver mais. Para chegar lá, precisamos lutar contra a divisão desenfreada das nossas células, contra o encurtamento dos nossos telômeros, contra a especulação financeira internacional, contra as decisões absurdas de justiça e até contra a falta de sensibilidade dos donos do poder. Estamos avançando muito quanto aos telômeros.
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*Sociólogo. Escritor. Tradutor. Prof. Universitário. Colunista do Correio do Povojuremir@correiodopovo.com.br
Fonte: Correio do Povo on line, 31/01/2012

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