terça-feira, 25 de outubro de 2011

O caso Rafinha Bastos

JOÃO PEREIRA COUTINHO*
--------------------------------------------------------------------------------
Calar Rafinha Bastos traria à sociedade
 um prejuízo bem maior que
o prejuízo emocional de Wanessa
--------------------------------------------------------------------------------

DESCONHECIA RAFINHA Bastos. Sou estrangeiro em terra estrangeira.
Agora, só ouço falar dele. E da polêmica piada sobre a gravidez de Wanessa Camargo. E dos limites do humor "politicamente incorreto". Que fiz eu para merecer tal sorte? Nem em Lisboa tenho sossego?
O leitor conhece a história, aposto, mas eu relembro na mesma: em show televisivo, o referido Rafinha Bastos manifestou interesse em, digamos, travar conhecimento bíblico com a cantora grávida e o filho, ainda nascituro.
A cantora não acreditou no que ouvira -"comia ela e o bebê", disse o humorista- e decidiu proteger a honra do bebê processando o comilão Rafinha.
Fez mal. Para começar, repito, eu desconhecia a existência de Rafinha Bastos, muito menos de seus extravagantes gostos sexuais.
Depois do processo, eu conheço tudo sobre a criatura: vida, obra e mito. Uma das leis das sociedades midiáticas é que todo ruído, sobretudo quando a galope de processos judiciais, só amplifica o ruído de origem. Figuras públicas devem pensar duas vezes antes de mexerem um dedo para defenderem a suposta honra maculada de seus fetos. Valerá a pena?
Não vale. Se fosse para levar a sério uma piada até suas últimas e dramáticas consequências, a única honra atingida por Rafinha seria a do próprio. Manifestar interesse sexual por uma mulher grávida e seu filho revelaria apenas uma doença mental a merecer tratamento e pena, não julgamento e cadeia. Nenhum sistema judicial poderia julgar um inimputável.
Mas o interessante do caso não está apenas na amplificação da piada pelo processo judicial de Wanessa. Está em certos gostos sofisticados que, embora defendendo a liberdade de expressão, acrescentaram o clichê fatal: a piada não tem piada. Melhor ainda, e em versão aforismo: o único crime do humor é quando ele não tem humor.
Não pretendo polemizar com espíritos tão refinados. Mas o raciocínio deles é imbecil e inútil. E revela apenas o mesmo tipo de pensamento censório que é exibido pelas patrulhas politicamente corretas.
É indiferente saber se a piada de Rafinha Bastos tem piada. A questão não é de gosto. É de tribunal -da sua necessidade ou não.
Se as questões de gosto fossem questões de tribunal, eu mandava prender, por ordem alfabética, uma longa lista de débeis que começa na letra A, de "Almodóvar", e termina na Z, de "Zizek". Caso não houvesse espaço nos presídios para tanta gente, pediria apenas que levassem Zizek.
Voltando ao caso: admito que existam legiões de seres humanos, a começar por Wanessa e família, que choraram de indignação e horror com a piada do humorista. Admito que alguns amigos terão até vomitado os três últimos jantares.
Mas também admito que existam legiões de aficionados que choraram de prazer e aplaudiram a "radicalidade" de Rafinha. O que não seria inédito: todas as noites, nas televisões ou nos clubes de comédia norte-americanos, o que Rafinha Bastos disse é moeda corrente.
Nada é mais subjetivo que o humor, exceto o mau humor. Rowan Atkinson, o entediante Mr. Bean, joga-me nas urgências hospitalares por tentativa de suicídio. John Cleese, o mais brilhante dos Monty Python, também, mas por infarto de riso.
A única questão relevante sobre a piada de Rafinha Bastos não é saber se ela tem piada. Muito menos se ela ofende Wanessa Camargo e o filho. É óbvio que ofende, embora seja duvidoso que a criança, ainda no ventre, já tenha opinião formada sobre o assunto.
A questão principal passa por saber se uma sociedade livre deve conceder espaço para que opiniões fortes, grotescas e até ofensivas possam ser proferidas em público.
Calar Rafinha Bastos, em nome do suposto "bom gosto" de alguns ou até da "honra" do filho nascituro de Wanessa Camargo, traria um prejuízo à sociedade brasileira que seria bem maior do que o prejuízo emocional sentido pela cantora em nome do filho.
Até porque, pensando bem, não é de excluir que, daqui a uns anos, o filho de Wanessa Camargo possa olhar para trás e, ao contrário da mãe, rir da piada.
É pouco provável, eu sei. Mas, às vezes, acontecem milagres nas melhores famílias.
--------------------------------
* José João Pereira Coutinho (Porto, 1 de Junho de 1976) é um jornalista e comentador político português.Frequentou a Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, acabando por se licenciar em História (na variante de História da Arte), pela Universidade do Porto. Prosseguiu estudos na Universidade Católica Portuguesa, onde se doutorou em Teoria e Ciência Política Contemporânea e é, actualmente, Professor Convidado.
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha on line, 25/10/2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário