domingo, 12 de dezembro de 2010

A ''naturalidade'' do narcisismo

Imagem da Internet

Você costuma analisar o que publica no Twitter? Tem escrito regularmente no seu blog sobre suas próximas lembranças? Tem como hábito derramar lágrimas sobre seus valores em público - ou na frente do realizador que documenta seu trabalho em vídeo? Ninguém ainda elaborou o questionário perfeito para diagnosticar o que conhecemos comumente como narcisismo. Mas isso não importa. A maioria das pessoas pode farejá-lo na lanchonete da empresa e nos lugares mais afetados de cidades como Nova York, Los Angeles e Londres, seu odor é familiar.
É por isso que a ampliação do debate entre os psiquiatras a respeito da conveniência de tirar o distúrbio da personalidade narcisista do manual de diagnóstico desta área da medicina é tão interessante. Para os psiquiatras amadores (qualquer pessoa com mais de 7 anos), o argumento ilustra de maneira sugestiva como a ciência informa a linguagem, e a cultura popular por sua vez amplia e enriquece as ideias científicas, às vezes alterando o próprio debate profissional.
Nos últimos meses, os especialistas que se dedicam à atualização do influente Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM, na sigla em inglês) têm discutido sobre a possibilidade de introduzir um novo enfoque no diagnóstico dos chamados distúrbios da personalidade.
Em psiquiatria, a questão é muito séria. Essas doenças costumam incapacitar gravemente o indivíduo, e o novo enfoque propõe eliminar gradativamente estes cinco distúrbios - dependência, histrionismo, esquizoidismo e paranoia, além do narcisismo, o menos comum -, preferindo buscar numa lista de traços da personalidade os que melhor descrevem determinado paciente.
Os cinco distúrbios adquiriram vida própria entre os terapeutas bem como os pesquisadores. Como costuma acontecer no DSM, como o manual é conhecido, os especialistas debaterão o novo enfoque durante anos depois que a força-tarefa da associação de psiquiatras divulgar o esboço final, esperado para 2013. Os não cientistas se apropriaram dos termos técnicos desde pelo menos a noção dos humores dos antigos gregos e seus médicos. Em gerações mais recentes, as pessoas tomaram emprestadas livremente certas noções da física (buraco negro, velocidade da luz), da geologia (deslocamentos tectônicos), cardiologia (personalidade tipo A) e acima de tudo da psicologia.
A terminologia freudiana espalhou-se como pólen na primeira metade do século 20, principalmente depois da guerra, nos EUA, transformando conceitos precisos como ego, repressão e projeção em uma espécie de linguagem taquigráfica amplamente difundida do comportamento. Por sua vez, os terapeutas recuperaram e reinterpretaram estas e outras ideias freudianas à medida em que foram refinando seu trabalho."Este processo ocorre em todas as ciências, em que termos de conteúdo extremamente preciso e técnico passam para o uso geral e adquirem significados muito mais amplos", disse James G. Ennis, sociólogo da Tufts University. "Mas principalmente nas ciências sociais, que afetam mais de perto as pessoas. Psicologia, sociologia, antropologia - todas elas oferecem essencialmente aos indivíduos certa compreensão da própria identidade."

"O narcisismo sempre foi considerado natural.
 Sua definição técnica descreve uma pessoa
perigosamente vulnerável,
que compensa uma inadequação profunda
com a necessidade desesperada de admiração,
e uma grandiosa imagem de si mesma."

O moderno DSM, mais do que qualquer outro documento médico, agita este entrecruzamento, porque tenta traçar uma linha divisória entre o comportamento normal e o anormal. Durante anos, as pessoas usaram o termo "esquizofrênico" com o significado de personalidade dividida, ou desconexa, independentemente da gravidade do diagnóstico. A comissão do DSM tirou há alguns anos do manual a chamada personalidade passivo-agressiva, mas a expressão é uma descrição tão evocativa de um comportamento familiar que se tornou recurso da linguagem comum.
Termos como distúrbio obsessivo-compulsivo e distúrbio de déficit de atenção com hiperatividade estão ganhando rapidamente um status semelhante. O narcisismo sempre foi considerado natural. Sua definição técnica descreve uma pessoa perigosamente vulnerável, que compensa uma inadequação profunda com a necessidade desesperada de admiração, e uma grandiosa imagem de si mesma. "Quando você vê exemplos extremos deste ou daquele distúrbio da personalidade, observa: "É espantoso" ", disse o dr. Darrel Regier, diretor de pesquisa da associação de psiquiatria e codiretor da equipe que está atualizando o DSM. "Mas todos esses distúrbios coexistem com um comportamento mais normal, e as pessoas imediatamente destacam alguns dos traços mais fastidiosos da definição e se baseiam nisso."
E por que não? Praticamente todos os tipos narcisistas que as pessoas veem pertencem à variedade mais branda, mais normal, e a ideia de que estes palhaços pomposos estão chorando por dentro não é desculpa pelo modo como tratam os outros. "O mundo está cheio de gente que acha que tudo gira em torno dela, por isso, o narcisista se tornou um tipo facilmente reconhecível", mesmo que as pessoas não apreciem a complexidade do diagnóstico, disse o dr. Andrew E. Skodol II, presidente do grupo de trabalho sobre os distúrbios da personalidade do DSM e professor de pesquisa em psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Arizona.
Despido da maior parte de sua patologia, mas não de toda, o termo "narcisista" torna-se uma maneira fácil de definir o sujeito apaixonado por si mesmo (desde que não usado como um insulto generalizado), e soa mais preciso do que "egomaníaco", o termo mais antigo, invocando o mito grego e a psiquiatria moderna. "É uma definição taquigráfica que você pode aplicar a todas estas pessoas poderosas e famosas, que faz com que você se sinta superior e tenha este verniz de ciência", disse o dr. Michael First, psiquiatra de Columbia e ex-editor do DSM.
Um termo como este não serve para tudo, independentemente do que possam decidir os especialistas que trabalham no DSM. Ao contrário: nos últimos meses, alguns destes pesquisadores que pressionam para que seja abandonado o diagnóstico abrandaram sua posição; agora, aposta-se que o diagnóstico permanecerá em sua revisão final.
O termo, como tantas pessoas que ele descreve na vida e no tratamento, não pode ser facilmente ignorado.
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A reportagem é de Benedict Carey, do The New York Times e reproduzida pelo jornal O Estado de S. Paulo, 12-12-2010.
Fonte: Estadão online, 12.12.2010

Um comentário:

  1. Olá Zelmar,

    Acabei de assistir REDE SOCIAL ontem.
    Creio que o que as redes sociais exploram é justamente o narcisismo. É a sensação ser der popular e aceito, mas é apenas uma sensação pois na verdade ninguém mantém um contato íntimo e significante com 200 pessoas. Creio que o máximo que conseguimos são umas oito pessoas que consegues encontrar, compartilhar e acompanhar os acontecimentos da vida do outro.
    O criador do facebook prega o FIM DA PRIVACIDADE no mundo moderno. Assustador isso.

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