sábado, 6 de março de 2010

Elogios perigosos

Paulo Nogueira Batista Jr.,

No último artigo que publiquei nesta coluna, tratei do declínio da Europa. Como todos os colunistas deste jornal, escrevo a título exclusivamente pessoal. E desci a lenha.
Pois bem, leitor, vários europeus reclamaram amargamente. Não se pode mais conversar com os compatriotas discretamente, em português, sem que algum estrangeiro se intrometa. Paciência.
Mas não era da Europa que eu queria falar hoje, e sim do Brasil. No exterior, continua forte a onda pró-Brasil.
O presidente Lula, por exemplo, ganhou o prêmio de Estadista Global, do Fórum de Davos — e nem foi buscar.
Ele estava doente, eu sei. Mas, em outros tempos, um presidente brasileiro iria buscar um prêmio desses até de maca.
Dizem que corremos o risco de húbris — o excesso de orgulho e presunção que, segundo os gregos antigos, leva fatalmente ao desastre.
Pode ser. Mas temos, como pesado contraponto, o nosso velho e arraigado complexo de vira-lata, ainda não totalmente extinto. Até que enfim o complexo de vira-lata vai servir para alguma coisa! A verdade é que não estamos com essa bola toda. E pior: parte dos elogios externos tem origem suspeita. Vou tentar explicar.
Falou-se muito que o Brasil virou credor externo líquido. É verdade que as nossas reservas internacionais superam a dívida externa. Mas quando se utiliza um conceito mais amplo, que abarca todos os passivos e ativos internacionais do país, o Brasil ainda é devedor líquido.
O total de ativos externos do país (reservas, investimentos no exterior, empréstimos ao exterior, entre outros) é da ordem de US$ 500 bilhões.
Porém, o total dos passivos (investimentos diretos no Brasil, investimentos em carteira, dívidas com o exterior etc.) é mais que o dobro: US$ 1.050 bilhões. O passivo externo líquido do país alcança, portanto, cerca de US$ 550 bilhões.
Um reflexo disso é o elevado déficit estrutural decorrente do envio de rendas do Brasil para o exterior.
Em 2009, a remessa líquida de rendas alcançou US$ 34 bilhões, dos quais US$ 25 bilhões por conta de lucros e dividendos. A esse déficit, se acrescenta um outro, também estrutural, com serviços de vários tipos (transportes, royalties, aluguel de equipamentos, turismo, entre outros). Só com viagens e cartões de crédito internacionais, os brasileiros gastaram quase US$ 11 bilhões no ano passado.
O superávit da balança comercial, que antes compensava esses déficits, vem minguando rapidamente. As projeções de analistas de mercado, coletadas pelo Banco Central, indicam que o saldo comercial cairá para US$ 10 bilhões em 2010 e apenas US$ 3 bilhões em 2011.
O resultado é o reaparecimento de déficits expressivos na contacorrente do balanço de pagamentos, o que significa dependência em relação a capitais externos. As projeções de mercado apontam para um déficit corrente de US$ 50 bilhões neste ano e quase US$ 60 bilhões em 2011.
Ora, países como os EUA, o Reino Unido e outros desenvolvidos precisam desesperadamente que apareçam candidatos a registrar déficits na conta-corrente. É o que ajudará essas economias a escapar da recessão com ampliação das suas exportações de bens e serviços. O Brasil, coberto de elogios, parece disposto a dar a sua contribuição.
A deterioração das nossas contas externas decorre, em grande medida, da força persistente do real. A moeda forte danifica, além disso, a estrutura da economia. O Brasil ainda tem uma economia e uma pauta de exportações razoavelmente diversificadas.
Essa diversificação, que é (ou era) um dos nossos pontos fortes, está ameaçada.
Se a sobrevalorização cambial continuar, o Brasil corre o risco de ficar reduzido à condição de exportador de commodities, semimanufaturados e alguns poucos produtos industriais.
O setor industrial perderá expressão na economia, que se tornará cada vez mais dependente do setor primário e de serviços.
Elogio em demasia, o vira-lata desconfia.
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*Paulo Nogueira Batista Jr. Economista.
Fonte:  O Globo, 06-03-2010.

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