sábado, 7 de fevereiro de 2009

Novas páginas a escrever na história dos e-books

MARK COKER

Especialista americano diz
que crise
fará autores assumirem
a edição

Cláudio Soares*

De segunda-feira a sábado, tem lugar em Nova York a terceira Tools of Change for Publishing Conference, encontro em que são debatidas as ferramentas tecnológicas que estão mudando o setor editorial americano ­ e, é claro, do mundo. Mark Coker, fundador de uma das principais empresas de autopublicação de escritores independentes do Vale do Silício, a Smashwords, é uma das estrelas do evento, no qual coordenará o painel "The Rise of E-books". Nesta entrevista, ele fala sobre a mudança de postura que o crescimento dos livros eletrônicos, comprovado por pesquisas recentes nos Estados Unidos, deve provocar em editoras e escritores.

De acordo com pesquisa publicada pela American Association of Publishers [AAP], os e-books ascenderam novamente, gerando crescimento anual nas vendas de 55% entre 2002 e 2007, versus o anêmico crescimento no comércio global de livros, de apenas 2,5%. Segundo o International Digital Publishing Forum [IDPF], a venda de e-books nos Estados Unidos cresceu 108% em novembro, enquanto as vendas globais da indústria diminuíram. O que representa esse aumento de interesse nos e-books, e como eles cabem nas estratégias para edição digital? ­
Dez anos atrás, havia uma grande agitação a respeito de como e-books mudariam o mundo. Mas eles falharam no cumprimento de tais expectativas e foram considerados um fracasso. Falharam por diversas razões: primeiro, foram penalizados por usarem esquemas de Digital Rights Management [DRM, ou Gerenciamento de Direitos Digitais] para evitar cópia ilegal. Clientes odeiam o DRM, por tratá-los como criminosos e limitarem a sua capacidade para usufruir dos livros. Em segundo lugar, a tecnologia das telas ainda não estava suficientemente avançada para oferecer uma experiência agradável de leitura. Além disso, os preços eram demasiado elevados. Os editores tentavam cobrar por um livro digital o mesmo preço de livros impressos de capa dura. Por último, havia disponibilidade limitada de conteúdo. Hoje, começamos a ver esses problemas resolvidos ou melhorados. Editores que pensam à frente começam a dispensar o DRM, mas ainda temos um longo caminho pela frente. A tecnologia das telas melhorou drasticamente em todos os dispositivos, incluindo os leitores dedicados aos e-books, como Kindle e Sony Reader, os telefones inteligentes, como o iPhone, e os computadores pessoais de baixo custo. Os preços caíram, mas ainda precisamos de mais progressos. Por isso, é claro, a quantidade de conteúdos disponíveis no em e-books está explodindo.
Em seu artigo `A ascenção dos e-books', publicado no final de janeiro no Teleread.org [blog dedicado aos e-books, bibliotecas digitais e tópicos relacionados], o senhor afirmou que os autores precisam começar a expor os seus livros nos domínios digitais. Por que isso é tão importante? ­
A indústria editorial passa por uma dramática mudança, especialmente nos EUA. A desaceleração econômica mundial tem exacerbado os problemas estruturais fundamentais que já existem há muitos anos. Como resultado, do lado dos editores, provavelmente veremos uma maior fusão entre as empresas (haverá poucas grandes), menos editores se expondo a grandes riscos com autores desconhecidos, e primeiras tiragens menores. Do lado da distribuição e vendas, veremos uma consolidação maior entre as livrarias, o que nos Estados Unidos significará menos lojas e menos prateleiras exibindo livros impressos. À medida que os e-books começarem a representar um aumento percentual nas vendas, é possível que isso aconteça à custa da venda de livros impressos. Mesmo se um, dois ou três pontos percentuais de vendas de impressos passem para os livros eletrônicos, as livrarias sentirão um impacto muito grande sobre os seus negócios, porque muitas lojas já estão lutando para manter o lucro. Entretanto, ainda não entendemos bem o impacto que os livros eletrônicos terão sobre os impressos. Se por um lado é possível que os e-books canibalizem as vendas dos impressos, também é possível que o efeito líquido seja que as vendas dos e-books ajudem a impulsionar as vendas de livros impressos, à medida que os leitores desejem adicionar edições impressas às suas bibliotecas. Tais mudanças terão um impacto dramático sobre os autores. Estamos prestes a ver muitos escritores talentosos ficarem órfãos de editores. Veremos também ser negada a estreantes talentosos a oportunidade de publicar em formato impresso nas principais editoras. Os blogs oferecem um roteiro útil para o que poderá acontecer com a autoria de livros digitais. Muitos dos primeiros blogueiros de cinco a dez anos atrás agora estão entre os mais populares da internet. O mesmo acontecerá com os autores.

Como é que os e-books socialmente publicados resolvem o problema dos custos dos livros? ­
Livros impressos são um luxo caro, menos para os habitantes literatos mais ricos do mundo. Quando você olha a tradicional cadeia de abastecimento para um livro impresso, vários intermediários adicionam custos para o livro à medida que este faz o seu caminho do autor ao leitor. Muitos livros seguem o fluxo autor-agente-editora-gráfica-distribuidor-li vreiro-cliente e, em seguida, há o custo do transporte de todos esses livros-feitos-de-árvores-mortas para frente e para trás. Quando um autor autopublica seu livro em formato digital, gera um colapso dramático na tradicional cadeia de abastecimento. Em muitos casos, a nova cadeia torna-se autor-cliente ou autor-livraria on-line-cliente ou, ainda, autor-distribuidora on-line-livraria on-line-cliente e, desde que bits e bytes digitais custam praticamente nada para serem enviados pela internet, grande parte do custo do livro é eliminado. Isso significa que autores de e-books autopublicados podem oferecer seus livros a um custo drasticamente menor por cópia, enquanto fazem um lucro maior por unidade. E quando o preço de qualquer coisa diminui, significa que o produto é comprável por um leque maior de clientes.

Que novas práticas comerciais os editores tradicionais deveriam adotar? ­
Os editores precisam digitalizar rapidamente os seus catálogos, derrubar o DRM e adotar estruturas de preços mais razoáveis para seus livros digitais. Devem experimentar diferentes metodologias de venda digital. Podem considerar a oferta de assinaturas de seus catálogos, ou subgrupos de catálogos, ou ofertas de pacotes, ou combinar seus livros impressos com e-books. Há todo um número de permutações possíveis. É importante que os editores comecem a experimentar agora a ver o que funciona melhor para os seus negócios, seus autores e clientes.

Na indústria da música, temos visto um grande movimento em direção aos artistas indie que alavancam a democratizar a produção, comercialização e venda de música na internet. Isso começa a aparecer no mercado de livros. O que essa tendência pode significar para as editoras tradicionais? ­
A maioria dos autores foi treinada para acreditar que o melhor método de publicação é com uma editora tradicional. Admiro o inestimável papel dos editores de encontrar os melhores autores, cuidar deles e viabilizar sua distribuição. No entanto, com os novos desafios, elas estão sendo menos capazes de investir neste serviço. Isso significa que alguns autores talentosos serão marginalizados. Um número crescente de autores percebe que o ônus da publicidade do livro está caindo sobre seus ombros. À medida que as editoras passem essa responsabilidade para os autores, estes vão começar a perceber que podem se tornar seus próprios editores.

Kevin P . Casey/The New Y o rk Times
*Escritor, analista de TI e editor do Pontolit (www.pontolit.com.br)
Íntegra no blog do Ideias (www.jblog. com.br/ideias.php)
http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117670/106195 07/02/2009

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