sábado, 10 de janeiro de 2009

A paixão é um vício

A reportagem-entrevista é de Marcela Buscato,
Revista Época de 09 de janeiro de 2009

HELEN FISHER, a antropóloga da Universidade Rutgers, especialista em cérebros apaixonados, explica a semelhança entre se apaixonar e consumir drogas. Eis a entrevista:

ÉPOCA – Por que a paixão é um vício?
Helen Fisher – Quando eu e meus colegas colocamos 32 pessoas que estavam enlouquecidamente apaixonadas em um equipamento de ressonância magnética, nós descobrimos atividade cerebral em uma região que também se torna ativa quando você sente o “barato” da cocaína. A droga ativa alguns dos mesmos circuitos do cérebro associados à paixão. Por isso, eu acredito que ela é um vício muito poderoso.

ÉPOCA – É um vício que faz mal?
Helen – Se não for uma relação saudável ou se alguém for rejeitado, sim. Depois de tantos estudos, os pesquisadores sabem que o sofrimento de uma pessoa rejeitada é fisiológico. Os circuitos cerebrais relacionados à tomada de decisões arriscadas e, inclusive, os ligados à dor física tornam-se ativos. Hoje, levamos a dor da paixão a sério.

ÉPOCA – Já se sabe como reverter a química da paixão para impedir o sofrimento?
Helen – É preciso “matar” essa obsessão. Jogar fora cartas e cartões, não ficar estirado na cama pensando na pessoa. Tudo isso só vai estimular os mesmos circuitos cerebrais da paixão. Faça coisas novas e excitantes com pessoas diferentes para elevar de outra maneira o nível de dopamina, uma substância estimulada pela paixão. Ria porque o riso estimula as terminações nervosas de sua face, e isso também estimula o sistema dopaminérgico. Mas a paixão não é só dor. Ela também pode fazer muito bem.

ÉPOCA – Como?
Helen – Ela aumenta os níveis de dopamina, que é um estimulante natural. Por isso, as pessoas se tornam mais entusiasmadas e otimistas. Também fazem mais sexo – o que é bom para músculos, pele e fôlego. Mas esse estágio inicial não foi feito para durar para sempre. A função dele é focarmos energia na conquista de um companheiro.

ÉPOCA – É possível “prolongar” a paixão?
Helen – Uma estratégia é fazer coisas novas juntos: tirar férias, viajar para lugares desconhecidos, fazer sexo em locais diferentes. A novidade estimula o sistema da dopamina no cérebro e ajuda a manter o romance excitante. Mas a melhor maneira para que a paixão dure por muito tempo é escolher a pessoa certa.


“Quando somos rejeitados,
os circuitos cerebrais da dor física são ativados”
HELEN FISHER, antropóloga


ÉPOCA – Como acertar na escolha?
Helen – O parceiro precisa se encaixar no perfil que idealizamos. São pessoas com um tipo de beleza parecido com o nosso, com valores semelhantes e com o mesmo nível socioeconômico. Também precisa haver certo mistério. Não podemos saber tudo sobre a pessoa, porque esse mistério impulsiona a ação da dopamina. Mas eu acredito que nós nos apaixonamos principalmente por pessoas geneticamente compatíveis.

ÉPOCA – Por quê?
Helen – Cada tipo de personalidade está ligada a uma maior atividade de determinado sistema biológico. E parece que somos atraídos por parceiros com uma personalidade diversa a nossa, ou seja, geneticamente diferentes. Essa combinação estimula a química da paixão no cérebro e faz com que ela continue em ação por anos e anos.

ÉPOCA – Quais são esses tipos de personalidade genética?
Helen – Eu divido em quatro categorias. Os exploradores têm maior atividade no sistema de dopamina, um neurotransmissor estimulante. Os construtores, no sistema de serotonina, que é calmante. Os negociadores apresentam maior atividade no sistema de estrogênio, um hormônio ligado a uma postura controladora. E os diretores têm maior atividade no sistema de testosterona, hormônio associado a comportamentos mais agressivos.

ÉPOCA – Como identificar qual é nosso tipo genético e de um possível parceiro?
Helen – Os exploradores são pessoas curiosas, criativas, espontâneas, irreverentes, que gostam de correr riscos e procuram novidades. Os construtores tendem a ser calmos, sociáveis, populares, tradicionais. Cautelosos, mas não medrosos. Já os negociadores são muito bons em se expressar verbalmente, têm grande habilidade para lidar com as pessoas, são muito empáticos. Tendem a ser bons para fazer planejamento de longo prazo. Os dominadores são bons para lidar com sistemas com regras, tendem a ser lógicos. Mas não há uma combinação ideal entre esses tipos de personalidade. Cada uma terá suas vantagens e problemas.

ÉPOCA – Seus estudos ensinaram a senhora a controlar a paixão?
Helen – Eu me casei com 23 anos e me separei poucos meses depois. Tive quatro relacionamentos muito longos e muito satisfatórios. Eu sei um bocado de coisas sobre a paixão, mas sou como qualquer outro tolo quando estou apaixonada.

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