segunda-feira, 21 de maio de 2018

O mundo precisa de adultos responsáveis, não de otimismo infantilizado

Eliane Brum*
Crise da água em São Paulo
Carro abandonado em Atibainha, que integra o sistema Cantareira, em 2015 A
 
Como fazer para que as pessoas acordem para a mudança climática na época do entretenimento?

São Paulo, a maior cidade do Brasil, pode enfrentar mais uma vez uma crise da água em ano eleitoral. E não em qualquer eleição, mas nesta que se anuncia como uma das mais duras e truculentas da história recente, agravada ainda pelas fake news. Na primeira crise da água, em 2014, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) reelegeu-se no primeiro turno afirmando que estava “tudo sob controle”. Apesar das evidências cotidianas de que algo muito grave estava acontecendo, a maioria da população de São Paulo preferiu acreditar que tudo ia ficar bem e a vida poderia ser retomada sem maiores alterações. A descoberta mais importante revelada pela crise foi o nível de desconexão com a realidade a que as pessoas podem chegar para não serem obrigadas a enfrentar as dificuldades, fazer mudanças permanentes na vida e pressionar os governantes e legisladores por políticas públicas. E como estão dispostas a acreditar em qualquer um que pronuncie a expressão “sob controle”. O problema é que qualquer pessoa que diga, em tempos de mudança climática, que algo está “sob controle” ou é mentiroso ou é maluco. Mas de novo estamos voltando a esse tipo de irresponsabilidade alimentada pela incapacidade de se responsabilizar de adultos infantilizados que preferem acreditar em qualquer estupidez a ter que enfrentar o mal-estar que sentem nos ossos.

No evento que marcou os 15 anos do Fórum Pacto Global, da Rede Brasil das Nações Unidas, em 16 de maio, Vicente Andreu, ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), fez uma intervenção contundente no palco do auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP): “Não é justo vir a um evento desses e não falar o que (a pessoa) realmente sente. A água no Brasil é uma agenda política rebaixada. O tema da água só aparece na eleição como tragédia e denúncia, sem propostas”, afirmou.

“A normalidade agora é a exceção”

As séries históricas, algo tão mencionado na crise de 2014, já não fazem sentido num planeta alterado pela mudança climática. “As nossas séries históricas, aquele mecanismo que a gente sempre utilizou, de olhar pra trás para projetar o futuro, acabou. Não tem mais condições de se fazer absolutamente nada com as séries brasileiras. Eu sou estatístico de formação... Quem tentar fazer alguma correlação com as séries históricas nos últimos dez anos no Brasil aqui no Cantareira (principal sistema de abastecimento de água de São Paulo) matematicamente faz, mas pra que serve?”, questionou Andreu, um dos principais articuladores do Fórum Mundial da Água, que se realizou pela primeira vez no Brasil em março. “A variabilidade do período do ciclo hidrológico em função das mudanças climáticas está completamente alterada no Brasil e no mundo. E ainda se tenta explicar o amanhã por uma média.... Fica mais ou menos assim: não tá na média nunca. Aí, no ano que dá na média, alguém corre lá e diz: ‘Ó, voltou ao normal, voltou pra média’. Mas a normalidade agora é a exceção.”

Segundo Vicente Andreu, existe a possibilidade de uma crise da água em São Paulo ainda pior do que a de 2014. Ele afirma também que, apesar de o Cantareira ter deixado de abastecer 1,6 milhão de pessoas, o consumo seria hoje de 300 litros por habitante ao dia, o mesmo que antes da crise. “O gráfico de abril no Cantareira bateu em 2014. Se não chover em maio vai ser pior do que 2014. Então não dá mais pra tentar vender para as pessoas uma segurança que não tem. Nós temos que afirmar, sem vergonha: ‘Não sei, não sabemos’”, diz. “Temos que trabalhar com o princípio da precaução. E o princípio da precaução é, por natureza, pessimista. Essas coisas precisam ser tratadas de maneira verdadeira, com a complexidade, com as incertezas que as coisas têm, para que as pessoas acreditem. Se elas não acreditarem, não adianta nada.”

Ser responsável hoje é afirmar que a situação 
NÃO está sob controle

Ser responsável hoje é afirmar que a situação NÃO está sob controle. Por irresponsabilidade geral, a crise de 2014 não provocou mudanças significativas e permanentes nos padrões de consumo. Há muito o que fazer na indústria e na agricultura, que têm muito mais impacto, assim como nas casas das pessoas. Nem foram feitos os investimentos necessários em reflorestamento e recuperação da vegetação do entorno do Cantareira, uma medida mais do que urgente. A Mata Atlântica é uma floresta arrasada. É preciso recuperá-la. Quem se agarra a séries históricas está, de fato, se agarrando a seus empregos num planeta que já mudou.

Pode chover mais ou menos neste ano. A crise da água pode ser maior ou menor. O que é preciso compreender é que não é uma crise e outra crise lá não sei quando, mas uma catástrofe em curso, uma realidade deste momento histórico com a qual temos que lidar, na qual haverá um número maior e mais frequente de eventos extremos. Não é opcional. A mudança climática está aí. E não vai embora porque enfiamos a cabeça dentro de um frasco de Rivotril.

Os adultos de hoje têm mentalidade de século 20 
e criam filhos com mentalidade de século 20

Há várias barreiras travando o enfrentamento desse momento de urgência. A primeira delas é que os adultos dessa época carregam uma mentalidade de século 20 e estão criando filhos com uma mentalidade de século 20. Ainda com a convicção de que bastam obras e tecnologia que tudo se resolverá, na crença absoluta da potência humana. Seguidamente sem perceber que esse “pode tudo” causou uma mudança na Terra. Tanto que cientistas respeitados defendem a alteração do nome desse intervalo de tempo geológico do planeta, que passaria a se chamar de Antropoceno – ou o período em que a espécie humana se tornou uma força capaz de deformar a paisagem global.

Outra barreira é o momento geopolítico, com um pesadelo como Donald Trump liderando a maior potência mundial e as democracias em crise existencial profunda. No Brasil, que abriga a maior porção da maior floresta tropical do mundo e deveria estar dando exemplo, mas não está, perdeu-se a chance de fazer uma grande mudança de paradigma quando São Paulo viveu a crise da água. Os interesses eleitoreiros se impuseram, e a população, já esgotada por tantas dificuldades econômicas e decepções políticas, se deixou alienar mais uma vez.

O debate sério sobre a água e a mudança climática só entrará na pauta das eleições deste ano se houver muita pressão dos eleitores. Sem políticas públicas para enfrentar os desafios do aquecimento global e outras alterações provocadas pelo humano, o que inclui desde zerar o desmatamento na Amazônia até ampliar o saneamento básico para toda a população, não há enfrentamento de fato. Mas o contexto é de rebaixamento da política, de um modo geral, e de baixa credibilidade dos políticos tradicionais. Para agravar, Jair Bolsonaro, que já se revelou incansável no ato de proclamar sua ignorância sobre todos os temas, lidera as intenções de voto em cenários sem Lula.

Quem trabalha com as questões da mudança climática tem se feito uma pergunta recorrente: como fazer com que as pessoas compreendam o que acontece hoje no planeta e passem a agir, o que significa tanto pressionar o poder público para tomar as medidas necessárias quanto mudar padrões arraigados e se adaptar a uma vida que será diferente? Havia a expectativa de que São Paulo, pelo tamanho e importância que tem no cenário brasileiro, pudesse ser um laboratório de conscientização e propostas criativas durante a crise da água que começou em 2014. Mas a oportunidade foi perdida. E a crise da água logo foi esquecida pelos que ainda têm o privilégio de poder esquecê-la, como se tivesse sido apenas um soluço.

Com os índices do Cantareira se revelando mais uma vez perigosos, as falsificações e mascaramentos já começaram. Nesta segunda-feira, 21 de maio, o Cantareira estava com 47,8% da capacidade. Em 2012 e 2013, anos que antecederam à crise, o Cantareira operava com 73,5% e 61,5%, segundo reportagem do UOL. Mas a Sabesp (empresa de saneamento do estado de São Paulo) já afirmou que “não há motivo para preocupação”. A irresponsabilidade do “sob controle” já começa a ecoar. Afinal, Geraldo Alckmin deixou o cargo de governador de São Paulo para disputar a presidência da República pelo PSDB.

A neurose do otimismo converte os pessimistas em traidores

Há ainda uma outra barreira impedindo que as pessoas despertem. E esta pode ser a mais difícil de transpor. Esse momento da história, no qual a mudança climática se torna o maior desafio, encontra um tipo de humano que foi moldado pela indústria do entretenimento. Homens e mulheres se tornaram adultos infantilizados esperando que lhes digam o que está acontecendo, o que pensar e como reagir, e o que têm de consumir a cada vez, de produtos materiais a conceitos. É nessa chave que entra a atual neurose do “otimismo”, que faz com que os “pessimistas” se tornem uma espécie de traidores que não querem que o mundo melhore.

Já escrevi neste espaço e não me canso de repetir: acusar o mal-estar dessa época é um sinal de saúde mental. Agir como carneiros saltitantes de desenho animado enquanto a Amazônia é destruída, a falta de água ameaça São Paulo, o Ártico degela aceleradamente, os eventos climáticos extremos se sucedem e as populações mais frágeis começam a se deslocar pode demonstrar dificuldade para se conectar com a realidade. Com essa negação é preciso se preocupar.

Mas é para esse tipo de comportamento que a indústria de entretenimento preparou a geração de consumidores de emoções que aí está. E está preparando a nova que vai assumir essa encrenca. As carinhas sorridentes, a raivinha e os coraçõezinhos das redes sociais são um estágio a mais na infantilização da humanidade. Somos adultos botando desenhos fofos em posts o dia inteiro.

Por razões profissionais, costumo frequentar eventos sobre temas sérios. Tenho percebido que, de forma acelerada, parte desses encontros têm se tornado, nos últimos anos, cada vez mais parecidos com programas de TV que os americanos adoram e que parte do mundo imita. Ou seja: temas do momento com diversão e muitas piadinhas. De preferência, o palestrante ou debatedor deve se comportar como um artista de stand up. A plateia, gente adulta, claramente espera ser entretida. Diga que o mundo está acabando, mas de um jeito palatável. Em seguida, faça uma graça. A plateia ri. Às vezes faz uhuhuhu. Tudo é performance. Não se trata de condenar o riso, pelo contrário. O que me refiro é ao espanto de que isso seja necessário. Não é algo casual, isso molda a estética e a ética.

O “otimismo” foi alçado a uma espécie de 
superioridade moral

Assim, quem apenas diz o que precisa ser dito é um chato. E o chato ganhou outro nome: “pessimista”. Nesse contexto, o “otimismo” foi alçado a um tipo de superioridade moral. É preciso ter pensamento “positivo” para ser um bom consumidor, também de conceitos. É preciso ser divertido, leve, bem humorado. Se não provocar diversão, é necessário produzir algum sentimento que seja consumível, como enlevar o público. Dar à plateia algo que ela sinta que ganhou naquele momento, mas que não a perturbe além daquele momento. Algo que não a deixe chateada nem estrague o seu dia. A ideia não é produzir movimento, mas oferecer ao consumo do público um produto que venda a sensação de movimento.

No dia 18 de maio, o ambientalista americano Paul Hawken lançou a edição brasileira de Drawdown – 100 iniciativas pra resolver a crise climática (Manole), traduzido por Fernando Gomes do Nascimento. Num evento no Museu de Arte Moderna (MAM), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ele falou sobre como é preciso encontrar uma linguagem para que as pessoas possam alcançar os conceitos da mudança climática e terem a chance de mudar a si mesmas.

E exemplifica. Se ele chegasse em qualquer lugar de São Paulo e perguntasse sobre o que fazer a respeito dos 2 graus Celsius, ninguém teria qualquer ideia ou interesse no assunto. Mas esse é o limite de aquecimento global que não pode ser ultrapassado, embora tudo indique que será. É talvez o número mais importante desse momento histórico para todas as pessoas. Mas, segundo Hawken, e ele tem razão, é preciso encontrar outra maneira de conversar sobre isso, porque a forma como os cientistas – e também os jornalistas – falam não está alcançando o público. Ele acredita ser preciso dar informações às pessoas, para que elas façam suas próprias escolhas – e não impor a elas o que tem de ser feito.

No evento de lançamento, apresentado pelo jornalista Paulo Lima, com a participação do cientista do clima Carlos Nobre e da modelo Gisele Bündchen, a linguagem parece ter agradado à plateia, que reagia com animação. O livro é importante e faz um esforço de apresentar soluções que a maioria das pessoas pode compreender. E qualquer esforço nesse sentido deve ser bem recebido.

Mas é interessante observar como a “venda” do livro aposta no pensamento positivo, no respeito à escolha do indivíduo e na ideia da superioridade moral do otimismo. Aposta também na “oportunidade” representada pela crise climática de uma mudança para melhor na humanidade. O aquecimento global como uma “benção”, não como uma “maldição”, como chegou a ser dito. “Consideramos o aquecimento global não como um fato inevitável, mas como um convite para construir, inovar e efetuar mudanças, um caminho que desperta a nossa criatividade, compaixão e inventividade. Esta não é uma agenda liberal, nem uma agenda conservadora: essa é a agenda humana”, escreve Paul Hawken.

Na abertura do evento, Pedro Paulo Diniz destacou que essa abordagem da mudança climática pelo pensamento positivo e pelas soluções, em contraposição ao discurso do apocalipse climático, é o que o atraiu nas ideias de Paul Hawken. Herdeiro de uma das famílias mais ricas do Brasil, Diniz tem se dedicado à produção de produtos orgânicos em sua fazenda e é um dos fundadores do Believe.Earth, movimento de histórias positivas por um desenvolvimento sustentável lançado em 2017 no RockInRio.

Se a mudança climática lança a humanidade no mesmo barco, não é permitido esquecer que há barquinhos de 
papel e há iates de luxo

A ideia de uma “agenda humana” é bonita – e os “believers”, como se apresentam, são bem intencionados. Mas é necessário observar que essa ideia tem sido usada por diferentes forças políticas para borrar algo que atravessa a mudança climática: a desigualdade social e racial. Se a mudança climática lança todos no mesmo barco, como espécie humana habitando o mesmo planeta, a realidade é que há barcos que afundam primeiro, há barcos que já estão afundando, e nesses barcos inseguros estão os mais frágeis. Há barquinhos de papel e há iates de luxo e ultratecnológicos. A mudança climática explicita a desigualdade do Brasil e do mundo. Basta ver quem está se deslocando de suas casas, regiões e países, fugindo dos eventos extremos.

Essa ideia da “agenda humana”, se por um lado é bonita e verdadeira, precisa ser vista com cautela, para não ser usada para apagar a desigualdade, que é agenda urgente também no tema da mudança climática. Esse discurso se alinha àquele que busca borrar as diferenças fundamentais entre direita e esquerda. Assim como é preciso olhar com cautela para esse exacerbamento da ideia da mudança individual.

Se é necessário que cada um mude seus padrões de consumo e se responsabilize por sua pegada no planeta, as medidas efetivas, urgentes e importantes para enfrentar os desafios do aquecimento global são medidas construídas no espaço público. É no campo da política que esse debate tem que ser travado. É também por medidas públicas que os mais frágeis são protegidos e a desigualdade é combatida.

Gisele Bündchen, a modelo mais bem sucedida da história, assina um dos prefácios do livro e apoia o projeto. Ela é uma mulher interessante, que tem feito muito para divulgar a causa ambiental quando tantos na sua posição não fazem nada a não ser gastar o dinheiro acumulado. E seu poder de alcance é imenso. Gisele começou a se tornar uma voz em defesa do meio ambiente quando, anos atrás, foi ao Parque Nacional do Xingu. Esperava uma Amazônia mítica, no gênero Avatar, blockbuster de James Cameron, e se deparou com a realidade de uma floresta corroída junto com seus povos.

Há um depoimento de Gisele Bündchen durante o debate que pode ajudar alguns pais nesse momento em que é tão necessário educar um filho para o mundo que aí está. Na prática, Gisele parece escolher uma linguagem mais dura do que fofa para tratar da destruição do planeta com suas crianças:

“Seu brinquedo vai parar na barriga da baleia”, 
diz Gisele Bündchen ao filho

– Todos nós temos que tomar responsabilidade sobre como vivemos a nossa vida, porque todos temos impacto. Claro que, quando empresas grandes mudam, o impacto é muito maior do que uma casa e outra casa. Mas acho que a consciência começa em cada ser humano. Qual é a minha responsabilidade aqui? Em casa nós temos nosso jardim, solar panels (painéis solares), a gente usa filtro. Se entra uma garrafa de plástico na minha casa eu viro monstro, entendeu? Eu mostrei um vídeo pros meus filhos esses dias, em que abriram uma baleia, e era puro plástico dentro da baleia. As minhas crianças falam que são os protetores da natureza. Eu tô sempre mostrando pra eles, porque eles têm que saber qual é o impacto. Meu filho tem 8 anos, e nos últimos dois ele não quis mais presente. Eu falei pra ele que o presente pode acabar na barriga de uma baleia no mar. (risadas da plateia). Antes de dormir leio um livrinho pros meus filhos, e às vezes eles querem ver fotos. Teve o momento em que eu mostrei as fotos dos órfãos elefantes, e ele ficou muito emocionado com aquilo. Aí, no aniversário de 6 anos ele pediu pros amiguinhos: “Doe pra essa fundação que eles protegem os elefantes”. Trinta crianças chegaram lá em casa e estavam ajudando ele a ajudar os elefantes. Ele fala pra irmãzinha dele agora: “Vivi, escuta aqui, deixa eu te falar uma coisa: Você quer matar os bichos no mar?”. É muito importante a gente ter noção de que a forma que a gente escolhe viver tem um impacto no mundo inteiro. A gente tem que ter noção disso, a gente tem que ver qual é o impacto e como a gente pode melhorar as nossas ações. Essa é a nossa casa, a única que temos. Não vai descer um santo aqui e resolver o nosso problema. Nós vamos ter que resolver.

É interessante que Gisele Bündchen conversa com os filhos sem fazer pirotecnias verbais ou acrobacias psicológicas. Demonstra respeitar a inteligência dos filhos e sua capacidade emocional de lidar com fatos difíceis, assim como apostar na formação de discernimento. Mostra a baleia morta com plástico dentro e diz: “É pra lá que seu brinquedo pode ir. O que você vai fazer a respeito?”. As crianças, filhas de um dos casais mais famosos e ricos do mundo, escutam o que muitos adultos parecem não estar conseguindo escutar. E estão sendo ensinadas a se responsabilizar pelo seu impacto no planeta.

Encontrar uma linguagem para que as pessoas sejam capazes de nomear o seu mal-estar e pressionar por medidas de reversão do aquecimento global é ainda um desafio. Mas não há tempo para esperar que os adultos infantilizados de hoje sejam emancipados. Mudar padrões de consumo não é apenas uma questão de escolha do indivíduo, já que a maioria dos mais atingidos hoje pelos efeitos da mudança climática são os que não têm escolha, os mais pobres e os mais frágeis. Basta lembrar quem sofreu mais na crise da água de 2014 em São Paulo. Mudar padrões de consumo é obrigação ética, compromisso com o coletivo, princípio básico da vida em comunidade.

A chave desse momento histórico não está entre o otimismo e o pessimismo – ou entre o pensamento positivo e o negativo. Não há tempo para esses truques de auditório. A crise climática é gravíssima e seus efeitos só estão começando. Adultos precisam ser capazes de escutar. E de reagir com algo mais do que carinhas sorridentes ou vermelhas de raiva. É preciso romper a estética do entretenimento porque ela não é ética. Nada está “sob controle”. É exatamente isso que precisa ser dito.
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* Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/21/politica/1526914514_866691.html

Arrancar o útero fora

Luiz Felipe Pondé
 
Ilustração da coluna de Luiz Felipe Ponde

Ilustração da coluna de Luiz Felipe Ponde - Ricardo Cammarota

Por que uma menina chegaria a conclusão que deve tirar o útero para ser ética?

“O que o título acima quer dizer?”, pergunta-me a leitora assustada, nesta segunda-feira. Imagino-a levando a mão ao ventre e sentido a dor que essa ideia traz consigo: “Arrancar o útero fora”. 
 
Passamos todos por processos na vida, como indivíduos e como grupos. No caso específico das mulheres mais jovens, hoje em dia, intriga-me o fato que, ao lado de expressões em que “útero” ocupa o lugar do “saco” como exemplo de coragem (o que reconheço como verdade para as mulheres, uma vez que dar à luz sempre foi um indício da força do sexo feminino que me encanta), a tendência a recusar a função em si do útero (gerar filhos) seja crescente.

Mas, para além do fato evidente de que as pessoas podem fazer o que quiserem com seus corpos (vamos deixar isso claro antes que algum inteligentinho venha encher o nosso saco), um novo fenômeno me chamou atenção nos últimos tempos: o antinatalismo.

Você não sabe o que é? Não, nada tem a ver com algo contra o Natal cristão, apesar de, sim, ter a ver com a ideia de ser contra o nascimento de crianças.

Antinatalismo, aparentemente, surgido entre europeias entediadas (como quase todo europeu), é o seguinte: mulheres jovens tiram o útero logo cedo a fim de marcar sua recusa à maternidade como ato ético sublime. Sim: arrancar o útero como ética.

Há algum tempo tenho evitado a palavra ética, como também as palavras energia e cabala, porque, de tanto serem usadas, já não significam nada. Mas confesso que o uso da palavra “ética” ao lado de “arrancar o útero” me parece incomum. Por que uma menina chegaria à conclusão que deve tirar o útero para ser ética?

Claro que não ter filhos pode ser visto como algo bom de várias formas, algumas confessáveis, outras inconfessáveis.

As confessáveis, que me soam falsas, são do tipo: não vou ter filhos porque já tem criança demais no mundo, melhor adotar uma pobre, a espécie humana é excessivamente predadora, logo, melhor sumir da face da Terra, deixemos o planeta para golfinhos e baratas, são tão fofos!

As inconfessáveis (que acredito serem mais verdadeiras) são do tipo: não vou ter filhos porque criança custa caro, dura muito tempo, enche o saco, atrapalha a Netflix, me impede de viajar quando quero e, pior, faz eu me sentir responsável por ela, e isso é uma forma da opressão patriarcal, além de que, é claro, filhos dão rugas, derrubam o seio e atrapalham o mercado de trabalho.

Devo ir com calma, porque a sensibilidade excessiva de uma humanidade que optou pelo retardo mental como “ética” pode entrar em agonia diante dos meus argumentos inconfessáveis para não ter filhos.

O fato é que os argumentos confessáveis aparecem no discurso de algumas antinatalistas. Há um interessante cruzamento delas com uma forma de veganismo radical.

A ideia é que as mulheres que procriam colocariam (antieticamente) mais humanos na Terra, que seguiriam com seus modos de torturar os pobres dos animais. Muito comumente, antinatalistas são veganas, mas não necessariamente o contrário é fato.

Para ouvidos atentos, os argumentos inconfessáveis soam machadianos: o niilista Brás Cubas, criação de Machado de Assis (1839-1908), afirma no final do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” que pelo menos não teve filhos e, por isso, não passou adiante a herança da miséria humana.

Entretanto há no niilista uma certa dignidade que não há nas antinatalistas. O niilista acha a humanidade um lixo e se vê como um ser cruel e cínico. A antinatalista se leva muito a sério e se vê como um ser sublime que quer salvar o mundo através do que é, na verdade, pura preguiça, narcisismo, falta de amadurecimento, recusa de responsabilidade e por aí vai. A antinatalista é uma mimada que mente sobre o seu próprio ato. Mas há algo a mais por detrás do seu ato.

Orígenes (184-253), grande padre da patrística grega, um dos primeiros grandes filósofos do cristianismo, ficou conhecido não só pela sua obra mas também pela autocastração como forma de combate a concupiscência da carne. Isso meio que queimou o filme dele na tradição e com os parceiros. Vejo alguma semelhança entre a autocastração de Orígenes e a automutilação das antinatalistas. Em ambos os casos há um horror ao sexo e ao que é humano. Contra o que os inteligentinhos pensam, engravidar uma mulher é um ato muito erótico.

E isso tudo acontece nas barbas dos psicanalistas que ficam brincando de cientistas políticos enquanto o horror ao sexo cresce.
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* Pernambucano, é escritor, filósofo e ensaísta. Doutor em filosofia pela USP, é professor da PUC e da Faap. 
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/05/arrancar-o-utero-fora.shtml

Terry Gilliam: “Se o humor morrer, será o fim da civilização”

Terry Gilliam em Paris, em março deste ano


 

 

 

 

Terry Gilliam em Paris, em março deste ano AFP

Diretor britânico encerra o Festival de Cannes com 'The Man Who Killed Don Quixote', projeto ao qual dedicou duas décadas de sua vida


A viagem acabou. Terry Gilliam (Minneapolis, 1940) cavalgou contra tempestades e furacões, aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), doenças de seus atores, produtores que fugiram sem colocar o dinheiro, ações judiciais e rumores de acidente vascular cerebral. Mas, finalmente, The Man Who Killed Don Quixote (O Homem que Matou Dom Quixote) encerra neste sábado, dia 19, o Festival de Cannes e o cineasta, que durante estas duas décadas de tentativas frustradas parecia também sofrer da síndrome de Alonso Quijano (enlouquecer na tentativa de adaptar um romance de cavalaria), sorri. Nunca parou de fazê-lo em 20 anos, mas agora sua risada soa mais clara, sem nuances. E seu melhor reflexo é o cartaz com o qual começa a projeção do filme: “E agora, depois de mais de 25 anos fazendo... e desfazendo: um filme de Terry Gilliam”.

Em um encontro com a imprensa espanhola em Cannes, Terry Gilliam sabe que é o rei do momento. Nesta manhã ele conquistou sua segunda vitória judicial contra o produtor português Paulo Branco. Amanhã, ao mesmo tempo em que é projetado no festival, será possível lançar comercialmente seu Quixote na França. Isto, juntamente ao fato de que há dez dias a justiça também rejeitou a ação de Branco para que o filme não fosse apresentado em Cannes, melhorou muito o humor de Gilliam. “Estou bem, realmente, a minha saúde está ótima, relax. Estou muito feliz com o festival, porque apostou forte no filme e o protegeu dos ataques do meu amigo português. Eu ia mostrar o filme de uma forma ou de outra no festival.”

Valeu a pena tamanho esforço, que inclui duas rodagens, uma série de atores contratados e dois protagonistas mortos? “Provavelmente a única coisa boa que acontece comigo é que não tenho memória, esqueço todas as coisas ruins e só me lembro das boas. Por isso continuei a fazer filmes”. Gilliam não se preocupa com as críticas sobre seu sacrossanto esforço. “Não, porque escrevi a maioria”, e solta uma das suas estranhas gargalhadas. Mais seriamente, reflete sobre o perigo de tornar os sonhos realidade, porque às vezes não cumprem as expectativas. “Através desses anos, muitíssima gente fez uma ideia do filme que provavelmente é melhor do que o filme real. Espero surpreender alguns.” E durante esse processo foi aperfeiçoado o roteiro, do que desapareceu, por exemplo, uma viagem no tempo. “Porque era uma ideia muito ruim!” A estrutura se mantém desde que em 1991 Gilliam começou a acalentar a ideia, que conseguiu realizar em outubro de 2000... apenas seis dias de rodagem no deserto das Bardenas Reales [em Navarra, na Espanha]. As inundações, as costas de Jean Rochefort (que então interpretava Dom Quixote) e o ruído do voo dos caças de uma base da OTAN nas proximidades mataram aquela tentativa.
Não, a pergunta não é se eu estava obcecado pelo Quixote, mas por que o Quixote ficou obcecado por mim
Hoje, Adam Driver encarna um personagem que começou com o rosto de Johnny Depp, Toby, um estudante de cinema que, em um momento de idealismo, filmou uma versão do livro de Cervantes e que, anos mais tarde, transformado em um cínico diretor de filmes publicitários, volta à cidadezinha espanhola onde filmou seu filme de iniciação para descobrir que o sapateiro que fez Dom Quixote, Javier (Jonathan Pryce), realmente acredita ser o cavaleiro da triste figura. A partir daí, o filme delira como só uma obra de Gilliam pode fazer, hipnotizado como seu protagonista com essa aventura. “Não, a pergunta não é se eu estava obcecado pelo Quixote, mas por que o Quixote ficou obcecado por mim. Nunca me deixou sozinho, me maltratou durante 25 anos e eu o culpei por todos os meus problemas.” Pelo menos ele terminou o filme, porque outros o deixaram pelo caminho, como Orson Welles. “Fiz isso por Orson”, brinca. “Disse que faria pelo menos uma coisa melhor que Welles e assim foi: terminei o filme!”, e revela um sinal que deixou em homenagem ao diretor do Cidadão Kane. O cineasta britânico (há anos renunciou à nacionalidade norte-americana) não quer lembrar muito o quanto mudou nesses anos. “Acho que meu humor melhorou. Se o humor morrer, será o fim da civilização. A vida se tornou solene. Me incomoda muito que as pessoas levem tudo a sério.”
Através desses anos, muitíssima gente fez uma ideia do filme que provavelmente é melhor do que o filme real. Espero surpreender alguns
Em seu livro Gilliamismos, o cômico afirma: “Se algo é impossível, eu tento”. Em Cannes, reafirma: “Mas não só eu, a humanidade. O Everest não existia até que se considerou impossível escalá-lo. Acredito que os desafios impossíveis são os que fazem avançar o ser humano”. Dito isto, ele afirma que “seria mais responsável investir esforços e dinheiro para cuidar da Terra em vez de fugir dela em viagens espaciais”. Nessas impossibilidades figura adaptar o romance de Miguel de Cervantes. “Como todo mundo, pensava que sabia algo do Quixote. Há 25 anos convenci um produtor a me dar 25 milhões de euros para adaptar As Aventuras do Barão de Munchausen e o Quixote. Foi então que li o livro. Pareceu-me enorme e senti que tinha de traí-lo para ficar com sua essência. Dane-se o livro! Dane-se Cervantes! Mas a segunda parte me parece o primeiro romance moderno da história, principalmente quando o cavaleiro se irrita ao descobrir que estão escrevendo e fazendo ficção com suas aventuras.”

Dito isso, Gilliam desce do Rocinante, mas deixa um novo desafio para a próxima geração: “Talvez seja o momento de ser encarnado por uma mulher, o momento de vermos Dona Quixota”.
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Reportagem por  Gregorio Belinchón 
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/cultura/1526657871_568678.html

sábado, 19 de maio de 2018

Lars von Trier: O artista da brutalidade

A violência de seu novo filme levou espectadores a deixar a sala de exibição. Mas Lars von Trier diz que deseja ir sempre “o mais longe possível” 

Lars von Trier bebe uma cerveja enquanto recebe jornalistas em uma tarde de sol em Cannes. Tempos atrás, o cineasta dinamarquês, de 62 anos, prometera parar de beber, mas agora diz que a sobriedade minou sua força criativa. A bebida também o ajuda a encarar entrevistas, que o deixam nervoso. Afinal, foi em uma coletiva de imprensa, há sete anos, quando apresentava o filme Melancolia, que o diretor fez as piadas infames sobre Hitler e o nazismo que levaram o Festival de Cannes a bani-lo. De volta ao evento para apresentar, fora de competição, The House that Jack Built — sobre um assassino psicopata, interpretado por Matt Dillon —, Von Trier formula cada resposta com cuidado, as mãos trêmulas traindo a ansiedade que ele combate com medicamentos. Mas ainda é o provocador de sempre: na entrevista a VEJA, declarou-se contente porque espectadores abandonaram a sessão de seu filme.

Muitos deixaram a exibição de The House that Jack Built na metade, transtornados pelas cenas de sadismo. O que pensa disso? Acho ótimo. Não se pode deixar o cinema sem sentir que se perdeu um pouco, que é preciso pensar sobre o que se viu. E às vezes acontece de sairmos pensando: “Isso é demais para mim, não aguento ver. Filmes como este não deveriam ser feitos”.

O objetivo, então, é transtornar o público? Ou provocar? Uma reação ou outra, está tudo nas mãos do público. A ideia é que seja perturbador. Afinal, se um homem mata uma criança, como acontece no filme, é uma cena que deve perturbar. Se não ficar abalado, você é um cínico. As imagens que não gostamos de ver — de um assassinato, por exemplo — existem no mundo real. Acreditar que esse tipo de coisa não existe se ninguém mostra essas cenas, isso, sim, é absurdo.

O senhor tem algum limite pessoal ou artístico na realização de seus filmes? Meu objetivo é sempre ir o mais longe possível. Pois seria desonesto e covarde não fazer isso. O espectador é quem decide se fecha os olhos, se fica na sala, se encara a cena. Tudo o que eu filmo tem reflexos da vida real. Essas coisas existem. Assassinos em série existem. E, para mim, se algo existe, merece ser filmado.
Extremos - Matt Dillon em ‘The House that Jack Built’: “É o espectador que decide se fecha os olhos”, 
diz Von Trier (FOX Pictures/Divulgação)

Na última vez em que esteve em Cannes, o senhor disse que “compreendia Hitler” e isso lhe custou sete anos de banimento. Como enxerga o episódio hoje? Foi muito doloroso encarar uma acusação de apologia do nazismo, que poderia até render prisão. Eu me senti ridículo. Não sou bom com entrevistas e coletivas de imprensa. Se eu tivesse feito aquele comentário na Dinamarca, meu país, teriam entendido a piada. Foi estranho visitar outro país e descobrir que o humor que você tem em casa não pode ser usado em outras localidades. Claro, fui ingênuo. A França tem uma ferida aberta da II Guerra e do jeito com que os judeus foram tratados aqui. Fui apedrejado e poucos me escutavam. Todos diziam que eu era culpado. Mas ninguém falava a verdade: o Lars é um louco, um imbecil, fala sem pensar, mas não é nazista. Isso resolveria todo o problema.

Na época, o senhor refutou as acusações em entrevista a VEJA. Também falou de outra crítica persistente a seus filmes — a de que eles seriam machistas. Disse então que seus personagens femininos são reflexos seus. Isso vale também para The House that Jack Built?Uso a minha pessoa em todos os personagens. Desta vez, isso vale especialmente para Jack, o psicopata protagonista. Ele acredita que as atrocidades que comete são arte. E eu também gosto de pensar que sou um artista. Enfim, acho que poderia me tornar um grande assassino em série. Ainda bem que sou controlado o suficiente para não deixar minha carreira seguir nessa direção.

O novo filme inclui uma seção com trechos de seus filmes anteriores. O senhor sentiu a necessidade de explicar a própria obra? Não. Estava procurando exemplos visuais de artes extremas. Foi meio esnobe da minha parte escolher minha própria arte como uma metáfora da vida real. Mas esta é minha vida. O que eu sei fazer são esses filmes, por mais perturbadores e extremos que sejam.

Uma parte importante do filme se passa no inferno. Por quê? Meu inferno é uma combinação de diferentes fontes e referências, de mitos cristãos e gregos. Pessoalmente, não acredito no inferno. Mas acabei de ler algumas coisas do Stephen Hawking. Acredito que existem vários universos. Um deles pode ser um inferno. Essa ideia faz com que nós, humanos, nos tornemos ainda menores.

E o universo em que vivemos não é o inferno para o senhor? Não. Para mim, o inferno são a ansiedade e a depressão constantes.
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Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583
Foto: O provocador - Von Trier: “Poderia me tornar um grande assassino em série” (Stephane Mahe/Reuters)
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/o-artista-da-brutalidade/

Mudanças necessárias

 Rosely Sayão*
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A cada etapa da vida dos filhos, 
a família precisa se reciclar

Será que existe um modelo estável de família, ou ela se transforma à medida que os filhos nascem e, depois, crescem? Em tempos em que muitos pais e mães tentam entender os mais diversos comportamentos dos filhos, em todas as etapas da vida deles, é bom pensar sobre como a dinâmica familiar influencia, para o bem e para o mal, o desenvolvimento dos mais novos.

Uma família sempre começa com a reunião de, pelo menos, duas pessoas, e elas podem ser pares da mesma geração, ou um adulto e uma criança. Temos, na atualidade, muitas “mães-solo”, a nova expressão usada e mais aceita, e alguns “pais-solo” também, mas em menor número. Para que essa reunião de pessoas se torne um grupo familiar, cada um deve assumir o seu lugar, tanto geracional quanto no grupo.

Isso significa que o adulto precisa se comportar como adulto, a mãe como mãe e o pai como pai, independentemente de o casal estar junto ou não. A criança deve ter o direito à infância, de se comportar como criança. O adolescente, por sua vez, precisa assumir aos poucos a responsabilidade por sua vida — ainda sob a tutela dos pais —, ser reconhecido e acolhido como alguém que está em construção e transformação constantes e ter a oportunidade de aprender, na prática, que ser integrante de uma família acarreta compromissos.

Tudo isso exige que os vínculos entre os adultos e os mais novos sejam construídos e mantidos o tempo todo. Sabemos, por exemplo, que pais que têm bebê em casa perdem o sono por um motivo bem diferente do daqueles que têm filho adolescente, que já gosta de frequentar reuniões e festas noturnas. Os primeiros se cansam, os segundos se angustiam.

Os vínculos familiares dos pais com os filhos pequenos são de um tipo, expressam-se de determinadas maneiras, mas o crescimento dos filhos faz com que esses vínculos se transformem, ou seja, se expressem de outras maneiras. Quer saber como? Filhos pequenos adoram colo, mimo, beijar e abraçar, mas, já no início da segunda parte da infância, costumam sinalizar aos pais que insistem nesses comportamentos: “menos, mãe, menos, pai, por favor!”. É ou não é? Os pais precisam, portanto, aprender a comunicar sua amorosidade pelos filhos de outras maneiras.

E aí está: a cada etapa da vida dos filhos, a família precisa mudar, adaptar-se, reciclar-se. Há famílias que insistem em permanecer do mesmo jeito como se construíram em sua origem e, muitas vezes, esse é um dos motivos do grande desconforto que os filhos — principalmente os adolescentes — experimentam quando estão com a família.

Não é a família em si que o jovem recusa com os comportamentos que expressa; é a família que insiste em permanecer a mesma desde quando ele era criança. Como ele já não é mais uma criança, não consegue identificar o seu lugar no grupo: sente-se, desse modo, excluído da panelinha. Mudança não produz instabilidade; provoca, sim, crescimento, adaptação, maturidade. Evitar mudanças não oferece segurança. Pense em sua família: ela tem se transformado na mesma medida e com a mesma velocidade com que seus filhos crescem?
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* Psicóloga e consultora educacional, tem mais de 30 anos de experiência em clínica, supervisão e docência.
Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/mudancas-necessarias/ 
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Um passo decisivo

Reitor da USP defende sistema de cotas, acha que a educação precisa ser mais valorizada pelos brasileiros e prega choque de modernidade no ensino superior

Poucos conhecem tão bem a Universidade de São Paulo quanto o atual reitor, o engenheiro Vahan Ago­pyan (turco de nascimento), de 66 anos. Em 1970, ele ingressou ali como estudante da Escola Politécnica e só deixou o câmpus em breve janela para concluir seu doutorado no King’s College de Londres. No comando há cinco meses, chegou em tempos difíceis, de orçamento apertado, e imbuído de uma missão complexa: ajustar a antiga sala de aula às demandas do século XXI. Mais prestigiada universidade da América Latina, a USP tem ainda o desafio de se aproximar das melhores do mundo, tema que Vahan aborda na entrevista que concedeu a VEJA.

Por que a USP nunca aparece entre as melhores universidades do mundo nos rankings do ensino? Os rankings têm o mérito de fornecer parâmetros que permitem a comparação de diversos critérios acadêmicos e ajudam a nos situar perante os outros. Mas é preciso observar que há inúmeras formas de medir a excelência — tanto que os resultados variam de acordo com quem faz a lista. No geral, o Brasil perde pontos, e a USP também, por contar com um número menor de alunos e professores vindos de fora. Obviamente, a abertura ao exterior é bem-vinda para qualquer instituição de ensino superior, e queremos cada vez mais isso, mas, em nossa ordem de prioridades, há medidas que vêm na frente.

Por exemplo? Se estou diante de uma escolha entre contratar um Neymar da academia mundial e injetar mais dinheiro em um laboratório já existente com uma dezena de ótimos profissionais, fico com a segunda opção. Com isso, eu sei, caímos alguns pontos no ranking global, mas acho que o impacto será mais abrangente para a universidade. Não, ainda não estamos entre as melhores do planeta, mas em certas áreas já encontramos o topo, como na agronomia, na odontologia e em algumas engenharias.

A China, que conseguiu avançar no ensino superior e emplacar duas universidades entre as trinta melhores do mundo, é um exemplo inspirador? A China tem uma situação bem diferente da do Brasil nesse campo: oferece cursos em inglês, contrata prêmios Nobel e se insere no jogo da excelência com um volume incomparável de dinheiro. O país pulou de 1 200 para 2 000 universidades em poucos anos, e foi além: 100 delas vêm recebendo um aporte fantástico de recursos, o que pode ajudá-las a chegar ao panteão da qualidade.

A diferença entre Brasil e China está no dinheiro que o governo de cada país reserva às universidades? Não é apenas isso. A China tem uma cultura de valorização da educação que faz com que a sociedade também contribua com as universidades. A Escola Politécnica, na USP, já conta com um sistema em que ex-alunos doam dinheiro por meio de um fundo. Nesse caso, há o ganho financeiro, claro, mas também o da reaproximação de um monte de cabeças talentosas, formadas neste câmpus, com a universidade. É uma turma que retorna com ideias trazidas de fora dos muros da academia, o que é essencial para qualquer instituição de ensino e pesquisa.


“A legislação brasileira inibe as doações, mas a questão 
não é só essa. Doar à Harvard dá mais prestígio, 
não dá? Alguns ex-alunos mudaram essa 
lógica e agora investem na USP”

Por que tantos brasileiros fazem doações a universidades americanas e não às daqui? Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, no Brasil é preciso pagar imposto sobre doações, o que certamente inibe a iniciativa. Mas a questão não é só de legislação, não. Doar à Harvard dá mais prestígio, não dá? Mas temos ex-alunos que, com o tempo, acabaram ficando com certa vergonha de priorizar universidades do exterior e passaram a investir na USP.

A USP adotou as cotas para estudantes negros e de baixa renda uma década depois de outras universidades públicas. Por que a demora? Nós fomos mais cuidadosos. Há mais de dez anos, começamos a abrir o espectro de alunos dando um bônus na nota aos oriundos de escola pública e, aos poucos, as pessoas no câmpus ganharam confiança na ideia de que a inclusão não seria um obstáculo à qualidade nem levaria à criação de um grupo à parte, segregado, que não conseguiria acompanhar o restante da turma.

A implantação das cotas confirmou a confiança depositada nelas? A nota de corte para o ingresso na universidade continuou alta mesmo para os cotistas, mas, como é uma política recente, ainda não consolidamos uma pesquisa para saber o desempenho deles.

A observação dos professores permite avançar em alguma conclusão? Sabemos que os que entram via cotas são bons alunos, gente talentosa que talvez tivesse ficado no meio do caminho não fosse o empurrão na entrada. Uma parcela deles, porém, revela lacunas por terem vindo de escolas em que receberam uma base mais fraca, especialmente em português e na matemática básica. Por isso oferecemos cursos de reforço nessas áreas. Está claro que, para a cota dar certo, não podemos deixar o aluno à própria sorte.

Muita gente apostava que a qualidade das universidades cairia com a implantação das cotas e errou. O senhor fazia parte do rol dos céticos? Nunca encarei as cotas como um favor, como uma medida assistencialista, mas como uma possibilidade de a universidade ganhar com isso, tomando-se evidentemente os cuidados necessários. Considero a abertura das salas de aula a estudantes de diferentes origens um passo decisivo na busca por uma instituição moderna. O papel das grandes universidades neste século, afinal, é formar gente capaz de liderar mudanças e, para tal, os jovens não podem estar circunscritos a um universo limitado de experiências. Eles precisam tomar contato com diversas realidades, ter um olhar abrangente, amplo. As instituições de ensino superior de alto nível estão seguindo mundo afora essa mesma trilha, pescando alunos brilhantes de todos os estratos.


“As cotas não são favor ou assistencialismo, mas uma 
maneira de a universidade recrutar ótimos alunos 
e avançar. Abrir a sala de aula a estudantes 
de origens diversas é um passo decisivo” 

Em sua opinião, as cotas devem ter prazo para terminar? A cota é, por natureza, uma política compensatória. Portanto, a ideia é que um dia a compensação não se faça mais necessária. O abandono gradativo dessa política, porém, vai depender daquilo que ela veio compensar — a baixa qualidade do ensino básico a que a maioria das pessoas tem acesso.

As universidades estão conseguindo atender às demandas deste século ou pararam no tempo? Por minha experiência e observação, digo que está sendo difícil para as universidades, inclusive a USP, fazer a transição de um mundo dividido por disciplinas estanques, que pouco conversavam entre si, para uma lógica multidisciplinar, em que os assuntos se conectam o tempo todo e os profissionais de diversas áreas precisam interagir. Minha geração, afinal, é monodisciplinar. Para incentivar pesquisas feitas sob essa nova abordagem, a USP tem oferecido benefícios para alunos e professores, mas a verdade é que eles ainda não se sentem confortáveis. Estamos falando aqui de uma nova maneira de pensar.

A sala de aula está mudando? Lentamente, sim. Estamos dando cada vez mais espaço às disciplinas básicas e fundamentais das várias áreas e deixando o conhecimento específico como uma opção para o aluno que queira se aprofundar nele nos períodos avançados. Em alguns cursos de engenharia, por exemplo, as disciplinas básicas vão até o 3º ano, depois vêm as aplicadas, e o 5º ano fica à escolha do estudante, a depender daquilo que queira fazer da vida. Na década de 70, aprendi a fazer cálculos de forma exaustiva na faculdade de engenharia, até que, quando me formei, o microcomputador já era uma realidade e tudo mudou. Imagine agora, com a pressa do século XXI. Precisamos encarar o fato de que mesmo as carreiras de hoje podem desaparecer em dez anos. E os estudantes precisam estar preparados para esse cenário.

Em geral, os alunos chegam à USP preparados para a complexidade do ensino superior? Temos um vestibular disputadíssimo, que se encarrega bem de fisgar jovens cérebros. Agora, todos os estudantes, daqui e de qualquer outra universidade brasileira, vêm de um ensino médio que precisa urgentemente mudar, e parece que vai. Não é razoável que os alunos tenham de estudar doze, quinze matérias justamente numa era em que a chave não está mais no armazenamento do conteúdo. A escola deve se ajustar aos novos tempos. Sendo ainda tão pouco atrativa, estamos matando talentos aos 11, 12 anos.

O vestibular também precisa mudar? É claro. A prova de ingresso nas universidades vai ter de mudar.

A USP também demorou a aceitar o Enem. Afinal, está funcionando? Sim. A Fuvest, nosso vestibular de entrada, exige um pouco mais de conhecimentos específicos, mas, no final das contas, as duas provas são capazes de rastrear os melhores estudantes. E, com o Enem, ganhamos a possibilidade de atrair talentos do Brasil inteiro.

O senhor andou se queixando do fato de a USP arcar com quase todos os gastos do Hospital Universitário. Em suas palavras: “Não somos uma entidade assistencialista”. O que quis dizer exatamente com isso? Não acho certo desviarmos recursos de ensino e pesquisa para mantermos sozinhos um hospital que atende a população do estado inteiro. O mais justo é dividir a conta com o estado, que, aliás, também deveria ajudar nos custos com a assistência estudantil, incluindo aí acomodações e restaurantes. Esses gastos subiram muito com as cotas.

Alguma chance de o pleito ser atendido? Sim. O governo está sensível.
A USP chegou em 2014 a um déficit de 1 bilhão de reais. A situação ainda é crítica? Hoje não temos nenhuma folga no orçamento, vivemos contando dinheiro, mas saneamos o caixa. Suspendemos contratações, lançamos planos de demissões voluntárias e passamos uma faca nos custos fixos. Houve um descontrole no passado, com aumentos vertiginosos nos salários quando o ICMS estava em alta. Com a crise no país, isso virou um problema.

A crise das universidades federais é ainda pior. Por quê? Porque elas estão engessadas por uma legislação que não lhes dá autonomia administrativa, algo que a USP tem. Quer dizer que elas não podem fazer o próprio planejamento. E planejar tem tudo a ver com produtividade. Se defino que uma pesquisa deve durar três décadas e cumpro a meta, ela terá mais chance de prosperar. É assim, a longo prazo, que se semeia um Prêmio Nobel.
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Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583
Foto:  (Jefferson Coppola/VEJA)
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/um-passo-decisivo/

Nossos trágicos limites

 Lya Lyft*
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Com alguma frequência, pedem-me que fale ou escreva sobre famílias em transformação. Muita dor, angústia, medo e confusão nascem com essa ideia e essa realidade, pois até mudanças boas trazem inseguranças. Nem todas são as da borboleta emergindo, bela e livre, do casulo de alguma opressão: algumas são explosões de vulcão e borrifos de lava derretida que nos destroem ou marcam para sempre.

Está na moda falar em "transformação, mudança", com tom de orgulho - como se mudar fosse sempre positivo. No olho do furacão, não há muito tempo para raciocinar, e qualquer coisa, qualquer conceito, ainda que fake (estamos falando em modismos), nos dá algum conforto. Aliás, vicejam receitas: os "ter de" e "faça assim", mostrando nossa servidão a vários senhores e modelos.

A "nova família" sendo uma realidade em tantos casos, o sensato é assimilar: família já não é necessariamente a de pai, mãe, filhos, avós, tios e todo o cortejo, mas pode incluir a namorada do pai, o namorado da mãe, meios-irmãos que vêm junto com os novos relacionamentos - sem falar em famílias com duas mães e dois pais. "Tudo o que é humano me diz respeito", dizia o dramaturgo romano Terêncio, e tinha razão. Sobretudo quando se trata de sentimentos.

Vivemos tempos difíceis e vertiginosos, crianças e jovenzinhos, os mais vulneráveis, debatendo-se numa sociedade agitada, superinovadora, cheia de seduções, às vezes violenta, e preconceituosa. (Vejamos o detestável "politicamente correto", que quer excluir todos os que pensam diferente. Onde a independência, a liberdade de pensar e ser?)

Recentemente, assisti a um documentário sobre um tema tabu e terrível: suicídio de adolescentes, realidade amarga para emergências e hospitais, profundamente trágica para as famílias. Por que se matariam os jovenzinhos? Nem sempre, ou até raramente, por uma tragédia pessoal. Muitas vezes, algo mais amplo, mais vago e não menos pungente: solidão, falta de limites sentida como desinteresse, sem regras que signifiquem aconchego e abrigo, não importa se com pai e mãe, dois pais, duas mães, ou alguém solteiro. A diferença não está no gênero, mas na qualidade e quantidade de afeto, de colo, de escuta, de exemplo e serenidade, de firmeza.

Não é simples orientar os filhos: são incontáveis as possibilidades de vida e até profissão que se abrem para eles. Mas, atenção: a velha frase "quem ama cuida" é eterna. Não oprimir, não criticar demais, nem se neurotizar, mas estar presente, ser interessado, num ambiente de alegria e amor, respeito e ordem. Para crianças e adolescentes, o mundo ainda é informe: nós, adultos, temos de lhes dar algum sentido, vivendo, estimulando, com carinho apesar das naturais discordâncias ou brigas.

Voltando ao terrível assunto: raramente há culpados diretos quando um adolescente se mata. A dura verdade é que, se temos filhos, somos responsáveis; o trágico é que existem limites. Somos todos uns pobres seres humanos querendo fazer o melhor. Nem sempre podemos. Nem tudo dos nossos filhos podemos prever, conhecer ou entender. Como escreveu meu poeta preferido, Rilke, "a alma do outro é uma floresta escura": isso inclui todos aqueles que amamos.
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* Escritora. Tradutora. 
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=92664de43e5721bc5c0cfd1c31f08f30 
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sexta-feira, 18 de maio de 2018

AONDE VAI O TREM DA HISTÓRIA?


Eliana Cardoso*
 Cris Bierrenbach

Os jornais atualizam sua versão online a cada minuto. A televisão transmite notícias em tempo real 24 horas por dia. O Facebook, o Twiter e outras plataformas sociais oferecem comentários sobre o que acabou de ocorrer todo o tempo. Mesmo consciente do excesso de repetições, a sobrecarga de informações provoca no leitor a sensação de impotência e o medo de perder o trem.

Linda Colley, professora da Universidade de Princeton, - em "Can History Help?", um "podcast" disponível no site da London Review of Books - diz que a História oferece a saída para a ansiedade: desvia a atenção de notícias mutantes para o significado do passado. Mudanças realmente transformadoras ocorrem lentamente, ensina.

Com certeza alguns eventos transformadores parecem instantâneos. Embora usando uma tecnologia que levou décadas para se desenvolver, os pilotos que lançaram a bomba atômica em Hiroshima transformaram, em minutos, a natureza e a atitude em relação à guerra.

No entanto, a maioria das mudanças importantes leva séculos. Depois de perder cerca de 50% de sua população para a peste negra no século XIV, a Europa viu o aumento dos salários dos sobreviventes produzir a crescente demanda de bens de consumo que contribuiu para o comércio e as viagens ultramarinas nos séculos XV, XVI e XVII.

Muitas alterações se tornam visíveis em dez anos. E a transformação que algumas sociedades alcançaram em menos de 75 anos - em países nórdicos e na Coreia do Sul, por exemplo - oferece um poderoso corretivo ao populismo. Vale olhar para os países que se reinventaram com sucesso: podemos aprender com os outros.

Quais são os gatilhos de mudanças dramáticas? Surtos selvagens de doença, alterações significativas no clima, avanços na tecnologia, crises econômicas, grandes mudanças nas crenças religiosas...

Paradoxalmente, mudanças traumáticas na história da humanidade podem, às vezes, ter consequências boas. O mais recorrente gatilho que gera mudança social é a guerra. Esse monstro destruidor de Estados e povos, que nada pode justificar, algumas vezes acarreta reconfigurações benéficas.

Em 1914, nenhuma mulher na Inglaterra votava nas eleições nacionais. A Primeira Guerra Mundial não foi a única razão para a mudança que estendeu o voto às mulheres, mas foi um fator importante. Do mesmo modo, a Segunda Guerra Mundial transformou a política de bem-estar social na Europa e a distribuição de renda melhorou. O impacto das grandes guerras fora da Europa foi importante: o enfraquecimento do poder e das finanças dos impérios marítimos permitiu o avanço da descolonização.

Algumas mudanças não representam avanço, mas restauração do passado. Andrew J. Nathan, professor de ciência política na Universidade de Columbia e autor de "China´s Search for Security", argumenta que Xi Jinping está tornando a China contemporânea mais parecida com a China da época de Mao.
Em 2023, Xi Jinping concluirá seu segundo mandato como presidente da China. Desde que Deng Xiaoping revisou a constituição do país há mais de 35 anos, dois mandatos consecutivos eram o máximo que um presidente podia servir. Xi, entretanto, não tem planos de se aposentar. Em março, o Congresso Nacional do Povo aprovou a emenda constitucional que aboliu os limites de mandato para a presidência. Esse passo causou desespero entre os liberais chineses e alarme entre os comentaristas internacionais. Tem ironia aí. Se Deng fez o que Mao temia que seu sucessor fizesse - acabar com a revolução permanente-, Xi está fazendo o que Deng temia - restaurar o governo de um homem só.

A importância simbólica da abolição dos limites do mandato do presidente consiste no repúdio explícito de Xi ao sistema de sucessão que Deng desenvolveu. Xi já consolidou o controle do partido, tornando-se mais poderoso do que qualquer líder chinês anterior. Xi derrubou seu rival mais poderoso, Bo Xilai, e usou a campanha anticorrupção para se livrar dos inimigos. Minou a autoridade de seu primeiro-ministro e rompeu redes de clientelismo locais. Embora não seja retratado como um deus, como Mao, é reconhecido como gerente sábio e atuante. Suas palavras não são "armas mágicas" como as de Mao, mas são as diretrizes que devem ser seguidas.

Em seu relato da história da República Popular da China, Xi suaviza a narrativa: apaga pontos baixos, como o Grande Salto e a Revolução Cultural, e enfatiza a criação pós-Deng do quase-mercado em crescimento. Deng permitia o reconhecimento dos crimes de Mao - dizendo que suas medidas combinavam 30% de erros com 70% de conquistas. Xi, ao contrário, acabou com as críticas e transformou a história dos últimos setenta anos em progresso triunfal.

Xi também restaurou rituais tradicionais, como o estudo coletivo de documentos do partido e autocríticas. Tornou a promoção cada vez mais dependente da lealdade e reorganizou as forças armadas.

Grande parte da atenção de Xi se dirige à reforma econômica. Ele repete o slogan de que "o mercado desempenhará o papel decisivo na alocação de recursos", mas ao mesmo tempo sinaliza que o Estado continuará guiando o mercado e apoiando empresas estatais "campeãs".

O governo é popular: amplos setores da população experimentaram melhorias dramáticas em suas vidas materiais. Xi baseou-se nos esforços de seus predecessores para expandir o sistema de bem-estar social, melhorar os cuidados com a saúde, aumentar a renda dos habitantes rurais e permitir que alguns residentes rurais obtivessem autorizações de residência urbana.

Advogados de direitos humanos, ativistas feministas, acadêmicos, jornalistas, bem como algumas autoridades do partido viram suas liberdades drasticamente restringidas. Endureceram-se os regimes de vigilância no Tibete e em Xinjiang sob um leal secretário do partido. Intelectuais e minorias vêm a China de Xi como uma versão à la século XXI da China de Mao.

É nesta China que o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, foi buscar apoio para sua proposta de desnuclearização. Em apenas três semanas de março, Kim Jong-un, depois de seis anos sem viajar e de hostilizar os países ao redor do mundo, abriu conversações com a China, a Coreia do Sul e os EUA.

Para o sucesso de novos acordos, a China precisa continuar apoiando as sanções norte-americanas. Mas a China não deseja o colapso da Coreia do Norte, pois teme possíveis consequências da queda de seu governo, como o acesso descontrolado a armas nucleares e biológicas e uma enxurrada de refugiados na sua fronteira. Além disso, com a Coréia do Sul dominando a reunificação, a China teria o aliado dos EUA com armas nucleares como vizinho. Washington e Pequim nunca discutiram uma visão de longo prazo aceitável para ambos.
Por outro lado, o presidente da Coréia do Norte tem se revelado um exímio jogador. Durante o encontro entre as duas Coreias, neste mês, ele se mostrou surpreendentemente espontâneo. Recomendou ao presidente da Coreia do Sul que na visita ao norte usasse o avião, porque as estradas de seu país estavam em péssimo estado. Distribuiu sorrisos e abraçou oficiais do país com o qual ainda está tecnicamente em guerra. O homem que até então era visto como um demônio impulsivo e irracional se revelou calmo, razoável e acessível. Se antes de sua visita, apenas 10% dos coreanos do Sul diziam que confiavam nele, este número subiu para 80% depois da visita.
Kim Jong-un é precavido. Levou até o papel higiênico na mala para ter certeza que não deixaria para trás nada que pudesse ser investigado para detectar alguma doença, por exemplo. Seus serviçais limpavam imediatamente tudo que ele tocava para que nem mesmo uma impressão digital fosse esquecida.

Alguns apostam que Kim-Jong-un quer ser uma espécie de líder chinês, introduzindo na Coréia do Norte reformas econômicas como as que transformaram o Império do Meio. Outros dizem que ele tentará enganar Trump no encontro de 21 de junho. Não sei adivinhar, coração, para onde nos leva o trem da história.
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* Eliana Cardoso, economista e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente.

O 13 de MAIO e NÓS


José de Souza Martins*
 Carvall

 "o escravo era capital imobilizado em sua pessoa, não 
era tratado como animal para apanhar, mas animal 
a ser cuidado para trabalhar e dar lucro."

Nossa memória coletiva só acorda nos aniversários de números redondos. As outras datas são as do esquecimento. Neste ano, o 13 de maio nos lembra que a Lei Áurea foi assinada há 130 anos. Por ela, para alguns, teve fim a escravidão no Brasil; para outros, a data que merece respeito é a do aniversário da morte de Zumbi, senhor do quilombo de Palmares, em Alagoas. Zumbi deu sentido a um anseio de liberdade de alguns e para alguns, mas não de todos nem para todos. E tampouco a lei da princesa Isabel quis ir tão longe.

Os cem anos de resistência dos quilombolas palmarinos, no século XVII, não foram uma antecipação dos ideais de liberdade, que só teriam sentido na Revolução Francesa. Na prática, a lei de 13 de maio de 1888, se não libertou de fato e plenamente os brasileiros ainda sob sujeição, fossem eles negros ou pardos, africanos ou indígenas, tornou a escravidão ilegal. Abriu, data venia, uma larga brecha jurídica para um campo de luta pela liberdade que usamos mal e compreendemos pior.

Quando se fala em escravidão, a imagem que logo vem à cabeça de quase todos nós é a do negro preso ao tronco ou amarrado ao pelourinho recebendo as chibatadas de castigos desumanos. O que é verdade, mas não é a verdade inteira, pois o escravo era capital imobilizado em sua pessoa, não era tratado como animal para apanhar, mas animal a ser cuidado para trabalhar e dar lucro.

A escravidão foi uma realidade complexa que, sociológica e politicamente, escravizou tanto os escravos quanto seus senhores, como nos lembrou Joaquim Nabuco. As pessoas se socializam reciprocamente, quem é mandado e quem manda, quem apanha e quem bate. A escravidão brutalizou o negro, mas brutalizou, também, o seu senhor. Uma dificuldade para superar, de fato, as sequelas da escravidão após o 13 de Maio, não foi jurídica, foi social e psicológica. A lei dizia que o negro era livre, mas a personalidade e a consciência dos antigos senhores, pela escravidão aleijadas, não lhes permitiam compreender e reconhecer nas relações pessoais o que fora determinado no plano jurídico. Até hoje muitos ainda não sabem qual é a diferença entre ser juridicamente livre e ser socialmente subjugado.

Tudo se complica porque tivemos, pelo menos, duas escravidões: a do índio administrado, durante muito tempo chamado de pardo ou "negro da terra" (que são hoje a maioria do povo brasileiro, esquecidos, abandonados e humilhados), e a do negro africano ou de origem africana, chamado simplesmente de escravo ou negro (sem contar que temos ainda a terceira escravidão, a da peonagem, que inclui muitos brancos).

Cada um desses grupos étnicos tinha suas enormes diferenças culturais e linguísticas internas. Ambos também envolvidos na captura e venda de seus inimigos como escravos, tanto aqui quanto na África. A escravidão era uma instituição presente tanto nas diferentes sociedades africanas quanto em nossas diferentes sociedades indígenas. Nem sempre escravidão para o trabalho. Quando os europeus chegaram à África e descobriram a mina de ouro da escravização dos nativos, descobriram uma escravidão que já existia, há muito praticada pelos árabes com a cumplicidade dos próprios nativos, que, por meio dela davam curso aos seus conflitos intertribais. Com o índio aconteceu a mesma coisa.

Quando, designado pelo secretário-geral, me tornei membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra, à qual estive vinculado durante 12 anos, o primeiro caso que me tocou examinar foi o de uma denúncia de captura e escravização de pigmeus de Camarões pelos bantus do Sudão, a mesma nação de origem do nosso Zumbi dos Palmares. O último caso foi o de uma jovem do Níger, a quinta esposa de um muçulmano que, pelas regras de sua religião, só podia ter quatro esposas, sendo a quinta reconhecidamente escrava.

Há indícios muito fortes de um conformismo histórico, muito arraigado na estrutura de personalidade das vítimas do cativeiro, de superação difícil, que conspira todo o tempo contra os justos anseios de liberdade dos que a estimam e dela carecem, sejam negros, pardos ou brancos.

Sem Zumbi e sem Palmares e os muitos quilombos que houve em todo o Brasil, mesmo no território da cidade de São Paulo, nos séculos XVIII e XIX, atacados por dura repressão, a autoestima do negro e das vítimas da escravidão ficaria reduzida a melancólica e pouco verdadeira bondade do branco, ainda que haja, como tem havido, um número imenso de não negros que se sentem feridos por qualquer tipo de escravidão. Do mesmo modo, sem a Lei Áurea e a mediação das instituições, a liberdade advinda da resistência do negro não teria qualquer viabilidade.
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* José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de Moleque de Fábrica (Ateliê Editorial)
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5532761/o-13-de-maio-e-nos