segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Eugênio Bucci: "Sem Estado, acesso à cultura pode acabar".

 "O Brasil precisa extinguir não a instituição de comunicação, e sim a má gestão das instituições"
"O Brasil precisa extinguir não a instituição de comunicação, e sim a má gestão das instituições"

Manifestações culturais que não garantem sua subsistência pelas regras de mercado, como a música erudita e o folclore, necessitam de alguma forma de subsídio do Estado "para que fiquem vivas e sejam acessíveis pela população". É o que defende o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), que foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. 

"A dinâmica dos veículos (de comunicação) comerciais não contempla todos os assuntos necessários para uma vida democrática plena e para o acesso à cultura", pontuou, ao defender a existência de instituições de comunicação pública. 

O acadêmico reconhece que, principalmente no Brasil, há o "uso privado de recursos públicos", além de burocracia e ineficiência na gestão de emissoras de rádio e televisão públicas, mas não crê que isso seja motivação para a extinção desse tipo de órgão. "Se há ineficiência administrativa nos hospitais, será que esse é argumento suficiente para o fechamento dos hospitais? O que deve ser saneado é a administração e a gestão dessas instituições", salienta. 

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Bucci também prega que a programação de emissoras públicas seja "legal e explicitamente independente" de governos e partidos, mas criticou, que o fato de que, no País, é natural para o senso comum "que a Voz do Brasil dê a versão do governo. Não é natural, é uma usurpação", disse. 

Jornal do Comércio - Levando em conta a extinção da Fundação Piratini, autorizada, em 2016, pela Assembleia Legislativa, o fim, em si, de órgãos mantenedores de veículos de comunicação pública pode ser necessário? 
Eugênio Bucci - Não me compete, sem um aprofundamento no assunto, emitir qualquer juízo favorável ou contrário (sobre a Fundação Piratini). Mas o que posso ponderar são algumas constatações e indicações. Em primeiro lugar, as instituições de comunicação pública nesse perfil - como a BBC, a TVE da Espanha e várias outras na Europa - passam por um exame desse tipo, e, às vezes, parece, para muita gente muito bem-intencionada e comprometida com o direito à informação do cidadão, que não vale a pena o Estado manter estruturas assim, que esse não seria o melhor caminho. No Brasil, também há um debate que cresce nesse sentido. Não é a visão que tenho em geral, por mais respeito que tenha às pessoas que argumentam em outra direção. A dinâmica dos veículos comerciais não contempla todos os assuntos necessários para uma vida democrática plena e para o acesso à cultura. Algumas coisas precisam, sim, de alguma forma de subsídio para que fiquem, de um lado, vivas, e, de outro, sejam acessíveis pela população. Na cultura, isso é bastante visível. Há manifestações da cultura popular que, sem algum tipo de amparo, venha ele do Estado ou de benemerência, desapareceriam. O folclore desapareceria. As leis de mercado não garantem. 

JC - A dependência do mercado por parte das rádios e das televisões comerciais acaba levando em consideração apenas as demandas de suas audiências? 
Bucci - Exatamente. E se fosse só essa regra valer na comunicação, que também é acesso à cultura, teríamos o desaparecimento de certas formas de cultura. A música erudita, se dependesse de venda de música pelos distribuidores on-line, de receita de show, teria desaparecido. Ou ela sobrevive sob incentivos públicos, ou pelas instituições das filarmônicas com apoio de doadores. De outro lado, o público não teria acesso a essa forma de cultura se dependesse das leis de mercado. Então, podemos e devemos limitar a tirania das leis de mercado por meio de regramentos públicos - que foi uma solução que deu muito certo nos Estados Unidos - e podemos, também, fazer isso por meio da garantia de existência das intuições de comunicação pública, que dão muito certo em vários lugares do mundo. O que o Brasil precisa extinguir não é propriamente a instituição de comunicação pública, é a má gestão das instituições de comunicação pública. 

JC - Nesse sentido, como garantir os princípios de eficiência e desburocratização, argumento usado para justificar a extinção desse tipo de órgão? 
Bucci - Como princípio, a tradição no Brasil de concessão dessas repartições, empresas públicas, fundações e vários entes da administração indireta, para partidos e correligionários, gerou um ambiente de ineficiência administrativa. Mas se o mau é a ineficiência administrativa, é ela que deve ser combatida, e não a instituição propriamente. Se há ineficiência administrativa nos hospitais, será que esse é argumento suficiente para o fechamento dos hospitais? O que deve ser saneado é a administração e a gestão dessas instituições. 

JC - E como o senhor vê, justamente nesse aspecto, a questão da independência da programação? Vê isso acontecendo no Brasil atualmente? 
Bucci - Não diria que temos, no Brasil, uma instituição realmente exemplar. A que mais se aproxima de uma modelo de instituição de comunicação pública é a Fundação Padre Anchieta, da TV e Rádio Cultura do Estado de São Paulo, mas mesmo ela ainda tem brechas pelas quais a influência governamental se faz sentir. O ideal é que essas instituições sejam, legal e explicitamente, independentes. Mas o Brasil, por diversas razões, padece de uma tradição patrimonialista muito forte. E, aqui, invoco essa palavra para designar o uso privado de recursos públicos. Temos esse problema, que é o uso, para fins partidários e, portanto, privados de aparelhos, equipamentos, equipes, antenas, microfones, holofotes públicos, e isso gerou uma distorção enorme e chegou a ficar naturalizado no senso comum da cultura política média. As pessoas dizem, espontaneamente, que é natural que a Voz do Brasil dê a versão do governo. Não é natural, é uma usurpação. E essas instituições, a vantagem do marco institucional de cada uma delas é que elas não tenham a função legal de fazer propaganda, assessoria de imprensa, marketing ou relações públicas. A função delas é informar e garantir o acesso à informação e à cultura. JC - Como o senhor vê a trajetória da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), principalmente no contexto de mudança entre os governos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB)? Bucci - Esse surgimento da EBC veio em um bojo de uma esperança muito grande, mas não deu o passo necessário na direção da independência. Mas não foi isso que aconteceu, porque o marco regulatório da EBC conservou a forma de empresa pública, o que é uma estatal organizada a partir de um conselho de administração, inteiramente nomeado pelo governo, pela presidência da República e por representantes dos ministérios. Portanto, ele é, sem mediação, a expressão direta da vontade do governo, quer dizer, de uma vontade partidária. Não é uma fundação, não é uma instituição gerida com representantes da sociedade. O que aconteceu: se fez ali um trabalho importante, teve bons presidentes, com bons trabalhos, fez uma TV, em alguns casos, de boa qualidade, mas, quando veio o momento em que a independência real teria que mostrar a sua cara, não foi possível mostrar, pois não havia base legal. Esse momento foi a entrada do governo Temer, que destituiu o então presidente, Ricardo Melo - que é um grande jornalista -, e não havia recursos duráveis para se combater a vontade do governo e, portanto, a intervenção governamental. Não havia ninguém para defender a EBC de uma regressão na direção da submissão à presidência da República. Vá tentar fazer alguma coisa contra uma BBC, contra as PBS ou a National Public Radio, dos Estados Unidos: é impossível. Porque essas instituições são independentes legal e socialmente. Têm o amparo e a simpatia do público. Mesmo a TV Cultura ainda conta com uma simpatia e uma identidade do público muito forte. 

C - Quanto à questão da regulamentação dos meios de comunicação, o que o senhor acredita que os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff tinham em mente ao propor essa discussão? Bucci - Essa foi, no meu ponto de vista, uma das mais retumbantes traições do governo Lula e Dilma, dos dois presidentes. Os programas de governo, as plataformas das primeiras candidaturas e mesmo da candidatura do Lula em 2002 falavam muito da regulamentação dos meios de comunicação. E isso nunca foi feito. Prometeram e não cumpriram. Houve uma tentativa um pouco mais elaborada na época do ministro (das Comunicações) Franklin Martins, mas também ela não foi adiante. JC - E por que não teve efeito? Bucci - Acredito que o PT não apresentou porque não interessava a ele. À medida que o tempo passou, conseguimos ter alguma clareza sobre o seguinte: estabeleceu-se um termo de convivência quase que simbiótico entre os interesses que estavam enfeixados no governo do PT e o status quo da comunicação social no Brasil, e essa convivência convinha às partes envolvidas; embora, às vezes, surgisse uma tentativa (de regulamentação), isso não ia adiante. Outras vezes isso aparecia não como uma tentativa, mas como uma ameaça. Era uma forma de o PT intimidar empresas de comunicação ou setores. E isso era um jeito muito ruim e negativo de entrar na discussão. Por outro lado, a resistência de setores das empresas de comunicação era muito negativa também, porque dizia que a regulação é censura, e regulação não é censura. 

JC - Qual é a forma válida de regulamentar a comunicação de uma maneira geral? 
Bucci - A regulamentação dos meios de comunicação no Brasil é uma necessidade de ordem democrática. Ela não é necessária para os setores da esquerda, isso é uma tolice na qual muita gente acreditou por desinformação. É fundamental que o mercado seja regulado em todos os setores. Temos, no Brasil, uma situação anacrônica, em que uma ilha dentro da regulação ficou inexplorada, que é a ilha das telecomunicações. Isso é necessário para o bom funcionamento da democracia, do mercado e do estado de direito. Os Estados Unidos regularam esse setor nos anos 1930. Reino Unido, Inglaterra, Alemanha, França e Canadá têm regulações próprias nos mesmos moldes há muitos anos, que cuidam de impedir monopólio, de separar a comunicação das igrejas, estimular diversidade etc. São regulações democráticas que nós, no Brasil, não tivemos. Isso, hoje, coloca em uma zona de risco muito perigosa as grandes empresas de comunicação do Brasil. Elas, às vezes, se veem expostas a setores comerciais que não são desses mercados. Igrejas são hoje no Brasil, empresas midiáticas. Nunca poderiam ser, porque são setores diferentes. Essa ausência de regulação vitima os grandes players do mercado brasileiro da comunicação social, que, durante um tempo, julgavam que a regulamentação desse mercado fosse ferir seus interesses, e, atualmente, estão vendo na carne que é necessária para proteger seus interesses, os mais legítimos. 

JC - No caso das eleições gerais deste ano, qual o desafio dos veículos tradicionais para ter uma influência maior que a das notícias falsas? Bucci - O papel que vai permitir para a imprensa mostrar que ela faz diferença no debate democrático é checar o discurso dos candidatos. A checagem adquiriu, não por acaso, uma função proeminente no ambiente jornalístico mundial. Nos Estados Unidos e na Europa se fala muito disso. Não por acaso, as redes sociais colocaram em marcha discursos mitômanos, ou discursos que deliberadamente deturpam os fatos, difamam pessoas, com base em falsidades. Quem pode ajudar o público entre a verdade e a mentira? Nesse momento a imprensa é mais imprescindível do que nunca. 

JC - Por que o fact checking parece novidade? 
Bucci - Se pensarmos, a imprensa sempre fez exatamente isso. O que faz a boa imprensa desde que ela existe? Checa os fatos. Separa o que é verdade do que é mentira. A checagem dos fatos, portanto, é tão antiga quanto a imprensa. 

JC - Mas, de alguma maneira, houve um descrédito das mídias tradicionais perante o público. 
Bucci - Diria que houve, sem entrarmos em casos específicos, uma espécie de descuido na função de separar fato de propaganda. Quando veículos jornalísticos embarcam na onda de misturar a função de emitir opinião - que é fundamental - com fazer proselitismo e seduzir o público, a imprensa sai perdendo. Hoje, ela pode combater o discurso de proselitismo e as mentiras fazendo checagem dos fatos, que adquiriu uma relevância que não havia antes da existência das redes sociais. 

Perfil Eugênio Bucci é professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Também é membro do conselho deliberativo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) e superintendente de Comunicação Social da USP. Escreve quinzenalmente na página 2 do jornal O Estado de S. Paulo e é colunista quinzenal da revista Época. Foi professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) entre 2010 e 2014, onde dirigiu o curso de pós-graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial, de 2011 a 2013. Foi presidente da Radiobrás de 2003 a 2007 e integrou o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo) de 2007 a 2010. Na Editora Abril, foi diretor de redação das revistas Superinteressante e Quatro Rodas, e secretário editorial. Formou-se em Comunicação Social (1982) e em Direito (1988), ambos pela Universidade de São Paulo. Também pela ECA-USP, doutorou-se em 2002 e defendeu sua tese de livre-docência em 2014. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/politica/605445-sem-estado-acesso-a-cultura-pode-acabar-diz-eugenio-bucci.html)
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Foto: LUIZA PRADO/JC Lívia Araújo 
Fonte:http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/politica/605445-sem-estado-acesso-a-cultura-pode-acabar-diz-eugenio-bucci.html 22/01/2018
Sem Estado, acesso à cultura pode acabar, diz Eugênio Bucci "O Brasil precisa extinguir não a instituição de comunicação, e sim a má gestão das instituições" "O Brasil precisa extinguir não a instituição de comunicação, e sim a má gestão das instituições" LUIZA PRADO/JC Lívia Araújo Manifestações culturais que não garantem sua subsistência pelas regras de mercado, como a música erudita e o folclore, necessitam de alguma forma de subsídio do Estado "para que fiquem vivas e sejam acessíveis pela população". É o que defende o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), que foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. "A dinâmica dos veículos (de comunicação) comerciais não contempla todos os assuntos necessários para uma vida democrática plena e para o acesso à cultura", pontuou, ao defender a existência de instituições de comunicação pública. O acadêmico reconhece que, principalmente no Brasil, há o "uso privado de recursos públicos", além de burocracia e ineficiência na gestão de emissoras de rádio e televisão públicas, mas não crê que isso seja motivação para a extinção desse tipo de órgão. "Se há ineficiência administrativa nos hospitais, será que esse é argumento suficiente para o fechamento dos hospitais? O que deve ser saneado é a administração e a gestão dessas instituições", salienta. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Bucci também prega que a programação de emissoras públicas seja "legal e explicitamente independente" de governos e partidos, mas criticou, que o fato de que, no País, é natural para o senso comum "que a Voz do Brasil dê a versão do governo. Não é natural, é uma usurpação", disse. Jornal do Comércio - Levando em conta a extinção da Fundação Piratini, autorizada, em 2016, pela Assembleia Legislativa, o fim, em si, de órgãos mantenedores de veículos de comunicação pública pode ser necessário? Eugênio Bucci - Não me compete, sem um aprofundamento no assunto, emitir qualquer juízo favorável ou contrário (sobre a Fundação Piratini). Mas o que posso ponderar são algumas constatações e indicações. Em primeiro lugar, as instituições de comunicação pública nesse perfil - como a BBC, a TVE da Espanha e várias outras na Europa - passam por um exame desse tipo, e, às vezes, parece, para muita gente muito bem-intencionada e comprometida com o direito à informação do cidadão, que não vale a pena o Estado manter estruturas assim, que esse não seria o melhor caminho. No Brasil, também há um debate que cresce nesse sentido. Não é a visão que tenho em geral, por mais respeito que tenha às pessoas que argumentam em outra direção. A dinâmica dos veículos comerciais não contempla todos os assuntos necessários para uma vida democrática plena e para o acesso à cultura. Algumas coisas precisam, sim, de alguma forma de subsídio para que fiquem, de um lado, vivas, e, de outro, sejam acessíveis pela população. Na cultura, isso é bastante visível. Há manifestações da cultura popular que, sem algum tipo de amparo, venha ele do Estado ou de benemerência, desapareceriam. O folclore desapareceria. As leis de mercado não garantem. JC - A dependência do mercado por parte das rádios e das televisões comerciais acaba levando em consideração apenas as demandas de suas audiências? Bucci - Exatamente. E se fosse só essa regra valer na comunicação, que também é acesso à cultura, teríamos o desaparecimento de certas formas de cultura. A música erudita, se dependesse de venda de música pelos distribuidores on-line, de receita de show, teria desaparecido. Ou ela sobrevive sob incentivos públicos, ou pelas instituições das filarmônicas com apoio de doadores. De outro lado, o público não teria acesso a essa forma de cultura se dependesse das leis de mercado. Então, podemos e devemos limitar a tirania das leis de mercado por meio de regramentos públicos - que foi uma solução que deu muito certo nos Estados Unidos - e podemos, também, fazer isso por meio da garantia de existência das intuições de comunicação pública, que dão muito certo em vários lugares do mundo. O que o Brasil precisa extinguir não é propriamente a instituição de comunicação pública, é a má gestão das instituições de comunicação pública. JC - Nesse sentido, como garantir os princípios de eficiência e desburocratização, argumento usado para justificar a extinção desse tipo de órgão? Bucci - Como princípio, a tradição no Brasil de concessão dessas repartições, empresas públicas, fundações e vários entes da administração indireta, para partidos e correligionários, gerou um ambiente de ineficiência administrativa. Mas se o mau é a ineficiência administrativa, é ela que deve ser combatida, e não a instituição propriamente. Se há ineficiência administrativa nos hospitais, será que esse é argumento suficiente para o fechamento dos hospitais? O que deve ser saneado é a administração e a gestão dessas instituições. JC - E como o senhor vê, justamente nesse aspecto, a questão da independência da programação? Vê isso acontecendo no Brasil atualmente? Bucci - Não diria que temos, no Brasil, uma instituição realmente exemplar. A que mais se aproxima de uma modelo de instituição de comunicação pública é a Fundação Padre Anchieta, da TV e Rádio Cultura do Estado de São Paulo, mas mesmo ela ainda tem brechas pelas quais a influência governamental se faz sentir. O ideal é que essas instituições sejam, legal e explicitamente, independentes. Mas o Brasil, por diversas razões, padece de uma tradição patrimonialista muito forte. E, aqui, invoco essa palavra para designar o uso privado de recursos públicos. Temos esse problema, que é o uso, para fins partidários e, portanto, privados de aparelhos, equipamentos, equipes, antenas, microfones, holofotes públicos, e isso gerou uma distorção enorme e chegou a ficar naturalizado no senso comum da cultura política média. As pessoas dizem, espontaneamente, que é natural que a Voz do Brasil dê a versão do governo. Não é natural, é uma usurpação. E essas instituições, a vantagem do marco institucional de cada uma delas é que elas não tenham a função legal de fazer propaganda, assessoria de imprensa, marketing ou relações públicas. A função delas é informar e garantir o acesso à informação e à cultura. JC - Como o senhor vê a trajetória da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), principalmente no contexto de mudança entre os governos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB)? Bucci - Esse surgimento da EBC veio em um bojo de uma esperança muito grande, mas não deu o passo necessário na direção da independência. Mas não foi isso que aconteceu, porque o marco regulatório da EBC conservou a forma de empresa pública, o que é uma estatal organizada a partir de um conselho de administração, inteiramente nomeado pelo governo, pela presidência da República e por representantes dos ministérios. Portanto, ele é, sem mediação, a expressão direta da vontade do governo, quer dizer, de uma vontade partidária. Não é uma fundação, não é uma instituição gerida com representantes da sociedade. O que aconteceu: se fez ali um trabalho importante, teve bons presidentes, com bons trabalhos, fez uma TV, em alguns casos, de boa qualidade, mas, quando veio o momento em que a independência real teria que mostrar a sua cara, não foi possível mostrar, pois não havia base legal. Esse momento foi a entrada do governo Temer, que destituiu o então presidente, Ricardo Melo - que é um grande jornalista -, e não havia recursos duráveis para se combater a vontade do governo e, portanto, a intervenção governamental. Não havia ninguém para defender a EBC de uma regressão na direção da submissão à presidência da República. Vá tentar fazer alguma coisa contra uma BBC, contra as PBS ou a National Public Radio, dos Estados Unidos: é impossível. Porque essas instituições são independentes legal e socialmente. Têm o amparo e a simpatia do público. Mesmo a TV Cultura ainda conta com uma simpatia e uma identidade do público muito forte. JC - Quanto à questão da regulamentação dos meios de comunicação, o que o senhor acredita que os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff tinham em mente ao propor essa discussão? Bucci - Essa foi, no meu ponto de vista, uma das mais retumbantes traições do governo Lula e Dilma, dos dois presidentes. Os programas de governo, as plataformas das primeiras candidaturas e mesmo da candidatura do Lula em 2002 falavam muito da regulamentação dos meios de comunicação. E isso nunca foi feito. Prometeram e não cumpriram. Houve uma tentativa um pouco mais elaborada na época do ministro (das Comunicações) Franklin Martins, mas também ela não foi adiante. JC - E por que não teve efeito? Bucci - Acredito que o PT não apresentou porque não interessava a ele. À medida que o tempo passou, conseguimos ter alguma clareza sobre o seguinte: estabeleceu-se um termo de convivência quase que simbiótico entre os interesses que estavam enfeixados no governo do PT e o status quo da comunicação social no Brasil, e essa convivência convinha às partes envolvidas; embora, às vezes, surgisse uma tentativa (de regulamentação), isso não ia adiante. Outras vezes isso aparecia não como uma tentativa, mas como uma ameaça. Era uma forma de o PT intimidar empresas de comunicação ou setores. E isso era um jeito muito ruim e negativo de entrar na discussão. Por outro lado, a resistência de setores das empresas de comunicação era muito negativa também, porque dizia que a regulação é censura, e regulação não é censura. JC - Qual é a forma válida de regulamentar a comunicação de uma maneira geral? Bucci - A regulamentação dos meios de comunicação no Brasil é uma necessidade de ordem democrática. Ela não é necessária para os setores da esquerda, isso é uma tolice na qual muita gente acreditou por desinformação. É fundamental que o mercado seja regulado em todos os setores. Temos, no Brasil, uma situação anacrônica, em que uma ilha dentro da regulação ficou inexplorada, que é a ilha das telecomunicações. Isso é necessário para o bom funcionamento da democracia, do mercado e do estado de direito. Os Estados Unidos regularam esse setor nos anos 1930. Reino Unido, Inglaterra, Alemanha, França e Canadá têm regulações próprias nos mesmos moldes há muitos anos, que cuidam de impedir monopólio, de separar a comunicação das igrejas, estimular diversidade etc. São regulações democráticas que nós, no Brasil, não tivemos. Isso, hoje, coloca em uma zona de risco muito perigosa as grandes empresas de comunicação do Brasil. Elas, às vezes, se veem expostas a setores comerciais que não são desses mercados. Igrejas são hoje no Brasil, empresas midiáticas. Nunca poderiam ser, porque são setores diferentes. Essa ausência de regulação vitima os grandes players do mercado brasileiro da comunicação social, que, durante um tempo, julgavam que a regulamentação desse mercado fosse ferir seus interesses, e, atualmente, estão vendo na carne que é necessária para proteger seus interesses, os mais legítimos. JC - No caso das eleições gerais deste ano, qual o desafio dos veículos tradicionais para ter uma influência maior que a das notícias falsas? Bucci - O papel que vai permitir para a imprensa mostrar que ela faz diferença no debate democrático é checar o discurso dos candidatos. A checagem adquiriu, não por acaso, uma função proeminente no ambiente jornalístico mundial. Nos Estados Unidos e na Europa se fala muito disso. Não por acaso, as redes sociais colocaram em marcha discursos mitômanos, ou discursos que deliberadamente deturpam os fatos, difamam pessoas, com base em falsidades. Quem pode ajudar o público entre a verdade e a mentira? Nesse momento a imprensa é mais imprescindível do que nunca. JC - Por que o fact checking parece novidade? Bucci - Se pensarmos, a imprensa sempre fez exatamente isso. O que faz a boa imprensa desde que ela existe? Checa os fatos. Separa o que é verdade do que é mentira. A checagem dos fatos, portanto, é tão antiga quanto a imprensa. JC - Mas, de alguma maneira, houve um descrédito das mídias tradicionais perante o público. Bucci - Diria que houve, sem entrarmos em casos específicos, uma espécie de descuido na função de separar fato de propaganda. Quando veículos jornalísticos embarcam na onda de misturar a função de emitir opinião - que é fundamental - com fazer proselitismo e seduzir o público, a imprensa sai perdendo. Hoje, ela pode combater o discurso de proselitismo e as mentiras fazendo checagem dos fatos, que adquiriu uma relevância que não havia antes da existência das redes sociais. Perfil Eugênio Bucci é professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Também é membro do conselho deliberativo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) e superintendente de Comunicação Social da USP. Escreve quinzenalmente na página 2 do jornal O Estado de S. Paulo e é colunista quinzenal da revista Época. Foi professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) entre 2010 e 2014, onde dirigiu o curso de pós-graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial, de 2011 a 2013. Foi presidente da Radiobrás de 2003 a 2007 e integrou o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo) de 2007 a 2010. Na Editora Abril, foi diretor de redação das revistas Superinteressante e Quatro Rodas, e secretário editorial. Formou-se em Comunicação Social (1982) e em Direito (1988), ambos pela Universidade de São Paulo. Também pela ECA-USP, doutorou-se em 2002 e defendeu sua tese de livre-docência em 2014. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/politica/605445-sem-estado-acesso-a-cultura-pode-acabar-diz-eugenio-bucci.html)

sábado, 20 de janeiro de 2018

Assédio sexual: uma terceira via?

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

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 Catherine Deneuve
 
 "Nada se constrói de positivo se a proposta é lutar apenas “contra” algo. Lutar apenas “contra” o machismo não nos levará muito longe, parece-me. Melhor é lutar a favor. A favor de mais educação e formação para as mulheres, mais reconhecimento de sua competência, mais respeito à sua diferença, mais equidade e justiça para avaliar seu desempenho junto aos colegas homens, mais esforços para que a equiparação salarial para iguais competências seja uma realidade."
Os últimos dias foram marcados pelo debate sobre assédio sexual. Em parte, graças a Deus, porque de assédio político e econômico estamos todos um pouco cansados.

O discurso de Oprah Winfrey na festa do Globo de Ouro foi o clímax de uma caminhada legítima e positiva da mulher. Em busca do seu espaço e a paridade de direitos com o homem há várias décadas, a mulher hoje se nega a ser assediada e oprimida em um mundo ainda marcado pela supremacia masculina.

Como mulher e negra – portanto duplamente vulnerável – Oprah deu voz a muitas de suas colegas do meio cinematográfico e artístico que trabalharam para construir uma carreira e no caminho foram submetidas a chantagens, assédios, passando até mesmo pelo “teste do sofá”. O discurso incluiu igualmente todas as vítimas de abusos e violências sexuais de qualquer espécie. A apresentadora comoveu e convocou com seu inflamado e emocionado discurso.

Pouco depois, outras mulheres tomaram a palavra. Cem francesas publicaram uma carta com outra visão sobre a questão. Entre elas, ninguém menos que a grande e belíssima atriz Catherine Deneuve e também a pensadora e escritora Catherine Millet. Com a visão do feminismo francês – bem diferente do estadunidense – criticaram o tom com que as denúncias de assédio vêm sendo feitas do outro lado do Atlântico. E apontaram para o que poderia ser um “machismo às avessas”, sendo os homens vítimas de denúncias irresponsáveis e extremistas.

Catherine Deneuve pediu desculpas às vítimas pelo mal-estar que sua carta causou. Mas deixou bem claro que o fazia “a elas e só a elas”. Ou seja, não pretendia incluir em seu pedido de desculpas as feministas de além-mar. As reações foram fortes e muitas, na França mesmo e nos Estados Unidos mais ainda. As cossignatárias francesas foram acusadas de serem inimigas da liberdade e coniventes com os abusos sexuais cometidos pelos homens contra as mulheres.

Com temor e tremor, registro meu sentir. Impossível não compreender e sentir-se solidária com as norte americanas, a luta delas e o luto pela pisoteada dignidade da mulher. É fato que não apenas ao norte do Equador, e mais ainda ao sul, mulheres são usadas, abusadas, chantageadas e agredidas. O assédio pode começar na família, protagonizado pelo pai, o tio, um amigo, o irmão, o primo. As histórias são muitas e dolorosas, compostas de silêncios, pânicos, lágrimas e o pavor de que a noite viesse, a casa dormisse e as visitas indesejáveis se aproximassem.

A idade adulta e a entrada no mercado de trabalho não melhoram o panorama. Na vida profissional, até mesmo nos mais inimagináveis e improváveis setores, o assédio se faz presente. E a sombra do abuso cerca, roça, toca, encosta, força e se tem algo de poder, chantageia. O comportamento sinistro é encoberto pela mentalidade que não escuta, não observa, não acredita. E reforçada pelos que acham que a culpa é da vítima, que saiu de short ou decotada, provocando indevidamente a libido masculina.

Por outro lado, a convivência entre homens e mulheres supõe uma diferença que quase nunca repele e quase sempre atrai. E esta pode se expressar em galanteios, admiração, olhares, que não podem ser apressadamente classificados de assédio ou abuso. Este intercâmbio é necessariamente sexuado (não sexual) e pode ser vivido no respeito e dentro de limites éticos. E quando assim sucede, dignifica tanto o homem como a mulher.

Não necessariamente a admiração de um homem por uma mulher deve derivar para assédio, abuso ou violência. Portanto, não há que anatematizar qualquer iniciativa dos homens nesse sentido como digna de ser repelida, denunciada e execrada. O manifesto das francesas não deixa de acertar neste ponto. Só não me agrada a palavra “importunar”. A associação imediata se faz com “molestar”, que leva ao assédio e à repulsa ao mesmo. Ninguém gosta de ser importunada, mas de ser admirada com respeito e delicadeza, sim. Duvido que haja alguma mulher que não goste.

Gosto que me ajudem a carregar a mala pesada, que abram a porta da sala ou do carro para que eu possa entrar, que puxem a cadeira para que eu me sente. Tantos amigos tive e tenho na vida que já fizeram isso, na frente de meu marido ou na sua ausência. E jamais me senti assediada. E se o admirador se tornar insistente e inconveniente, a mulher é livre e adulta para fazê-lo sentir que o limite chegou e é melhor parar por ali. 

Entre o feminismo militante das estadunidenses e de muitos outros coletivos na Europa, no Brasil e em toda parte e a visão mais flexível das francesas, haverá uma terceira via? Quero crer que sim. E ela reside na tolerância zero com a violência sexual de qualquer tipo: física, emocional, profissional etc. Porém não ao se criar uma atitude tão antitética em relação aos homens que transforme todos e cada um em potencial agressor e/ou inimigo.

Nada se constrói de positivo se a proposta é lutar apenas “contra” algo. Lutar apenas “contra” o machismo não nos levará muito longe, parece-me. Melhor é lutar a favor. A favor de mais educação e formação para as mulheres, mais reconhecimento de sua competência, mais respeito à sua diferença, mais equidade e justiça para avaliar seu desempenho junto aos colegas homens, mais esforços para que a equiparação salarial para iguais competências seja uma realidade.

Senão, como ficariam as obras literárias, musicais e artísticas em que a beleza da mulher é cantada e louvada? A canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim sobre uma garota que passava em Ipanema rumo à praia celebra a beleza e o encanto daquela mocinha sem deslizar nem um milímetro para a grosseria ou a falta de respeito. Por outro lado, há canções, textos pretensamente literários e manifestações supostamente artísticas que, na verdade, são de extremo mau gosto e desrespeito e não ajudam em nada o processo de emancipação da mulher.

Um mundo onde não se possa mais cantar “Garota de Ipanema”, onde os poemas de Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda e outros sejam banidos como misóginos e machistas, onde as pinturas e esculturas que retratam o corpo feminino com suas curvas e relevos sejam postos sob suspeita será um mundo enfadonho, opaco e desagradável. Não humanizará ninguém e muito menos as mulheres.
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* Teóloga. Prof. Universitária. Escritora. Mãe de três filhos. 
Fonte: http://blogs.periodistadigital.com/maria-clara-lucchetti.php/2018/01/19/assedio-sexual-uma-terceira-via-
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O novo contrato sexual

PAULO GHIRALDELLI JR.*
(FILES) This file photo taken on February 14, 2017 shows French actress Catherine Deneuve posing for photographers during a photocall for the film "Sage Femme" (The Midwife) in competition at the 67th Berlinale film festival in Berlin. Feminists and one of the women who accused fallen Hollywood mogul Harvey Weinstein of rape turned on French actress Catherine Deneuve on January 10, 2018 after she signed an open letter attacking the #MeToo movement for leading a witch-hunt against men. / AFP PHOTO / John MACDOUGALL

John Macdougall/AFP

A atriz francesa Catherine Deneuve, que assinou manifesto contra "denuncismo" de feministas

A mulata Globeleza desapareceu. As duas. Não cabe mais. O nu e a exposição da mulher são alguma coisa que sobrou para o celular: "Mande nudes." Na TV, só se vier recheado de salamaleques pseudocultos, como no caso do programa "Amor & Sexo" —aliás, muito chato. 

Até mesmo a propaganda de cerveja adotou antes a lição moral que a chamada, pelos meus pais, de "mulher boazuda" (também usei essa expressão). 

Até pouco tempo, os homens das agências de marketing diziam que um cachorro da raça golden retriever e os decotes generosos eram as duas coisas que faziam os homens sorrir. A distância do golden retriever como chamariz cresceu tanto em relação aos seios que o segundo lugar não conta mais. Ser fofo, agora, é ser filhote. 

Aqueles que estão acostumados a manuais de sociologia –e, por isso, não pensam– estão dizendo por aí que vivemos uma época de "puritanismo americano". Outros, então, alimentados por literatura barata, vão falar em hegemonia do "politicamente correto" (ou "ditadura", o que é erro até maior). Mas uma visão histórica desmente isso. 

Os anos 60 trouxeram a abertura para um novo contrato sexual. Ele não se fez. Só agora estamos realmente pondo a sua minuta na mesa. Entre os anos 70 e 90, um dos resultados dos 60 foi o lento e sazonal aparecimento de roupas andróginas e de moda de cabelo e outras coisas chamadas "unissex".
Agora, a androginia saiu do campo do adorno e foi para o campo mental. Há uma mentalidade andrógina no ar. O amor deixou lugar aberto para o seu original, Eros, e este nunca foi outra coisa senão o rei da androginia. 

Sempre fez pessoas gostarem de pessoas, e não homens gostarem de mulheres ou vice versa. O mundo ocidental jovem está povoado de pessoas; pessoas cuja genitália (ou não genitália) deixou de dar comando unificado para o amor. 

Tudo isso se espelha maravilhosamente no embate entre o discurso de denúncia de assédio, representado no momento pela fala de Oprah Winfrey, e o manifesto contra o "denuncismo", representado pela assinatura de Catherine Deneuve. As moças do cinema saem na frente! 

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Ao contrário do que se anuncia, nada aí diz respeito a mais um debate do "feminismo" contra o "machismo". O confronto é a confecção do novo contrato sexual —finalmente! 

O que está na minuta do contrato é o novo, o inusitado: o "segundo sexo" (Simone de Beauvoir) está delineando o que deve ser o macho, o masculino ou o homem, sem perguntar nada aos homens. Isso é o inédito. Essa é a marca desse movimento, a vitória da mulher. 

Ambos os movimentos são progressistas. A cama é um lugar horizontal, e ambos os manifestos querem que isso prevaleça. Não há razão para clamar por verticalismos, jogos de poder, status, para se ir para a cama nem para sair dela. 

Oprah quer que a lei contra assédio possa ser cumprida, pondo nos eixos os homens que não sabem ler a linguagem corporal das mulheres, que dizem "sim" ou "não" sem precisar falar. Deneuve quer que os homens que sabem ler a linguagem corporal da mulheres possam ter chance de o assim fazer, sem ganharem a injusta pecha de tarados. 

O homem, aqui, não apita nada. Ele está sendo moldado por mulheres da América e da Europa e vai ter de entrar no novo figurino. O pacto sexual cuja minuta é apresentada agora vai ser assinado por ele, mas sem que seja consultado. Se ele teimar, o contrato ficará valendo até mesmo sem sua assinatura. O certo é que ele nem perceberá, pois já estará mudado quando acordar. 

Em mundo assim, a mulata Globeleza precisa mesmo desaparecer. Para volta a surgir nua, deverá esperar um novo homem que saiba entender quando a sua nudez estará se dirigindo para ele ou não. Isso se ele ainda tiver algum interesse por nudez. 

O homem tirado desse novo pacto, pelas mulheres, vai ter que ser um leitor melhor, inclusive para entender que golden retriever e androginia vem antes que ele. A sensibilidade natural é histórica.
A ideia de que as pessoas dizem "sim" quando estão dizendo "não" terá de ser mais bem percebida. O que Deneuve e Oprah estão afirmando é que a burrice precisa perder espaço. 
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*PAULO GHIRALDELLI JR., 60, filósofo, é autor, entre outros, de "Dez Lições Sobre Sloterdijk" (Vozes)

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/01/1950726-o-novo-contrato-sexual.shtml 16/01/2018

Tratado de Voltaire sobre a tolerância ressoa nos tempos modernos

Martim Vasques da Cunha*
Calas
Pintura retrata o flagrante de Jean Calas

Obra foi motivada pela condenação injusta de um homem pela morte de seu filho

No dia 9 de março de 1762, o negociante Jean Calas, de 68 anos, oriundo da pequena cidade francesa de Toulouse – segundo seus vizinhos “um bom homem praticante da religião protestante” –, foi condenado à morte pelo assassinato do seu filho Marc-Antoine, convertido ao catolicismo. O garoto se enforcara em uma porta, e aparentemente tirara a vida porque não conseguira cumprir suas dívidas de jogo.  

Mas não foi assim que o tribunal de Toulouse viu a situação. Para ele, Calas era um “fanático anticatólico” – uma acusação grave em um país que ainda se recuperava do massacre da Noite de São Bartolomeu, ocorrida em 1562, no qual 4 mil protestantes (huguenotes) foram trucidados a mando da família do rei Carlos IX. O negociante foi executado no “suplício da roda”: o indivíduo ficava esticado numa roda de madeira, quebravam-se seus ossos e membros, e, completamente estraçalhado e já morto, era exposto ao público como exemplo. Dias depois, o corpo de Calas foi jogado em uma fogueira. Até o fim, alegou sua inocência que, enfim, seria provada e sentenciada postumamente pelo tribunal de Paris, em 1765, por coincidência no mesmo 9 de março. 

Em 3 de maio de 2014, um domingo, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, do Guarujá, segundo seus familiares uma excelente mãe de dois filhos, “conversadeira e alto astral, vulnerável e inofensiva” – pois tomava medicamentos para controlar o transtorno bipolar diagnosticado após sofrer um aborto espontâneo –, fazia compras num minimercado quando passou a mão na cabeça de uma criança que estava na rua e lhe ofereceu uma fruta. Segundo os juristas Letícia de Souza Furtado e Wilson Franck Júnior em artigo acadêmico publicado na revista Iurisprudentia, “nesse instante, alguém teria apontado a mulher como sendo a ‘bruxa da internet’, porque ela era supostamente semelhante a uma figura representada em difundido retrato falado”, uma “feiticeira” que sequestrava crianças da região para rituais satânicos, arrancando-lhes os olhos e o coração. 

O linchamento foi implacável. Durante duas horas, Fabiane “foi jogada num mangue, depois de ter sido amarrada com arame, arrastada, espancada, agredida com uma roda de bicicleta e com pedaços de madeira”. Por uma ironia macabra, a bíblia de capa preta que carregava consigo naquele dia foi vista como prova definitiva do seu “satanismo”. Internada em estado grave naquele mesmo dia, Fabiane morreu no dia 5 de maio, uma segunda-feira. A vergonha tomou conta de quem participou daquele ato hediondo ao perceber que se tratava de uma inocente – e a sensação de horror se acentuou ainda mais quando se descobriu que o evento foi filmado e divulgado nas redes sociais, com momentos escabrosos como o de alguém que, ao ver Fabiane estirada no chão e ao perceber que ela tentava dizer alguma coisa, apenas xingou: “‘Uh’ é o c*, filha da p*. Agora é ‘uh’, né?”. 

O caso de Jean Calas foi o estopim para que François-Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, escrevesse um dos textos mais famosos de todos os tempos – o Tratado Sobre a Tolerância, publicado em 1763, e agora recentemente lançado no Brasil com nova tradução e notas de Leandro Cardoso Marques da Silva (Edipro, 127 págs.). As épocas são diferentes, mas a semelhança no comportamento humano é assustadora, ao compararmos a tragédia de Calas com a de Fabiane de Jesus. A única diferença é que, infelizmente para quem acredita que Voltaire ainda tem algo a dizer, o seu Tratado tornou-se uma peça de museu que cheira a mofo. 

Voltaire nunca teve a coragem intelectual de perceber que o verdadeiro assunto do seu libelo a favor de Calas não era a tolerância ou a intolerância, mas sim a única constante na natureza humana: a capacidade de praticar o Mal com todos ao nosso redor, independentemente do credo, da raça, do país e da riqueza. Como bem explicou Eric Voegelin no sexto volume da sua História das Ideias Políticas, apesar da sinceridade e compaixão ao defender a dignidade da razão e do homem, Voltaire foi o pioneiro ao inaugurar o tipo de intelectual público que acredita estar no ápice de uma época que, por sua vez, estaria no ápice da civilização humana (o Iluminismo) – e, possuído pelo “fogo da tolerância”, atacaria a superstição e a perseguição religiosas. Ele não compreendia os mistérios da vida espiritual e, assim, a sua solução era vê-los como obstáculos a serem eliminados da cena pública porque eram um escândalo para o homem iluminado. 

Segundo Michael Polanyi, tolerância seria a capacidade de ouvir uma afirmação hostil e injusta dita por um oponente e descobrir nela tanto os pontos de comum acordo como as razões que existem por trás dos seus erros. No Tratado, Voltaire não faz nada disso. Após relatar o caso Calas com uma precisão literária invejável, esquiva-se do assunto para fabricar uma narrativa histórica, que vai de Roma à Europa do seu tempo, passando pela Israel dos profetas. Nela, a intolerância combate a tolerância, na crença apocalíptica de que, no final, somente a razão sairá vitoriosa porque, olhem só, o próprio Voltaire fará esse serviço por todos nós. 

Fica evidente aqui porque a brasileira Fabiane de Jesus não teve um Voltaire para chamá-lo de seu. Na verdade, o francês fez o que todo intelectual pratica em seus escritos: abstrai o Mal intrínseco ao ser humano e apela a uma palavra vazia de sentido, mas comovente ao público em geral – a tal da “tolerância” –, sem entender que a vida religiosa, se for compreendida corretamente (e não usada com meios políticos, como foi o que aconteceu no caso Calas), pode impedir com eficácia a violência que há dentro de nós.  

No seu belo Pré-História & História (É Realizações, 365 págs.), o historiador Maurício G. Righi, inspirado na teoria do bode expiatório de René Girard, argumenta que o ser humano realiza uma peregrinação civilizacional. Começa com o homo urbanus, habitante das cidades construídas sobre sacrifícios repletos de mortes hediondas, ao homo necans, o caçador que precisa matar para sobreviver neste mundo cruel, e termina com o homo spiritualis, o sujeito que controla o Mal dentro de si porque decide imitar algum Deus que o faça superar os seus vícios e conquistar a virtude que ainda habita no seu coração. 

Righi tem pontos em comum com Claudio Magris que, no ensaio The Fair of Tolerance, escreve que, para manter a unidade social, a tolerância só será justa se for observada a existência de princípios não negociáveis. São as leis não escritas dos deuses meditadas por Sófocles na Antígona, aquilo que não se pode negar a existência de forma alguma porque são a base da realidade objetiva na qual o ser humano vive. Quem negar isso, cairá naquele alçapão da loucura que Dostoievski descreveu tão bem como “tudo é permitido” e no qual o caos torna-se uma instituição. 

Para Magris, essas “leis não escritas” são compreendidas sempre à luz da razão humana e consistem neste centro de experiência comum que compõe e solidifica a cultura ocidental. É justamente essa experiência permanente para todos que o escritor triestino identifica como a verdadeira “laicidade”. 
Ser “laico” não significa ser contra a religião; significa respeitá-la como uma experiência factual e que molda outras culturas; significa usar a luz da razão humana para compreender que existem outras coisas além da nossa vã filosofia; significa que, para a religião cristã que moldou o continente, deve-se também respeitar qualquer outra religião – e esta não pode desrespeitar os princípios não-negociáveis (e vice-versa). 

Ora, o que o autor de The Fair of Tolerance defende é o contrário do que afirma Voltaire. Para o francês, a tolerância só pode existir se a religião for vista como uma mera superstição. Já para Righi e Magris, o fenômeno religioso é o fundamento da verdadeira tolerância – a que obriga o ser humano a dominar a si mesmo, sob quaisquer circunstâncias extremas. Portanto, jamais pode se negar que a única igualdade democrática dos nossos tempos é a prática do Mal, do berço ao túmulo. Não por acaso, o Voltaire de Fabiane de Jesus foi ninguém menos que o coveiro que a enterrou. Ao observar a loucura daquela situação, ele apenas disse aos jornalistas que cobriram o evento, extremamente comovido: “A mulher tem Jesus no nome. Foi espancada, apedrejada e injustiçada que nem ele. Tinha a mesma idade do Cristo. Dois mil anos depois, não mudou nada.” 
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*É autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); Pós-doutorando pela FGV-Eaesp 
Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,tratado-de-voltaire-sobre-a-tolerancia-ressoa-nos-tempos-modernos,70002147525

O Politicamente Correto chega ao Vaticano

Slavoj Žižek*



O papa Francisco normalmente tem intuições e ideias corretas sobre questões teológicas e políticas. Recentemente no entanto, ele cometeu a séria gafe de apoiar a ideia, propagada por alguns católicos, de mudar uma linha no Pai-Nosso. A controversa parte em que pedimos para Deus “não nos levar à tentação”: “Não é uma boa tradução porque fala sobre um Deus que induz à tentação. Eu sou o que cai em tentação; não é Ele que está me empurrando para ver como caí. Um pai não faz isso, um pai lhe ajuda a levantar imediatamente. É Satã que nos leva à tentação, esse é o departamento dele”. Então, o pontífice sugere que nós devemos seguir a Igreja Católica na França, que já usa a frase “não nos deixe cair em tentação”, ao invés da forma atual.

Por mais convincente que essa linha de raciocínio possa parecer, ela despreza o mais profundo paradoxo do Cristianismo e da ética. Deus não está nos expondo à tentação já no Paraíso, quando ele avisa Adão e Eva que eles não devem comer a maça da árvore do conhecimento? Porque ele colocou a árvore lá em primeiro lugar, e então ainda chamou atenção para ela? Ele não sabia que a ética humana só podia surgir depois da Queda? Muitos teólogos e escritores cristãos perspicazes, de Kierkegaard à Paul Claudel estavam plenamente conscientes de que, no seu nível mais básico, a tentação origina-se na forma do Bem. Ou, como Kierkegaard colocou sabiamente, quando Deus manda Abraão sacrificar Isaac, seu dilema “é um teste tão severo que, notem, o ético é a tentação.” A tentação do (falso) Bem não é o que caracteriza todas as formas de fundamentalismo religioso?

Aqui está talvez um surpreendente exemplo histórico: o assassinato de Reinhard Heydrich. Em Londres, o Governo Provisório da Tchecoslováquia decidiu matar Heydrich; Jan Kubiš e Jozef Gabčík, que lideravam o time escolhido para a operação, caíram de paraquedas perto de Praga. No dia 27 de Maio de 1942, com seu motorista, em um carro conversível (para mostrar sua confiança e coragem), Heydrich estava a caminho de seu escritório. Quando, numa junção em Praga, o carro desacelerou, Gabčík surgiu na frente do veículo e mirou em Heydrich com uma submetralhadora, mas ela travou. Ao invés de mandar seu motorista fugir dali, Heydrich pediu para ele parar e decidiu confrontar os homens que o atacavam. Nesse momento, Kubiš jogou uma bomba na traseira do carro enquanto ele freava, e a explosão feriu Heydrich e Kubiš.

Quando a fumaça clareou, Heydrich emergiu dos destroços com seu revólver em mãos; ele perseguiu Kubiš por meio quarteirão, mas ficou fraco por causa do choque e caiu. Ele mandou seu motorista, Klein, perseguir Gabčík a pé enquanto, ainda segurando sua arma, pôs as mãos na parte esquerda do seu corpo, que sangrava intensamente. Uma mulher tcheca foi ajudar Heydrich e chamou uma van de entrega; ele primeiro foi posto no assento de passageiro, mas reclamou que o movimento do carro estava lhe machucando e então foi colocado na parte de trás da van, e rapidamente levado ao pronto socorro de um hospital próximo… (Heydrich morreu alguns dias depois, mas vale a pena notar que suas chances de sobrevivência eram altas, então essa mulher podia ter entrado na história como quem salvou a vida de Heydrich.)

Enquanto um nazista militarista simpatizante poderia enfatizar a coragem pessoal de Heydrich, o que me fascina é o papel desempenhado pela mulher tcheca anônima: ela ajudou Heydrich, que estava deitado sozinho, coberto de sangue, sem proteção militar ou policial. Ela sabia quem ele era? Se sim, e se ela não fosse simpatizante dos nazistas (ambas pressuposições mais prováveis), porque fez isso? Foi uma simples e quase automática reação de compaixão humana, de ajudar um vizinho em apuros independentemente de quem ele ou ela (ou elx, como logo seremos forçados a escrever) era? Essa compaixão deveria ser mais forte do que o fato de que esse “vizinho” é um dos maiores criminosos nazistas, responsável por milhares (e depois milhões) de mortes? O que confrontamos aqui é a escolha definitiva entre liberalismo humanista abstrato e a ética implicada em uma batalha de emancipação radical: se nós progredirmos para o extremo lógico do liberalismo humanista, nos encontraremos tolerando os piores criminosos, e se partimos para o engajamento político, estaremos do lado da emancipação universal. No caso de Heydrich, para a pobre mulher tcheca agir universalmente, ela teria que resistir à compaixão e dar fim à vida dele…

Tais impasses constituem uma vida eticamente engajada de fato, e, se nós as excluirmos como problemáticas, nos restará um texto sagrado benevolente e sem vida. O que se esconde atrás dessa exclusão é o trauma do Livro de Jó , onde Deus e Satã diretamente organizam a destruição da vida de Jó para testar sua devoção. Poucos cristãos afirmam que, por isso, o Livro de Jó deveria ser excluído da Bíblia como uma blasfêmia pagã. No entanto, antes de sucumbirmos a essa limpeza ética do Politicamente Correto, deveríamos pausar por um momento e considerar o que perdemos com ela.

O impacto quase insuportável do Livro de Jó reside não tanto na narrativa (o Diabo aparece no livro como um parceiro de conversa de Deus e os dois decidem se engajar em um experimento um tanto quanto cruel para testar a fé de Jó), mas no seu resultado final. É preciso localizar exatamente a grandeza de Jó: ao contrário da noção usual que se tem dele, Jó não é um paciente sofredor que aguenta as provações extremas com fé firme em Deus. Na verdade, ele reclama constantemente, rejeitando sua fé (como Édipo em Colono, que normalmente também é mal definido como uma vítima paciente e resignada ao seu futuro). Quando, depois que seus meios de subsistência são destruídos, três teólogos amigos visitam Jó e conversam com ele, a linha de argumento deles é o típico sofismo ideológico: se você sofre é porque, por definição, você deve ter feito algo de errado, já que Deus é justo… No entanto, sua argumentação não se limita a afirmar que Jó é de alguma forma culpado: o que está em jogo em um nível mais radical é o significado (ou a ausência de) do sofrimento dele. Como Édipo em Colono, Jó insiste na total falta de sentido do seu sofrimento: como o título 27 de mostra: “Jó mantém sua integridade”. Como tal, o Livro de Jó proporciona talvez o primeiro exemplo da crítica da ideologia na história humana, desnudando as estratégias discursivas básicas de legitimação do sofrimento. A dignidade propriamente ética de Jó está na maneira como ele persistentemente rejeita a noção de que seu sofrimento pode ter algum significado, seja como punição por seu passado ou como teste de sua fé, contra os três teólogos que o bombardeiam com possíveis justificativas e significados. Surpreendentemente, Deus o defende no fim, alegando que toda palavra que Jó disse era verdade, enquanto toda palavra dita pelos teólogos era falsa.

E é por causa dessa asserção da falta de sentido do sofrimento de Jó que deveríamos insistir no paralelo entre Jesus e Jó, no sofrimento de Jó anunciando a Via-Crúcis. O sofrimento de Cristo também é sem sentido, não é um ato de troca lógica. A diferença, evidentemente, é que, no caso de Jesus, a distancia que separa o homem sofredor desesperado (Jó) de Deus é transposta para o próprio Deus, em sua divisão radical, ou melhor, em seu autoabandono. O que isso significa é que deveríamos arriscar uma leitura muito mais radical da frase “Pai, porque Me abandonaste?” do que se costuma fazer.

Já que estamos lidando aqui não com a distância entre homem e Deus, mas com a divisão no próprio Deus, a solução não pode ser que Deus (re)apareça em toda sua majestade, revelando a Cristo o significado mais profundo de seu sofrimento (que ele era o Inocente sacrificado para redimir a humanidade). O “Pai, porque Me abandonaste?” de Cristo não é uma reclamação feita ao onipotente Deus-Pai cujos trabalhos são indecifráveis para nós, meros mortais, mas, na verdade, uma reclamação ao impotente Deus. É como a criança que, depois de acreditar que ser pai é superpoderoso, com horror descobre que seu pai não pode ajuda-lo. (Para evocar um exemplo da história recente: no momento da crucificação, Deus-o-Pai está em uma posição similar ao pai bósnio, forçado a assistir o estupro de sua filha, e suportar o trauma de seu olhar de compaixão-repreensão: “Pai, porque Me abandonaste?”…) Resumindo, com esse “Pai, porque Me abandonaste?”, é Deus-o-Pai que efetivamente morre, revelando sua total impotência, e então ressurge dos mortos na aparência do Espírito Santo, a coletividade dos crentes.

Porque Jó manteve seu silencio depois da vaidosa aparição de Deus? Esta ridícula exibição (a pomposa bateria de perguntas retóricas “Onde estavas tu quando…”: “Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? / Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. /Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento.”) não é o próprio modo de aparição do seu oposto, ao que se pode responder com apenas: “OK, se você pode fazer tudo isso, porque me deixou sofrer de modo tão desnecessário, sem sentido?” As palavras poderosas de Deus não tornam seu silêncio sobre essa questão ainda mais palpável, não enfatizam a ausência de uma resposta? E se foi isso que Jó percebeu e que o manteve quieto: ele ficou em silêncio não porque foi esmagado pela presença avassaladora de Deus nem porque ele queria mostrar sua resistência contínua, mas porque, em um gesto de solidariedade muda, ele percebeu a impotência divina, já que Ele não respondia seu questionamento. Deus não é nem justo ou injusto, ele é simplesmente impotente. O que Jó de repente percebeu é que não era ele, mas Deus que deveria ser julgado pelas calamidades de Jó, e Ele falhou no teste miseravelmente. Ainda mais criticamente, deveríamos arriscar uma leitura anacrônica radical: Jó enxergou o futuro do sofrimento de Deus – “Hoje sou eu, amanha será seu filho e ninguém poderá intervir por ele. O que você vê em mim agora é a prefiguração de sua própria paixão!”

Então, se quisermos manter a experiência cristã viva, temos de resistir à tentação de purgar todas suas passagens “problemáticas”. Elas conferem o estofo que confere ao Cristianismo as insuportáveis tensões de um vida real.
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Filósofo, sociólogo, teórico crítico e cientista social esloveno. É professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana.
 Por Slavoj Žižek,via The Philosophical Salon, traduzido por Julio Davila
Fonte:  https://lavrapalavra.com/2018/01/18/o-politicamente-correto-chega-ao-vaticano/#more-9727

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Se eu soubesse...

 Roberto DaMatta*
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... que ele ia morrer subitamente, lhe diria o quanto eu o amava todos os dias...


Bebíamos o terceiro ou quarto uísque quando surgiu no infinito horizonte dos nossos copos vazios uma questão burguesa: afinal de contas, o que nos havia tornado humanos? Teria sido a alma dada por Deus essa inventora da consciência e da linguagem articulada - ou o tabu do incesto? Teria sido a proibição de comermos a nós mesmos como tende a fazer a democracia igualitária e o globalismo desenfreado?

Todos falaram, mas eu fiquei com aquele que soltou o seguinte: somos humanos porque temos o condicionante virtual: o “se” da frustração e do arrependimento. Ah! Se eu soubesse, ou pudesse...
Eis algumas coisas que ouvi.

Se eu soubesse o que hoje sei, eu não sei se estaria escrevendo essas linhas... Se eu soubesse que o “se eu soubesse” é algo recorrente - pois sempre pensamos saber mais do que sabemos -, não teria ficado tão magoado com meu pai... Se eu soubesse que a democracia americana ia dar em Trump, disse um tal de Alexis-Charles-Henri-Maurice Clérel de Tocqueville, teria refeito o meu livro Democracia na América... Se eu soubesse que insistir em pegar na mão dela ia me custar o emprego, teria ficado fiel ao meu inútil voto de castidade... Se eu soubesse que tudo o que fiz e ainda vou fazer vai ser fatalmente esquecido, teria pensado mais em escrever menos... Se soubesse o resultado da Mega-Sena, eu (diz um lado meu) estaria longe daqui... Se eu soubesse que o tempo realmente passa, teria terminado o livro que jamais vou escrever... Se eu soubesse que roubar era sinônimo de “cuidar do povo”, teria me suicidado politicamente... Se eu soubesse que a descoberta do planeta como um todo - o planeta visto de fora para dentro - ia me dar a certeza de que estamos matando o mundo, não seria otimista... Se eu soubesse que ser professor seria viver numa luta decepcionante contra a indiferença do saber em toda a parte, mas sobretudo no Brasil, teria - mesmo assim - sido professor... Se eu soubesse que o meu medo do escuro ia estar sempre ao meu lado, teria acendido a luz... Se eu soubesse que ia construir uma tribo, jamais saberia como a leveza do papel de avô compensa amplamente o papel pesado de pai... Se eu soubesse que iria ser vítima das intrigas humanas que, por sua vez, são o resultado não previsto das intrigas que os intrigantes realizam nas suas próprias cabeças, teria vivido com serenidade as calúnias assacadas contra mim... Se eu soubesse que, mesmo sendo o filho mais velho, poderia ter mais latitude para errar, burlar, brincar e pecar, talvez tivesse sido um artista - medíocre, sem dúvida - um ser mais alinhado com os encontros decisivos entre a força da vida e o silêncio dos túmulos... Se eu soubesse latim, francês e matemática como meus professores gostariam que aprendesse, seria engenheiro ou militar... Se eu soubesse que a ambição humana é tão ou mais poderosa que os protocolos, estaria menos preocupado com um mundo que exige muito menos de mim do que eu dele... Se eu soubesse de memória tudo o que ouvi dos meus professores, estaria num hospício... Se eu soubesse que não saber é uma condição da vida, não teria consultado aquela cartomante famosa, que tinha como clientes diplomatas, altos funcionários, frades e materialistas... Se eu soubesse que despertava tanta inveja, meu sentimento de culpa caberia num dedal... Se eu soubesse que o mapa social do Brasil estava traçado antes do meu nascimento, não teria me esforçado tanto - teria me esforçado muito mais... Se soubesse tudo, eu não teria que aprender nada... E se eu não soubesse nada, como foi o caso, não ficaria tão decepcionado em saber tão pouco... Se eu soubesse puxar o saco dos poderosos, teria ido muito mais longe... Se eu soubesse que ele ia morrer subitamente, lhe diria o quanto eu o amava todos os dias... Se meus pais estivessem vivos, eu iria perguntar tudo sobre a vida deles... Se eu soubesse que o passado jamais volta, exceto pelos bons momentos do presente, não estaria firme neste pedaço de jornal...
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* É um antropólogo, conferencista, consultor, colunista de jornal e produtor brasileiro de TV.
Fonte: http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,se-eu-soubesse,70002153298
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Tartufismo

Leandro Karnal*
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O sucesso do hipócrita depende da inexistência de qualquer traço moral

Deneuve, a bela de sempre

Juremir Machado da Silva*
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 Catherine Deneuve

 Vivemos muitos anos em Montparnasse, em Paris.

Em dez minutos caminhando estávamos em Saint-Sulpice, onde Catherine Deneuve mora. Íamos até lá para avistá-la. Uma vez, batalhei uma entrevista com ela no Festival de Cinema de Cannes, que eu cobria como correspondente internacional. Poucas vezes vi uma mulher tão deslumbrante e segura de si. Franceses adoram polêmica. Todo ano tem alguma muito forte. Neste começo de 2018 foi o manifesto das mulheres, encabeçado por Deneuve, contrariando a turma das atrizes americanas lideradas por Oprah Winfrey que, na cerimônia do Globo de Ouro, subiram o tom contra o assédio sexual e todas as formas masculinas de constrangimento.

Catherine Deneuve e sua turma saíram em defesa da paquera e da sedução.

No popular, defenderam o direito à cantada malsucedida. Danuza Leão fez eco no Brasil ao coro das francesas. Muitos conservadores aplaudiram Deneuve na base do “esse politicamente correto está demais, não se pode brincar com cor ou sexo que alguém se ofende”. Ela tratou de separar os tipos de queijo: “Aos conservadores, racistas e tradicionalistas que estrategicamente me deram apoio, saibam que vocês não terão nem minha gratidão, nem minha amizade, ao contrário”. Mais: “Sou e vou continuar a ser uma mulher livre. Meu cumprimento fraterno vai para todas as vítimas de atos odiosos que puderam ter se sentido agredidas pela carta publicada no jornal Le Monde. É somente a elas que apresento minhas desculpas”. Au revoir!

Conversei longamente por skype com o filósofo Gilles Lipovetsky, especialista do luxo, da moda e dos comportamentos hipermodernos, que acaba de lançar “Plaire et toucher, essai sur la société de séduction”, ainda não traduzido para o Brasil. Gilles está convencido de que o chamado politicamente correto não ameaça as liberdades sexuais conquistadas a partir de maio de 1968. Para ele, as mulheres nem pensam em retroceder. Querem apenas dar mais um passo à frente e calibrar as regras do jogo. Caçador de paradoxos, Lipovetsky formula mais um: “Nunca a violência sexual foi menor do que agora. Por isso mesmo todo ato considerado inadequado se tornou insuportável”. Ao dizer que a violência atual é a menor de todos os tempos ele não pretende minimizar o fenômeno, mas destacar que no passado era pior.

A sedução não vai morrer, garante Gilles. Vai mudar. Há homens que ainda não entenderam isso. Certas piadas não fazem mais rir. Posso ver Catherine Deneuve em “Bela da tarde”, o extraordinário filme de Luís Buñuel, que a consagrou, possa vê-la deslumbrante no tapete vermelho de Cannes, possa vê-la, em minhas lembranças, passeando como uma mulher comum no magnífico cenário à frente da igreja Saint-Sulpice. Gosto de saber que ela continua glacial na sua autonomia: diz o que pensa e sustenta. Sem fazer concessões aos oportunistas. No confronto entre Oprah e Deneuve, Oprah levou a melhor. Não precisou se explicar nem se desculpar. Ambas têm razão. Mas as razões da americana não podem ser apropriadas pelos seus inimigos. Perdão, Catherine.

O tempo de dizer certas coisas nem sempre é o tempo da própria justeza.

Deneuve e amigas erraram o momento.

Acertaram na polêmica, que está correndo mundo.
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*  Jornalista. Graduou-se em História (bacharelado e licenciatura) e em Jornalismo pela PUCRS, onde também fez Especialização em Estilos Jornalísticos. Passou pela Faculdade de Direito da UFRGS, onde também chegou a cursar os créditos do mestrado em Antropologia. Obteve o Diploma de Estudos Aprofundados e o Doutorado em Sociologia na Universidade Paris V, Sorbonne, onde também fez pós-doutorado. 
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/01/10541/deneuve-a-bela-de-sempre/
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