sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A ciência no descaminho


José de Souza Martins* 
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 "Sem poesia a vida se torna uma droga, 
perde o sentido que deveria ter. Sem ela não 
se compreende a lágrima nem a dor nem 
a ignorância nem a esperança."

Na primeira noite, eles se aproximam e roubam um livro da biblioteca de cada universidade. E nada dizemos. Na segunda noite, já não se escondem. Dizem abertamente, sem temor nem pudor, que os livros oneram o orçamento, que o conhecimento é supérfluo, que o professor é caro, que as descabidas e escandalosas mordomias dos políticos são intocáveis, vêm antes dos livros e das escolas, que o diploma é irrelevante em face da bravata de palanque, das muitas tolices que políticos desinteressados do saber sabem dizer.

Cortam os recursos para o progresso da ciência, debocham dos cientistas, desdenham o ensino e a pesquisa, e não dizemos nada. Na terceira noite, colhem os jovens do jardim do nosso futuro, matam nossas esperanças, e continuamos a não dizer nada.

Na quarta noite, entram em nossa casa, comem o nosso pão, bebem a nossa água, escarram em nosso chão, põem fogo em nossos livros e picham na parede de nossa vida: "A ignorância é sábia; a ciência é supérflua". E como não fizemos nada, e nada dissemos, nada podemos fazer nem dizer. Desaprendemos a ler e a escrever, perdemos nossa memória, esquecemos da decisiva relevância do conhecimento erudito e da ciência na vida e na construção de uma nação civilizada e moderna..

Na quinta noite, nosso silêncio ensurdecerá a terra, cobrirá o grande sertão, as matas, o cerrado, os campos. Por não termos dito nada até que essa noite de horror, prepotência e ignorância caísse sobre nós, os incultos que mandam em nós, na nossa ciência, em nossa cultura, não encontrarão resistências para fazer o que bem entenderem. Dirão,com  sabedoria de botequim, que é mais barato piratear e copiar conhecimento dos outros do que criar conhecimento original.

Não sabem que mesmo para copiar o que presta é preciso ter a alta competência de também criar, inventar, inovar. Cortar verbas na educação combina com burrice. Estamos condenados a jogar no lixo o saber acumulado que nos legaram nossos antepassados, sábios e generosos.

"Quando governantes ignaros dizem que 
as ciências humanas 
são dispêndio inútil e o dizem com 
a cumplicidade 
de pesquisadores das exatas e biológicas, 
nem percebem que sem elas 
a universidade se torna 
simples escola técnica."

Ficaremos contemplando a parede e a frase, a tolice que nos legam os que raramente passaram no vestibular de uma universidade séria, mas que mandam nos recursos e nos critérios da produção do conhecimento. São aqueles personagens do mundo cinzento do nada que, sem competência nem discernimento, decidem o que deve ser o ensino e a pesquisa, o saber  e a ciência, num país que os professores, pesquisadores e cientistas, desconsiderados e desrespeitados, padecem para levantar do chão.

No sétimo dia, usaremos as últimas páginas de livros e as últimas folhas do caderno vazio, que governantes sedentos de poder e pobres de civilidade esqueceram de destruir, para acender o fogo que aquecerá o que nos resta de vida na fria noite que se aproxima. O desgoverno terá triunfado sobre a democracia, a liberdade, a cidadania, o conhecimento, a ciência, a pesquisa, a arte, a poesia e a vida.

E quando um desses inimigos do saber e da pátria tiver um problema cardíaco e lhe for aberto o peito, num dos nossos hospitais universitários, para salvar-lhe a vida, já não poderemos fazê-lo. Ou se apresentar no hospital porque incapacitado para lembrar quem é, descobrirá que já não temos o conhecimento para salvar o que resta de seu cérebro vazio.

Quando tivermos que construir uma ponte para atravessar o rio que nos separa de nós mesmos, descobrirão que sem a universidade de qualidade, quando muito, nossos engenheiros saberão fazer uma rústica pinguela para o lado do mero ontem, mas não a ponte que nos levará ao futuro que merecemos e nos está sendo roubado. Os que tudo podem descobrirão que nos dias derradeiros estarão sozinhos, apenas cinzas nas estantes do que um dia foram as bibliotecas das universidades, as salas de aula, os laboratórios, a febril produção e distribuição do saber, como é próprio do mundo do conhecimento.

Socorro-me de "No Caminho com Maiakóvski", do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, e o parafraseio para dizer o já dito, mas esquecido por aqueles que mais esquecem do que lembram, que mais ignoram do que sabem, que mais mandam do que servem.

Quando governantes ignaros dizem que as ciências humanas são dispêndio inútil e o dizem com a cumplicidade de pesquisadores das exatas e biológicas, nem percebem que sem elas a universidade se torna simples escola técnica. Nela já não se cria, pois sem as indagações e descobertas das ciências humanas a coisificação da pessoa se consuma; sem a arte e a literatura o ser humano é reduzido a equivalente de porcas e parafusos, de cachaça, de maconha, de cocaína. Sem poesia a vida se torna uma droga, perde o sentido que deveria ter. Sem ela não se compreende a lágrima nem a dor nem a ignorância nem a esperança.
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* José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Uma Sociologia da Vida Cotidiana” (Contexto).
Imagem da Internet

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Margaret Macmillan : Raiva, medo, orgulho.... As emoções que movem a história

Juventudes Hitlerianas em Viena em 1938
Juventudes Hitlerianas em Viena em 1938

Ensaio analisa o papel dos indivíduos nos acontecimentos e dos sentimentos diante de decisões cruciais

É possível que a influência da economia sobre a história, assim como das demais ciências sociais e humanidades, seja o motivo de os historiadores às vezes se incomodarem com o papel que a personalidade e as emoções desempenham sobre os acontecimentos. Sou da opinião de que é preciso prestar atenção a ambos. Se na década de 1930 outra pessoa estivesse à frente da Alemanha que não fosse Hitler, esse homem ou mulher tivesse arriscado tudo em uma guerra contra a França e o Reino Unido, e depois contra a União Soviética e os Estados Unidos? Se o militarismo japonês não estivesse tão obcecado diante da ameaça de os Estados Unidos se tornarem fortes para que se pudesse derrotá-los, o Japão teria ido à guerra em 1941, quando ainda tinha chance de sair vencedor? O medo, o orgulho e a ira são emoções que proporcionam atitudes e decisões, tanto ou talvez mais do que o cálculo racional.

E isso nos leva a perguntas do tipo “E se...”. E se Hitler tivesse morrido em uma trincheira durante a Primeira Guerra Mundial? E se Winston Churchill tivesse sido mortalmente ferido quando um veículo o atropelou na Quinta Avenida nova-iorquina em 1931? Ou se Stálin tivesse morrido durante a operação de apendicite que sofreu em 1921? Podemos realmente analisar a história do século XX sem colocar esse tipo de personagens em algum lugar do relato? Chama a atenção que alguns historiadores, como Ian Kershaw ou Stephen Kotkin, que começaram pesquisando e escrevendo sobre os nazistas e sobre a sociedade soviética, tenham passado a escrever biografias dos dois homens que serviram de eixo para essas sociedades. Os especialistas em ciência política nunca se mostraram muito dispostos a considerar o papel desempenhado pelo indivíduo, mas já começam a aparecer artigos em suas revistas profissionais com títulos como “Elogiemos agora homens famosos: que volte à cena outra vez o estadista”.

Quando tentamos avaliar o impacto dos indivíduos ou dos fatos isolados na história estamos, apesar de não nos darmos conta, pensando em um desenlace alternativo ao que ocorreu. Vamos imaginar outro desfecho possível posterior àquela manhã de verão de junho de 1914 em Sarajevo. O herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Ferdinando, cometeu a besteira de visitar a cidade bósnia. Muitos nacionalistas sérvios, entre eles os que viviam na Bósnia, continuavam ainda indignados porque o império austro-húngaro tinha anexado a Bósnia, arrancando-a do império otomano, apenas seis anos antes. Sua província, acreditavam, pertencia à Sérvia. E em 28 de junho era um dia particularmente complicado para essa visita do arquiduque, uma vez que era a festa nacional sérvia, o dia em que o país comemorava a grande derrota sofrida na batalha de Kosovo. Também não ajudava o fato de que a segurança austríaca estivesse bem descuidada, apesar dos alertas sobre possíveis conspirações de grupos terroristas obscuros. Naquela manhã, vários homens jovens e decididos tinham se postado em toda a cidade, armados com pistolas e bombas, esperando o arquiduque. Um deles até tinha conseguido jogar um explosivo contra o cortejo em sua chegada, mas sem acertar ninguém. A polícia, por sua vez, tinha efetuado batidas atrás de possíveis assassinos, e os demais não tiveram coragem de agir. Só um — Gavrilo Princip — continuava cheio de energia, decidido a fazer algo. Princip primeiro deu voltas pela rua principal, junto ao rio, esperando chegar a oportunidade de cumprir sua missão, e acabou sentando-se para descansar junto a um famoso café da cidade. Suas oportunidades pareciam escassas, até que de repente apareceu o carro aberto do arquiduque: o motorista tinha errado o caminho e foi dar na ruazinha onde Princip tinha se postado. Ele se levantou e disparou à queima-roupa contra o casal imperial enquanto o motorista tentava dar marcha a ré. A morte do arquiduque se transformou na desculpa de que o Governo austríaco precisava para agir contra a Sérvia, submetendo-a ou destruindo-a. E isso, de sua parte, precipitou a decisão alemã de respaldar o império austro-húngaro, enquanto a Rússia fazia o mesmo com a Sérvia. Se aquele assassinato não tivesse sido cometido, teria sido muito pouco provável que a Europa fosse à guerra em 1914. Uma guerra mundial talvez nunca tivesse sido desencadeada. Nunca saberemos, mas podemos imaginar.

Quando tentamos avaliar o impacto dos indivíduos ou dos fatos isolados na história estamos pensando em um desenlace alternativo ao que ocorreu

As coisas que não aconteceram, os contrafactuais, são ferramentas muito úteis para a história porque nos ajudam a entender que uma única decisão ou ação produz consequências. Júlio César enfrentou seu próprio Governo quando decidiu cruzar o rio Rubicão com suas tropas e se dirigir a Roma no ano 49 a.C.. Esse rio delimitava a fronteira entre a província que ele governava e os territórios italianos regidos diretamente por Roma. Esse ato de Júlio César era considerado uma traição e era punível com a morte ou com o exílio. Mas ele triunfou, e isso representou a morte da República de Roma e o nascimento da Roma imperial. Em 1519, Hernán Cortés correu um risco quase inimaginável ao adentrar pelo México. Tinha 600 soldados, 15 cavaleiros e 15 canhões, e com isso iria enfrentar os reinos poderosos e bem armados do país. E se aqueles homens tivessem se unido contra o diminuto bando de invasores, em vez de se deixarem dividir e acabarem conquistados? Poderia ter sido muito possível que o México sobrevivesse como um Estado independente, assim como fez o Japão no período da Restauração Meiji, quando conseguiu se transformar para fazer frente aos estrangeiros. A história da América do Norte teria sido muito diferente caso tivesse existido uma potência indígena forte e independente.

As coisas que não aconteceram, os contrafactuais, são ferramentas muito úteis para entendermos que uma decisão produz consequências

Os contrafactuais servem para que tenhamos em mente que na história as contingências e os acidentes pesam. Mas, dito isso, também é preciso manejá-los com precaução. Se mudamos coisas demais do passado, as versões alternativas da história se tornam cada vez mais implausíveis. Tampouco podemos esperar que ocorresse o impensável, ou sequer o improvável. Com a história não podemos fazer aquilo ao que recorriam os antigos dramaturgos gregos para resolver as situações impossíveis: introduzir o deus ex machina. Nem podemos contar com que os personagens do passado pensem ou reajam de uma forma que não corresponde com seu caráter nem sua época. Por exemplo, querer que a rainha Elizabeth I da Inglaterra tivesse se comportado como uma feminista do século XXI. E quando tentamos entender por quê os personagens históricos fizeram o que fizeram, temos o dever de avaliar sempre que opções plausíveis, e próprias deles, tinham diante de si.

Trecho do ensaio "History's People", de Margaret MacMillan
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Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/17/cultura/1508254889_178844.html

Imma Puig: A mulher que lida com os egos do Barça: “Só os egoístas sobrevivem”

Imma Puig em seu escritório.
Imma Puig em seu escritório.

Há 15 anos Imma Puig trabalha no clube catalão para prevenir eventuais tormentas entre os funcionário

Imma Puig se dedica a cuidar das pessoas. Por dentro. Formada em Psicologia Clínica pela Universidade de Barcelona, professora no departamento de recursos humanos do IESE, estudiosa de Freud e Jung e seguidora dos métodos do psicanalista húngaro Michael Balint, essa barcelonesa de 64 anos, amável e enérgica como uma faísca, é especialista em gestão de emoções e conflitos na empresa familiar. É autora do livro de referência Retratos de familia. Lo que quiso saber y no se atrevió a preguntar sobre la empresa familiar (Retratos de Família. O que você queria saber e não se atreveu a perguntar sobre a empresa familiar, em tradução livre).

A liderança, o comportamento e a excelência no rendimento empresarial não têm segredos para ela. Também as invejas, os ciúmes e os assédios que costumam pairar sobre toda dinâmica de grupo. Por isso foi contratada pelo F.C. Barcelona há 15 anos: desde então, medeia no clube entre os Iniesta, os Messi e os Suárez, os técnicos e os diretores (é também especialista em psicologia esportiva). Também foi contratada pelos irmãos Roca há quatro: para prevenir eventuais tormentas e resolver brigas e descontentamentos entre cozinheiros, garçons, sommeliers e maîtres. Um dia por semana vai ao restaurante de Girona e se reúne em grupos com os funcionários do El Celler. Nessa conversa não contará histórias pessoais de uns e outros: uma cláusula de confidencialidade a impede de falar com nomes e sobrenomes.

Puig, que também trabalhou a psicologia de tenistas, gerentes, vendedores e diretores comerciais, passou boa parte da vida percorrendo meio mundo dando conferências sobre um tema excitante: as coisas que nos acontecem sem que suspeitemos.
 
P. Qual é o ponto de partida para poder prevenir e solucionar conflitos na gestão de equipes?
R. Para poder ver a quantidade de coisas que acontecem nas relações é preciso entender as pessoas. E para isso, como para subir em uma montanha, existem dois caminhos: um é mais longo e fácil, o outro é mais curto e difícil.

P. Como é o curto e como é o longo? Pode explicar?
R. O curto é colocar-se no lugar da outra pessoa. Isso é difícil, mas é possível com treino. O outro, o longo, está ao alcance de todos. Consiste em seguir a anatomia. Temos dois ouvidos e uma boca, de modo que, se queremos entender o outro, precisamos escutar o dobro do que falamos. E com um ouvido precisamos escutar o que nos dizem e com o outro o que não nos dizem..., que às vezes é mais importante.

"Se queremos entender o outro, precisamos escutar o dobro do que falamos. E com um ouvido precisamos escutar o que nos dizem e com o outro o que não nos dizem”

P. Hoje em dia escutar não parece estar muito na moda...
R. Não nos ensinaram a escutar. Nas escolas existem cursos de como falar em público, mas não de como escutar. Existem conversas em que só esperamos que o outro acabe para soltar o que já tínhamos preparado. Isso estabelece uma conversa sem sentido que faz com que as pessoas não se entendam.

P. E é aí que a senhora entra.
R. Meu trabalho consiste em encontrar um espaço, um tempo e um interlocutor neutro para poder falar e escutar todas aquelas coisas para as quais no dia a dia não há espaço, tempo e interlocutor. Eu utilizo o método Balint, que serve para entender o outro porque não há pressa, porque ninguém julga. Julgar causa um dano terrível. Estamos julgando todo mundo o tempo todo, sem provas. E emitimos sentenças, o que já acaba com toda a possibilidade de se continuar tentando entender essa pessoa.

P. Se entendi bem, em sua terapia com jogadores, cozinheiros e empresários a senhora se dedica a criar uma bolha, uma situação irreal de comunicação.
R. Um pouco. São situações em que todos são iguais, não há hierarquias, a única hierarquia sou eu, que sou a facilitadora. E se aprende a não julgar. E a tentar interpretar os silêncios e o que não é dito.

P. O que não é dito. Frequentemente, muito mais importante do que o que se diz, não?
R. Em uma equipe de trabalho, o pior é o não dito, isso é muito complicado de se gerir. Tudo o que é dito, por mais duro que seja, é possível de se gerir.

P. Diríamos que acontece o mesmo nas rupturas amorosas.
R. Exatamente. “Eu pensei, já vi que, não gostei daquilo... Eu já sabia que você...”. E por que não me falou? O pior presente que pode dar à pessoa com quem você se relaciona é não dizer como se sente e não escutar como como ela se sente. É a base. Mas vivemos em uma sociedade em que mostrar seus sentimentos equivale a ser vulnerável. E não é verdade, é ser mais forte.
A mulher que lida com os egos do Barça: “Só os egoístas sobrevivem” 
P. Talvez exista muita gente que “sempre está muito bem”, não?
R. Claro. E também acontece que essa imagem que queremos transmitir de que precisamos estar sempre ótimos nos é um pouco empurrada pela sociedade em que vivemos. Não podemos estar sempre contentes, bonitos, sem problemas de saúde e com dinheiro. Isso são vicissitudes e não costumam acontecer todas ao mesmo tempo. Existem pacientes que vêm e me dizem: “Ai, está tudo bem comigo, mas estou triste!”. Eu lhes digo: “Estar triste faz parte da vida”. Tenho clientes que estão na crista da onda, que são os maiorais..., mas sentem as mesmas coisas que os que não estão tão bem. Estão tristes, sentem-se sozinhos... Os sentimentos não entendem de dinheiro.

P. Bom, o dinheiro ajuda…
R. O ser humano, se tem atendidas as necessidades básicas, prefere sentir-se querido do que pago.

P. Existem dúvidas sobre isso.
R. Alguém, em uma empresa, recebe a informação de que receberá mais. Mas na verdade o que ela quer é sentir-se mais valorizada, mais bem cuidada, que o seu chefe lhe pergunte por seu filho se sabe que precisou ir ao hospital...

P. Mas como estou te pagando mais do que os outros...
R. Não pense em pedir que gostem de você. Isso acontece muito no mundo do esporte de elite. E muita gente diz coisas como “com o que recebem, deveriam correr por todo o campo sem parar”. E isso é inveja.

P. Grande esporte nacional…, grande esporte humano, isso sim.
R. A inveja e o ciúme são males endêmicos dessas sociedades. E levam, às vezes imperceptivelmente, ao mau trato psicológico. Que ocorre entre iguais, entre superior e inferior e às vezes até de inferior a superior.

P. Seu trabalho de resolução de conflitos com clientes poderosos e ricos não deve ser fácil, se trata de certa forma de mergulhar em sua lama. Eles deixam? [Risos]
R. Outro dia, um executivo muito importante me disse: “Seu trabalho é quase impossível”. “Por que?”, lhe perguntei. “Porque a senhora recebe para dizer o que as pessoas não querem nem pensar”. É uma boa definição.

“Outro dia, alguém me disse: ‘Seu trabalho é quase impossível’. ‘Por que?’, lhe perguntei. ‘Porque a senhora recebe 
para dizer o que as pessoas não 
querem nem pensar”

P. Porque as pessoas não gostam de escutar, mas, isso sim, há muito que pagam a profissionais para que as escutem.
R. Sim senhor. Como as pessoas se sentem bem quando vão a um lugar em que as escutam e não são repreendidas! Às vezes achamos que estamos bravos com alguém, quando na realidade estamos bravos com nós mesmos porque não estamos entendendo o outro. Somos tão orgulhosos que, quando não entendemos alguém, damos de ombros e dizemos: “Essa pessoa está louca”. E não nos damos conta de que, seja qual for nossa profissão, quanto melhor entendermos o outro, melhor faremos nosso trabalho.

P. Em suas palestras a astros do futebol, a grandes empresários, aos maîtres de um grande restaurante… que valor você dá aos detalhes, ao trivial?
R. No trivial existem muitas chaves, porque a verdade gosta de ficar escondida. As coisas não são como parecem. Por exemplo, a primeira coisa que penso quando vejo alguém que tenta parecer superseguro é qual insegurança está tentando esconder. Tem gente que parece um ogro e é um doce de pessoa. Por que se disfarçam de ogros? Para que ninguém veja que são um doce e se aproveitem deles. Para perceber essas coisas é preciso estar muito atento. Passamos o dia emitindo sinais de como somos, de como queremos que nos tratem, que nos cuidem, que nos amem, que nos valorizem…., mas para detectá-los é preciso estar na mesma onda que essa pessoa. E uma coisa crucial é o olhar.

P. O olhar?
R. Se te olham com olhos de que confiam em você, de que você vale muito, de que você consegue..., você, em agradecimento, dá o melhor de si. Mas quando alguém te olha como se você fosse um inútil, faça o que fizer, você começa a fazer cada vez menos e pior.

P. Você está tocando num tema crítico em nível educativo: o de muitos alunos que ficam para trás porque não recebem a devida atenção.
R. Porque muitos responsáveis por colégios só estão preocupados com a sua reputação. Em poder dizer: “Aqui vem só a elite”. E no mundo do esporte profissional, no qual trabalho há 35 anos, é ainda pior.

P. Algum exemplo?
R. Lembro que o técnico de um dos melhores times de futebol do mundo me contou isto com uma tremenda dor de coração: lhe pediram para promover dois garotos do segundo para o primeiro time. Escolheu dois, os dois eram ótimos. De repente, o clube contratou um jogador, e então lhe disseram que precisava abrir mão de um dos dois. Eram quase iguais. Ficou com um que hoje é um astro. O outro deixou o futebol no ano seguinte. Esse treinador me disse: “Nunca vou poder me perdoar por isso, caguei a vida ele”.

P. E em outros esportes?
R. Trabalhei muito tempo com o treinador que formou os melhores tenistas espanhóis. Um dia me sentei com ele num treino e perguntei: “Quem destes você acha que se destacará?”. Ele me confessou [quem era o melhor], e acertou. “Eu nunca me engano”, me disse ele. E eu lhe respondi: “Quem nunca se engana são eles. Se você bate o olho em um, lhe dá confiança e o estimula a continuar, é lógico que seja o melhor. Você faz isso com alguns, sim. Mas os outros você destrói”. Ele me respondeu que nunca tinha analisado assim e que eu havia acabado de deixá-lo muito mal.

P. Esse mau trato, de fato, pode acabar sendo paralisante.
R. Mas o sucesso não paralisa também? Sim, pode ser anestesiante, e ainda mais em esportistas de elite. Somos preparados para o sucesso, não para o fracasso. Todo mundo persegue o sucesso, mas ninguém sabe o quanto ele pode fazer mal à pessoa. Carl Jung dizia: “Quando alguém vem me contar um êxito, sempre digo que espero que isso não tenha lhe prejudicado muito”. Às vezes é mais difícil recuperar-se de um êxito do que de um fracasso. “E se eu tentar repetir e não conseguir?” Isso paralisa.
A mulher que lida com os egos do Barça: “Só os egoístas sobrevivem” 
P. Não deve ser fácil ser um astro do futebol 24 horas por dia, 365 dias ao ano, com todo mundo sempre adulando.
R. Isso de que estão adulando os astros do futebol é uma visão parcial. Eles também têm que conviver com a inveja de todo o mundo nas costas. Convivem com a admiração de muitos, claro, mas às vezes a admiração é uma inveja encoberta e pode se transformar em ódio. Viver na vitrine tem isto.

P. Mas que assuntos específicos você trata, por exemplo, com um jogador do Barça numa sessão?
R. Trabalho exatamente igual num time como o Barça, num restaurante como o El Celler ou numa empresa familiar. É que, afinal, todos passamos pelas mesmas coisas; basicamente, as pessoas são iguais. Aplico minha terapia sobretudo nas equipes técnicas, porque, se a equipe não for bem, não vão demitir os jogadores nem a diretoria, irão em cima do treinador...

P. É fácil pensar que, para um time da elite ou um três-estrelas Michelin, sai barato investir para manter o seu pessoal contente. Fazem isso?
R. Não muito, embora cada vez mais. Cuidar é um investimento, não é um gasto. E é prevenir. É o que o El Celler faz, por exemplo: prevenção para evitar que coisas ruins aconteçam. Mas muitos empresários continuam achando uma perda de tempo entender como estão seus empregados.

P. Supõe-se que seus clientes não cuidam das suas equipes por altruísmo, e sim para tentarem ser eficazes. Nem que seja só por egoísmo.
R. Claro, e não sei por que o egoísmo é tão mal falado. Só os egoístas sobrevivem.

P. O que opina desses chefes que apostam na estratégia da tensão, que acham bom que seus subordinados se deem muito mal entre si?
R. É um modelo de gestão velho, que precisa ser jogado fora. Essa estratégia só serve em momentos pontuais e para metas concretas, mas a competição feroz prolongada no tempo termina com a aniquilação de todo mundo.

P. Como são administrados os egos individuais dentro de um coletivo?
R. Deveriam ensinar a todos desde pequenos a administrarmos equipes e a nos comportarmos dentro delas, porque passamos a vida toda em equipe. Nascemos numa família, que é uma equipe. Vamos à escola, em que a classe é uma equipe. Vivemos com os vizinhos do prédio, que são uma equipe. Fazemos parte de um grupo de amigos, que é outra equipe. Ou jogamos futebol numa equipe. Trabalhamos numa empresa tal, que é uma equipe.

P. Administrar os filhos é gestão de equipes?
R. É que no caso dos filhos entra outro fator: não se ama igualmente a todos, embora seja muito chato para nós reconhecermos isso. Não queremos reconhecer e dizemos que todos os filhos são iguais, mas não é verdade. Isso é muito fácil de ver nas famílias dos outros, mas na nossa própria custa muito. É algo que não se diz, porque o dano que pode causar é grande. A ofensa comparativa é o cupim das relações, porque sempre estamos medindo o quanto nos amam. Somos viciados em reconhecimento. E tem pessoas que acham que, como alguma vez as amaram por terem feito algo extraordinário, só vão continuar sendo amadas se passarem a vida perseguindo o extraordinário, um grave erro.
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Reportagem por  Borja Hermoso

Benjamin Moser: “O culto brasileiro a Clarice Lispector embaça sua vida”

Día de las escritoras

Escritor americano defende o gênero da biografia literária como uma simples interpretação

Uma transa de uma noite que acaba se tornando o amor da sua vida. Assim explica Benjamin Moser (Texas, 1976) seu idílio com a escritora Clarice Lispector. A grande e enigmática dama da literatura brasileira do século XX cruzou seu caminho por acasos acadêmicos: Moser se inscreveu no curso de chinês na universidade, mas como essa língua lhe pareceu impossível de aprender, ele trocou a disciplina por outra no mesmo horário e acabou sendo língua portuguesa. Nesse curso ele leu o romance A Hora da Estrela, de Lispector, e sentiu uma “estranha conexão”.

Mais de uma década depois, sua biografia da autora brasileira de origem ucraniana, de quase 500 páginas, atesta a força daquela paixão. Intitulada Clarice, uma Biografia (Companhia das Letras), foi traduzida em meia dúzia de idiomas. A escritora, nascida em 1922 em uma aldeia ucraniana no seio de uma família judaica e morta em 1977, no Rio de Janeiro, experimenta um novo renascimento graças a Moser, que não duvida em qualificá-la como a melhor escritora judia depois de Kafka e dirigiu a publicação das novas antologias de suas histórias nos EUA.

Há algumas semanas, em Madri, Moser falou sobre todos os lugares e pessoas que conheceu graças a Lispector. Mas há mais, porque, como quase sempre acontece, essa história de amor deu lugar à seguinte. Hoje, esse crítico literário radicado na Holanda e colaborador, entre outras publicações, da The New York Review of Books e da Harper’s consolida sua carreira de biógrafo respeitado com um novo livro que está finalizando, dedicado a outra escritora brilhante: Susan Sontag. “Quando estou muito ocupado com uma das duas, sinto que a outra fica zangada e me solicita. Isso é como ter duas mulheres, é como uma estranha necrofilia”, explica. “Mas não é. Simplesmente você tem a vida de alguém em suas mãos”.

Pergunta. O que liga sua escolha de escrever sobre Clarice Lispector e Susan Sontag?
Resposta. Quando comecei com Lispector as pessoas pensavam que eu estava louco, mas achava que todos iriam ficar fascinados com ela. Era praticamente desconhecida nos EUA. Com Sontag isso não acontece, mas, como acontece com todos os autores famosos, a ideia geral que se tem dela é muito estereotipada. A verdade é que leva muito tempo para conhecer alguém. Em ambos os casos, pensei que era importante deixar que fossem “estranhas”, respeitar sua perspectiva do mundo. Não são autoras fáceis porque exigem muito de seus leitores.

P. Muita teoria foi escrita sobre o que está por trás do trabalho de um biógrafo, como ele às vezes acaba escrevendo sobre si mesmo por uma pessoa interposta ou saldando alguma dívida. Qual foi o seu ponto de partida?
R. Eu me aproximei do gênero da biografia literária como um ato de amor, alheio às teorias. Queria conhecer melhor Lispector, como quando nos apaixonamos e queremos saber qual é a música favorita do outro ou por que odeia seu irmão. Comecei a escrever pensando que o meu livro seria uma chave e que as pessoas acabariam querendo ler mais coisas dela.

P. Uma das objeções mais comuns a esse gênero é que a obra de um autor fala por si mesma.
R. Quando você olha a vida dos artistas, entende que o trabalho é resultado de suas experiências. Mas o culto à figura de Lispector no Brasil ofuscava isso, seu mistério foi prejudicial, tinha fama de louca. A verdade é que você quer saber mais porque ela é muito magnética e sua figura inspira muita gente. Em 15 anos ela passou de refugiada, como milhões de sírios hoje, para se tornar em uma lendária dama do Rio.

P. No caso de Susan Sontag, além de seus ensaios, seus diários recentemente publicados mostram seu lado mais privado. O que falta ser mostrado?
R. Quando você se torna uma figura icônica como ela é, sua obra morre. Sontag escreveu crítica, teatro, contos, romances que são pouco conhecidos ou lidos hoje. Sua biografia, como no caso de Lispector, aborda uma leitura crítica de suas obras, o desafio intelectual que coloca.

P. Os desafios que uma e outra apresentam aos leitores estão relacionados?
R. São dois titãs que se aproximam do grande tema da metáfora. Sontag, por exemplo, escreve sobre a doença como metáfora – curiosamente, no ano em que Lispector morre – e rastreia incessantemente o uso social das metáforas. A brasileira sempre busca a verdade última que está escondida nas palavras. Remexer as palavras é uma tradição muito judaica.

P. A ausência de um rastro de papel, com a chegada dos computadores e da Internet, tornará impossível fazer biografias de escritores no futuro?
R. Eu deixei de imprimir meus textos e minhas cartas. Pensamos que a Internet é eterna e não é. No futuro, não haverá correspondência. Isso é assustador. Mas esse gênero não desaparecerá. Como disse Sontag, não há uma fotografia definitiva, nem uma biografia definitiva. As biografias são como a interpretação de uma peça musical. As pessoas confiam muito no retrato, mas é apenas uma maneira de contar, é a minha forma, minha história, e não a própria pessoa.

P. É preciso colocar limites sobre o que se conta sobre a vida de outra pessoa?
R. Quando você faz uma biografia, coloca seus dedos sujos no dinheiro, no sexo, na família e no trabalho artístico de outra pessoa. Mas o maior erro seria deixar tudo isso de fora porque esses são os vínculos que nos conectam, que nos tornam humanos. Se você quer que o relato de suas vidas tenha algum significado, não pode ignorar isso.

P. Aí surge a polêmica?
R. As pessoas reagem às biografias com muita veemência, mas, curiosamente, coisas que alguém poderia pensar que são ofensivas passam despercebidas, enquanto outros detalhes que parecem supérfluos acabam ferindo.

P. Como medir a distância?
R. Eu quero protegê-las, mas às vezes você não pode. Elas estão mortas. Você tenta tratá-las com gentileza, mas isso pode ser difícil porque você também quer ser sincero.
Quando você faz uma biografia, coloca seus dedos sujos no dinheiro, no sexo, na família e no trabalho de outro. Mas você não pode deixar isso de fora

P. Você sente um dilema parecido como crítico?
R. Como crítico, rejeito a crueldade. Se você pensa sobre o que um romancista tentou fazer, mesmo que não goste, você está sendo respeitoso. Mas isso parece ter sido perdido. Acho que o papel da crítica deve ser encorajar a ler, a pensar, a descobrir. A cultura te enriquece ou te deixa frio, mas não há necessidade de humilhar o criador.

P. Quais lições tirou de suas pesquisas sobre Sontag e Lispector?
R. É interessante ver como as pessoas superam seus fracassos. Depois de um livro de sucesso às vezes vem outro que falha e depois outro que vai bem. Como escritor, é interessante ser espectador da carreira dos outros. São trajetórias longas e acidentadas. Há períodos de fama e dinheiro, e outros sem nada disso.

P. Os adiantamentos milionários que os autores estreantes recebem nos EUA acabam com isso?
R. A verdade é que a maioria dos escritores é tradicionalmente de profissionais de classe média. Hoje parece que há menos tempo e dedicação, é difícil pensar em construir uma trajetória literária de 50 anos.

P. Seus temas foram duas escritoras. O que define a relação das mulheres com a literatura?
R. É um assunto fascinante porque as escritoras não existiam praticamente até o século XX. Elas sofrem censura de ter filhos e não ter tempo. Escrevem dois romances e ninguém dá bola para o terceiro. Tornei-me especialista em ler resenhas de livros de mulheres e você vê a condescendência crua com a qual são julgadas. É incrível ver como elas encontraram força para continuar. Lispector começou com 15 e continuou até o fim. No caso de Sontag, é impressionante ver quantas mulheres talentosas começaram com ela e acabaram caladas.

P. O que você tirou de suas histórias sobre Sontag e Lispector?
R. Gostei de fazer o livro de Lispector por ser ingênuo. Com o de Sontag me senti mais ligado a uma história já estabelecida. Mas ela é uma figura tão complexa que te permite refletir sobre a criação artística, o ativismo político, a ciência ou a guerra. Eu gosto da relação matrimonial que tenho com eles: amá-las, odiá-las, alegrar-me com seus êxitos, ter vergonha. Nada que é delas me é alheio.
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Reportagem por  Andrea Aguilar

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Arte da tolerância

Frei Betto*

Resultado de imagem para tolerancia

To­le­rância não sig­ni­fica aceitar pas­si­va­mente vi­o­lência, ho­mo­fobia e ra­cismo. Frente a tais ati­tudes temos o dever ético de ser in­to­le­rantes. A to­le­rância se situa na es­fera das ideias e opi­niões.
     
Na de­mo­cracia, cada um tem o di­reito de ter as suas pró­prias con­vic­ções, ainda que se con­tra­po­nham às mi­nhas. Não devo por isso ofendê-lo, des­me­recê-lo, hu­milhá-lo. Mas devo tentar im­pedi-lo de ir além de suas con­vic­ções pre­da­tó­rias à vi­o­lação da dig­ni­dade por ati­tudes como o ra­cismo.
     
A to­le­rância é filha da de­mo­cracia. Na so­ci­e­dade au­to­crá­tica pre­do­mina a versão do poder e é crime se con­trapor ou dis­cordar dela.
     
A mo­der­ni­dade se funda na di­ver­si­dade. Con­tudo, o co­ração hu­mano não tem idade. Em todos os lu­gares e épocas ele com­porta o so­li­dário, o al­truísta, o ge­ne­roso, e também o di­tador, o fun­da­men­ta­lista, o fa­ná­tico que se julga dono da ver­dade.
     
Na me­di­cina, in­to­le­rância é de quem sofre de alergia a ca­marão ou ger­gelim e con­si­dera in­su­por­tá­veis tais ali­mentos. O que não se pode é trans­ferir esse tipo de re­ação às ideias con­trá­rias às mi­nhas. Ainda que me es­can­da­lizem, não devo com­batê-las com as armas de ódio e vi­o­lência. Devo re­correr à razão, ao bom senso, me em­pe­nhando para que o marco legal da so­ci­e­dade im­peça que os in­to­le­rantes passem das ideias aos fatos, como con­si­derar a ho­mos­se­xu­a­li­dade uma do­ença e pres­crever a “cura gay”.
     
Dizia Gandhi que “to­lerar não sig­ni­fica aceitar o que se to­lera”. To­lerar vem do latim “tol­lere”, e sig­ni­fica car­regar, su­portar. “To­le­rantia”, na cul­tura ro­mana, equi­valia à re­sis­tência, qua­li­dade de quem su­porta dig­na­mente di­fi­cul­dades e pres­sões.
     
To­lerar não im­plica con­ceder a outro um di­reito. Di­reito não se to­lera; pra­tica-se com plena li­ber­dade. Em 1789, quando os de­pu­tados fran­ceses de­ba­tiam na As­sem­bleia Cons­ti­tuinte o ar­tigo 10 da De­cla­ração dos Di­reitos do Homem e do Ci­dadão, que se re­fere à li­ber­dade re­li­giosa, a mai­oria ca­tó­lica propôs que aos pro­tes­tantes fosse to­le­rado terem seus pró­prios tem­plos e pra­ti­carem o seu culto.
     
Saint-Éti­enne, de­pu­tado pro­tes­tante, dis­cordou. Disse que to­le­rância era “uma pa­lavra in­justa, que nos re­pre­senta apenas como ci­da­dãos dignos de pi­e­dade, como cul­pados que são per­do­ados”. E exigiu li­ber­dade de culto.
     
Uma li­ber­dade não tem o di­reito de pre­tender coibir a outra. Na Ale­manha, os na­zistas têm o di­reito de se or­ga­nizar em par­tido po­lí­tico e ocupar ca­deiras no Con­gresso. Mas não de querer res­tringir os di­reitos de ju­deus e imi­grantes.
     
O exer­cício dos di­reitos não de­pende apenas da letra da lei. Todos temos li­ber­dade de ex­pressão, mas em uma so­ci­e­dade eco­no­mi­ca­mente de­si­gual aqueles que pos­suem mais re­cursos têm mais con­di­ções de se ex­pressar do que a po­pu­lação ca­rente. Por­tanto, só há plena li­ber­dade quando há também equi­dade.
     
Não existem re­li­giões fa­ná­ticas ou in­to­le­rantes. Há, sim, in­di­ví­duos e grupos que en­carnam tais ati­tudes.
     
O so­fri­mento pode nos tornar to­le­rantes ou in­to­le­rantes. No sé­culo III a.C., o im­pe­rador Ashoka go­ver­nava o que é hoje Índia, Pa­quistão e grande parte do Afe­ga­nistão. Cruel, as­sas­si­nava seus ri­vais. Conta-se que, após uma ba­talha, viu o rio en­char­cado de sangue e de­cidiu não mais pro­vocar tanto so­fri­mento e morte.

Ashoka de­dicou-se, então, a pro­mover a paz entre re­li­giões e pes­soas com di­fe­rentes opi­niões. Em co­lunas de pedra deixou gra­vados seus con­se­lhos, como “aquele que de­fende a sua pró­pria re­li­gião e, de­vido a um zelo ex­ces­sivo, con­dena as ou­tras pen­sando ‘tenho o di­reito de glo­ri­ficar a minha pró­pria re­li­gião’, apenas pre­ju­dica a sua, pois deve es­cutar e res­peitar as dou­trinas pro­fes­sadas pelos ou­tros.”
     
Exemplo de to­le­rância é Jesus. Aco­lheu o cen­tu­rião ro­mano, adepto da re­li­gião pagã (Ma­teus 8, 5-13), e a mu­lher fe­nícia, que cul­tuava deuses re­pu­di­ados pelos ju­deus (Ma­teus 15, 22-25). Não disse uma pa­lavra mo­ra­lista à sa­ma­ri­tana que ti­vera cinco ma­ridos e vivia com o sexto (João 4, 7-26). Im­pediu que os fa­ri­seus ape­dre­jassem a mu­lher adúl­tera (João 8, 1-11). Per­mitiu que a mu­lher pe­ca­dora lhe per­fu­masse os pés e os en­xu­gasse com os ca­belos (Lucas 7, 36-50). Di­ante do teó­logo judeu, acen­tuou o gesto so­li­dário do sa­ma­ri­tano como exemplo do que Deus es­pera de nós (Lucas 10, 25-36).
     
O sábio to­lera; o ar­ro­gante julga; o in­justo con­dena.
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* Frade dominicano. Escritor. Jornalista.
Fonte:  http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12891-arte-da-tolerancia

A morte do outro não importa

Elaine Tavares*


Tragédia na Somália: uma a mais no doloroso processo de libertação

"A tarefa é essa, entender que o não-ser é real, que o opressor é real, que o sistema que nos aniquila é real e sobre isso temos de atuar. Acolhendo o diferente, o caído, o real, e encontrando caminhos para mudar esse modo de organizar a vida, que transforma humanos em coisas para o enriquecimento de uns poucos. Entender que vivemos uma guerra de classes e que a primeira batalha a 
vencer é justamente a filosófica, 
embora ela pareça a mais distante."
O mundo ocidental se move por uma premissa que vem da cultura grega: o ser é, o não-ser não é. E o que significa essa frase tão enigmática? Que só é reconhecido como ser aquele que é igual. O outro, esse não existe. Não-é. Não tem importância. Sendo assim o que é para o mundo ocidental europeu/estadunidense? Aquele que é igual a eles: branco, rico, capitalista, guardião da ordem e da moral. Tudo o que sai desse script não-é. E, não sendo pode ser destruído sem dó. Sobre a morte desse outro que não-é, não se fala, porque não importa.

É por isso que o massacre perpetrado pelos Estados Unidos nos países do Oriente Médio não tem a menor importância para o mundo ocidental. Todos os dias, os “mariners e seals” matam 20, 30, 40 iraquianos na sua já eterna campanha contra o “mal”. E as pessoas seguem vivendo sem se importar. O picoteamento do continente africano em inúmeros países, criados pelos interesses dos povos europeus, sem que fossem levadas em consideração as histórias e tradições dos povos do lugar é outro exemplo. Todos os dias morrem milhares por conta da ocupação colonial e sua herança. Poucos se importam.

Nessa semana, na capital da Somália, Mogadíscio, dois caminhões bomba explodiram causando um massacre, matando cerca de 300 pessoas e ferindo outras tantas. Foi o pior ataque nos últimos anos, em um país que foi completamente destruído por conta dos interesses dos Estados Unidos. Guerras internas, fomentadas na disputa socialismo  x capitalismo destruíram o país no início dos anos 1990, depois de um golpe contra o presidente Siad Barré, alinhado ao socialismo. Desde então, grupos locais se revezam no poder.

E como sempre acontece, por conta dos conflitos internos, e sendo a região estratégica para a navegação, com grandes reservas de minério de ferro, estanho, gipsita (gesso natural), bauxita, urânio, cobre e sal, além da suspeita da existência de reservas de petróleo e gás, o governo dos Estados Unidos decidiu ir para lá, “promover a paz” com seus soldados. Desde então vem promovendo ações para garantir o controle da área. De certa forma, como nos países do Oriente Médio, acaba por incentivar cada vez mais o aparecimento de grupos radicais. Agora, no último mês de março, o presidente Trump autorizou a intensificação dos ataques aos grupos em luta, que eles chamam de “terroristas”, e foi isso que acabou provocando o ataque.

Mas, a Somália é um lugar onde vivem não-seres, gente pobre, negra, muçulmana, que, por um azar do destino, nasceu num ponto estratégico para os “donos do mundo”.  Fica numa região chamada de “corno da África”, ponto mais oriental do continente africano. Então, a morte de centenas e centenas de somalis aparece como apenas uma estatística, exatamente como a dos iraquianos, os afegãos, os paquistaneses, etc...

Então, não adianta clamar nas redes sociais para que coloquem a bandeira da Somália no facebook. Isso não muda em nada o drama que se desenrola naquele despedaçado país. O melhor a se fazer é tentar sair da armadilha filosófica que acaba dominando a realidade na qual o que não é igual é passível de destruição, sem que se sinta remorso ou empatia. E isso é uma pedagogia que está na tele da TV todos os dias, em programas como A Fazenda, Big Brother, e outros afins. Lá, as pessoas que não se encaixam no perfil do público são “eliminadas”, em rede nacional, no grande coliseu eletrônico. E é assim que todos vão aprendendo a eliminar os não-seres, consolidando essa  forma de pensar.

Enrique Dussel, filósofo argentino, construiu outro modelo de pensamento que ele chama de filosofia da libertação. Nele, o pressuposto grego muda radicalmente. Se para o mundo ocidental/burguês o ser é, e o não-ser não-é, para a proposta de libertação, o ser é e o não ser é real. Isso muda tudo. Aquele que é diferente existe, tem nome e sobrenome, precisa da nossa empatia. E é essa atitude que permite que possamos sentir na pele, como dizia el Che, a dor do outro, caído e oprimido. Só assim poderemos caminhar para um mundo de bem viver.

Há um episódio, da famosa série televisiva Black Mirror, que mostra a lógica grega/ocidental na sua forma mais terrível. Nele, soldados estadunidenses aparecem sendo treinados, com manipulação psicológica e física, para ver os inimigos como baratas. Eles então são mandados à guerra e matam sem dó nem piedade tudo o que encontram pela frente. Eles não enxergam pessoas, enxergam baratas gigantes, monstros. Por isso não se apiedam. Essa lavagem cerebral é a que vivemos todos nós. Ao ver um negro, um árabe, um pobre, um gay, um travesti ou qualquer outro ser que não-seja igual ao que temos por “normal”, o que vemos são baratas gigantes, que podem ser amassadas sem que vertamos uma lágrima.

Pessoas há que estão fora da bolha. Que conseguem ver os homens, as mulheres, as crianças, de olhos graúdos e sorriso largo, querendo viver. Esses se importam. Mas, ainda assim, não basta clamar no facebook. É necessário o trabalho político sistemático e organizado para mudar a filosofia e ordem das coisas. Ação concreta na vida, bem aqui, na vida cotidiana, no sindicato, no partido político, no movimento social. Porque se mudamos a forma de pensar e fazemos esse pensamento avançar, a vida dos iraquianos, afegãos, palestinos e somalis também pode mudar.

A tarefa é essa, entender que o não-ser é real, que o opressor é real, que o sistema que nos aniquila é real e sobre isso temos de atuar. Acolhendo o diferente, o caído, o real, e encontrando caminhos para mudar esse modo de organizar a vida, que transforma humanos em coisas para o enriquecimento de uns poucos. Entender que vivemos uma guerra de classes e que a primeira batalha a vencer é justamente a filosófica, embora ela pareça a mais distante.

Seguiremos denunciando as atrocidades cometidas pelo mundo afora pelos “senhores da guerra”, liderados pelos Estados Unidos ou fomentados por eles. Mas, só denunciar não é suficiente, visto que para um grande número de pessoas, “essa gente longínqua” não interessa para nada. E a melhor maneira de ver o outro, diferente, é provocar o conhecimento sobre ele. Os negros somalis que alucinadamente atacam navios no chifre da África, como nos aparecem nos filmes de roliúde (pura ideologia), estão vivendo a fome, a guerra, a miséria, desde os anos 90. Estão fazendo o que podem para sobreviver, enfrentando o maior exército do mundo. Não são loucos, não são baratas e se estão “terroristas” há que se perguntar: por quê?

Entender o mundo, entender as relações sociais, colocar-se no lugar do outro e lutar efetivamente contra o sistema que oprime e destrói. Esse é o caminho para a mudança. 
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* Jornalista
Fonte:  http://eteia.blogspot.com.br/2017/10/a-morte-do-outro-nao-importa.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+blogspot/LceKx+(Elaine+Tavares+-+Palavras+Insurgentes)

Anne Bert. Último desabafo da escritora que viajou à Bélgica para morrer

A escritora francesa Anne Bert 
A escritora francesa Anne Bert AFP
A Francesa Anne Bert virou sucesso editorial com livro publicado dois dias após submeter-se a eutanásia

Na semana passada a escritora francesa Anne Bert cruzou a fronteira de seu país com a Bélgica, entrou pela porta de um hospital e deu o consentimento final ao médico que há meses supervisionava seu pedido de eutanásia. Era o fim de uma longa batalha: a tentativa fracassada da autora em convencer as autoridades francesas da necessidade de acabar com o sofrimento de doentes incuráveis legalizando a ajuda médica para morrer, proibida na França, mas permitida desde 2002 na vizinha Bélgica. Dois dias depois de sua morte em uma cama belga chegou às livrarias seu legado póstumo, Le Tout Dernier ÉtéO Último Verão, só disponível em francês. “Gosto de me levantar antes que amanheça, como se assim pudesse adiantar a chegada do dia. Nesta manhã acordei cedo. A noite foi curta. Há dois anos que a ELA rouba meus sonhos e corta em pedaços minhas noites vazias, já nunca tranquilas e profundas”, começa a narração.

Sua nova obra é um percurso emocional em que transita pelo angustiante momento em que o médico lhe informa que sofre de esclerose lateral amiotrófica, em 2015, e o leitor a acompanha pelo último verão, o de 2017, em que já tomou a decisão de encerrar sua vida com ajuda médica. No meio, a frustração diante da progressiva deterioração de seu corpo, momentos agradáveis com sua filha na praia com a eterna sombra da doença pairando a cada instante, e uma enorme impotência e incompreensão frente ao sistema de saúde francês, que só permite a sedação profunda até a morte, mas não aceita a eutanásia. “Adormecer um doente para deixá-lo morrer de fome e sede é realmente mais respeitoso à vida do que encerrá-la administrando um produto letal?”, disse em uma carta aberta aos candidatos presidenciais em um de seus últimos pedidos antes de se render à evidência de que morreria em terra estrangeira.

Como a maioria dos escritores, Anne Bert, de 59 anos, era pouco conhecida fora das fronteiras de seu país, e sua obra não foi traduzida. Romancista do “íntimo”, definição que preferia à habitual denominação de autora erótica com a qual era descrita, suas palavras não foram muito mais longe do que as prateleiras do estilo. Também não o fazem agora, mas com a notícia ainda quente de seu falecimento em um hospital belga, a centenas de quilômetros do lugar onde teria desejado morrer, seu livro entrou nas listas de mais vendidos da França com uma primeira edição de 40.000 exemplares e uma reimpressão de outros 30.000.

Bert não queria fugir para morrer. A ideia de estar em um local estranho em um momento de tanta vulnerabilidade emocional a horrorizava. Queria se despedir em seu país. “É escandaloso que na França precisemos ir ao estrangeiro para morrer com dignidade, como na época em que as mulheres precisavam fugir para abortar”, comparou. Batalhou contra essa obrigação de colocar quilômetros de distância para conseguir um médico que cumprisse sua vontade. Em seu último verão manteve uma longa e infrutífera conversa com a ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn, antes partidária da eutanásia, mas nos últimos tempos alinhada à posição do presidente Macron, que não considera a legalização da eutanásia uma prioridade.

A última publicação de seu blog, dez dias antes de seu adeus, foi dedicada a responder a um médico que a acusava de fazer turismo de eutanásia. “Confirmo que sim. Que diante de uma doença incurável e a morte que se aproxima, procurei – e encontrei – médicos profundamente humanistas que não me deixaram de lado”, respondeu.

O anestesista belga François Damas é um dos que entrariam no perfil descrito por Bert. Durante toda sua carreira ajudou 150 pacientes a morrer, entre eles oito franceses, um alemão e um italiano. O médico explica ao EL PAÍS que o número de doentes vindos de fora da Bélgica para morrer ainda é pequeno. “Podemos calcular que são 20 por ano, a maioria procedente da França”. Isso significa somente 1% das aproximadamente 2.000 eutanásias anuais praticadas na Bélgica. A dificuldade de se viajar a outro país para se obter a permissão de dois médicos à eutanásia é uma barreira, mas como explica Damas, uma vez que tenha ocorrido o primeiro contato pessoal, a comunicação pode ser feita por telefone, mensagens de celular e e-mail.

Nesse sábado, a família da escritora cumpriu sua vontade de espalhar suas cinzas no mar. Eles o fizeram no Oceano Atlântico, próximo ao município de Saintes onde ela vivia. Embarcada no processo de se despedir do mundo, consciente de sua partida próxima, em seu livro deixa o depoimento da complexidade das sensações que tomam quem se sabe mais fora do que dentro. Mais morto do que vivo. “Ao contrário das primeiras vezes, as últimas não me transmitem mais do que uma sensação doce e quente, quase triste. Eu gosto de abrir muito os olhos, respirar todo o ar que caiba em meus pulmões, concentrar-me no momento, absorver a beleza do mundo e das coisas. Sem dúvida minhas últimas vezes têm o aroma da incredulidade. Não tenho mais do que perguntas sem resposta”.
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Reportagem POR  Álvaro Sánchez Bruxelas 16 OUT 2017 
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/12/internacional/1507798467_568423.html

Um padre na Amazônia e o Sínodo: povos indígenas precisam ir a Roma

O padre Luis Miguel Modino (no destaque) e o Rio Negro

Luis Miguel Modino é um padre espanhol que deixou seu país para o desafio de ser missionário no Brasil no século 21. Hoje é pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira, uma das maiores do Brasil, com 293 mil quilômetros quadrados. É o coração da Amazônia, no Estado do Amazonas. Na diocese mais de 90% são indígenas; são 23 povos indígenas e 18 línguas, sendo  o município de São Gabriel da Cachoeira o único a ter quatro línguas reconhecidas como oficiais.

Ele é voz mais que autorizada a falar sobre o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, que reunirá em 2019 bispos de todo o mundo, com especialistas e assessores e, espera-se, representantes dos povos indígenas da região. “Não imagino um Sínodo sem a presença dos povos indígenas. O Papa Francisco nunca ia deixar isso acontecer. Ele tem cheiro de ovelha e suas ovelhas na Amazônia são os povos indígenas”, diz o padre Modino. Para ele, a surpreendente convocação do Sínodo “pode mudar decisivamente a presença da Igreja na Amazônia” a partir da escuta “do grito da floresta e seus povos” –leia a entrevista dele ao Caminho Para Casa, concedida inicialmente há pouco mais de uma semana e completada neste domingo depois da surpresa do Sínodo(15).

Para o sacerdote espanhol apaixonado pelo Brasil e a Amazônia, o Sínodo é uma “oportunidade” que a Igreja da região “não pode perder”. Alguns dos pontos da agenda do Sínodo, segundo ele, devem ser as “questões gritantes que hoje estão presentes na Igreja da Amazônia, como a celebração eucarística sem a presença de um ministro ordenado e uma maior e melhor presença nas comunidades indígenas”. Duas questões cruciais para o Sínodo, na visão de Modino: 1) “a Igreja da Amazônia deve escutar o povo, sobretudo os moradores originários, as populações tradicionais. Pôr em funcionamento a colegialidade que o Papa Francisco propõe”; 2) “Tem que ser um Sínodo que brote do chão amazônico e que mesmo celebrado em Roma não respire os ares contaminados da Cúria e sim os ares puros das florestas que os povos indígenas trouxeram até nós.”

Com 46 anos de idade, Modino está no país desde os 35, em 2006. É padre diocesano de Madri e missionário Fidei Donum, e coordenador para o Brasil da Obra de Cooperação Sacerdotal para Hispanoamérica (OCSHA), organismo da Conferência Episcopal Espanhola.  Durante nove anos esteve na diocese de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, antes de instalar-se em São Gabriel da Cachoeira.

Uma prática de seu trabalho pastoral são as itinerâncias, visitas que ele realiza –de barco- às comunidades da diocese, à beira dos rios Negro e Xié, que duram em geral uma semana. As fotos que acompanham a entrevista são todas de Modino, durante as breves viagens. Ele é jornalista, correspondente no Brasil de Religión Digital, o mais relevante site católico progressista em língua espanhola do mundo, com mais de três milhões de visitas/mês.

É uma união interessante essa, a do sacerdócio com o jornalismo: “Como Igreja somos chamados a dar a conhecer aquilo que a gente do povo  vive. Uma vez escutei uma afirmação que me marcou: aquilo que não é conhecido não existe. Como comunicador, penso que minha missão é mostrar ao mundo a realidade dos povos e das pessoas com quem convivo e da natureza maravilhosa que nos cerca. Escrever e fotografar é um jeito de evangelizar, de ajudar as pessoas a refletir sobre situações muitas vezes desconhecidas.”

Leia a seguir a entrevista com Luis Miguel Modino:

 

Como você recebeu a notícia surpreendente da convocação do Sínodo sobre a Amazônia?
Recebi de fato como como uma grande surpresa e enorme alegria, pois  pode mudar decisivamente a presença da Igreja na Amazônia. Agora cabe à Igreja da Amazônia não deixar passar esta oportunidade que a história e o Papa Francisco estão nos oferecendo.

Quais devem ser, na sua visão, os temas do Sínodo?
Em primeiro lugar, é preciso um Sínodo que escute o grito da floresta e seus povos. Tem que ser um Sínodo que brote do chão amazônico, que mesmo celebrado em Roma não respire os ares contaminados da Cúria e sim os ares puros das florestas que os povos indígenas trouxeram até nós. Espero que sejam abordadas questões gritantes que hoje estão presentes na Igreja da Amazônia, como a celebração eucarística sem a presença de um ministro ordenado e uma maior e melhor presença nas comunidades indígenas.

 

Os povos indígenas devem estar presentes em Roma?
Não imagino um Sínodo sem a presença dos povos indígenas. O Papa Francisco nunca ia deixar isso acontecer. Ele tem cheiro de ovelha e suas ovelhas na Amazônia são os povos indígenas, em quem recentemente ele reconhecia no discurso aos bispos da Colômbia, uma “arcana sabedora”. Espero que a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e as dioceses da região cuidem de garantir essa presença.

E como será a preparação do Sínodo na Amazônia?
A Igreja da Amazônia deve escutar o povo, sobretudo os moradores originários, as populações tradicionais. Pôr em funcionamento a colegialidade que o Papa Francisco propõe.

 

Quando você chegou ao Brasil?
Cheguei ao Brasil pela primeira vez em 1999, acompanhando um grupo de jovens de uma paróquia de Madri, para visitar nossa paróquia irmã, Senhora Santana de Serrinha, Bahia, onde trabalhava como missionário um sacerdote de Madri. Após aquela experiência pedi ser enviado como missionário para o Brasil, o que finalmente aconteceu em 26 setembro de 2006, quando cheguei na diocese de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, onde fiquei mais de nove anos.

Qual foi o impacto dessa mudança radical, da Espanha para o interior da Bahia?
Foi um tempo em que descobri outro jeito de ser Igreja, diferente daquele que vivi na Espanha. Conheci uma Igreja onde a teologia do Vaticano II se faz presente numa Igreja Povo de Deus, com protagonismo laical, uma Igreja inserida na realidade, nas questões cidadãs, que luta por vida em abundancia para todos, organizada em redes de comunidades, onde as decisões das Assembleias são assumidas também pelo bispo.

Nesses anos coloquei como prioridade do trabalho missionário a formação dos leigos, sempre visando uma maior autonomia que faça possível uma melhor caminhada das comunidades. Um bom animador de comunidade faz que ela se torne instrumento do Reino na vida do povo, pois são os leigos os grandes protagonistas do trabalho cotidiano das comunidades, onde o padre não consegue estar presente no dia-a-dia.

 

Como é essa diocese encravada no coração da Amazônia?
Moro em Cucuí, um distrito de São Gabriel, na beira do Rio Negro, bem na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, acompanhando comunidades indígenas espalhadas pelos rios Negro e Xié. A maioria do povo pertence às etnias baré e werekena.

Navegar pelos rios ajuda a descobrir a grandiosidade da Amazônia e de uma floresta preservada excepcionalmente ao longo dos séculos. Tradicionalmente, os povos indígenas da região foram mestres em preservação ambiental, o que atualmente está em perigo. A ameaça das mineradoras está chegando. O atual prefeito de São Gabriel da Cachoeira foi eleito em base em promessas de que a chegada de mineradoras que iria trazer trabalho para o povo, o que se torna uma grave preocupação, pois nada pior poderia acontecer do que isso.

 

E a Igreja, diante dessa realidade?
Como Igreja somos desafiados a dar respostas mais firmes contra essas situações, a nos pronunciarmos e deixar claro que existem realidades que não podemos aceitar como cristãos. Muitas vezes a gente sente que existe certo medo na Igreja local a adotar uma postura firme, a falar alto e claro. A Igreja deve ser voz de um povo tradicionalmente oprimido e dominado por pequenos grupos de poder. Preocupar-se mais com o que acontece fora da sacristia.

O que são suas “itinerâncias”?
Um dos grandes desafios é nos fazermos presentes nas comunidades do interior. Visitando esse povo, uma das queixas é a pouca presença dos padres no meio deles. Se aparece pouco e quando a gente vai é com muita pressa, o que é totalmente contrário ao jeito de entender a vida desses povos indígenas. O povo se empenha em acolher e muitas vezes não valorizamos esse esforço, conformamo-nos com sacramentos celebrados às carreiras, enquanto o povo procura conversa, ser escutado, partilhar a vida.
Outro dos grandes desafios é a formação. Acabei de voltar de uma visita de doze dias nas comunidades do Rio Xié, onde a gente fez um encontro de formação de catequistas. Há cinco anos não acontecia um encontro desses.

 

Como é sua vivência na Igreja hoje?
É triste, mas é preciso constatar que o espírito capitalista tem invadido nossa Igreja. Parece que só interessam os números, e não as pessoas. Gastamos muito em estruturas e pouco naquilo que muda a vida das pessoas. No nosso caso aqui: parece que é muito mais grave deixar o povo da catedral um domingo sem missa do que deixar as comunidades do interior abandonadas durante dois anos.

E o Brasil?
Vivemos numa sociedade onde cada vez mais se privilegiam os que integram os grupos de poder. A desigualdade é cada vez maior e estamos voltando a situações que provocam angústia nos mais pobres, que aos poucos estão tendo que se preocupar em como dar um prato de comida para seus filhos no dia seguinte. Escuto o governo falar que a crise está sendo superada e me pergunto: eles pensam que ainda tem gente que acredita em suas mentiras?
Diante desta situação me questiona a passividade do povo, que não reage diante de tamanhas injustiças que sofre cada dia. Tem-se instaurado um sentimento de “não tem outro jeito” cada vez mais preocupante.

 

A Igreja brasileira tem tido uma posição mais firme nos últimos tempos…
Sim, tenho me surpreendido muito positivamente com a firmeza do episcopado brasileiro diante desta situação. Os pronunciamentos têm sido firmes e deixam claro de que lado a Igreja está, sobretudo a Presidência da CNBB, o que tem incomodado, e muito, ao governo. Posso dizer que a Igreja do Brasil tem voltado aos tempos pós-concilares, com bispos profetas, que despertam gratas recordações em muitos de nós. Mas ao mesmo tempo não podemos esquecer que no Brasil também há grupos de católicos totalmente contrários a esse espírito manifestado pelos bispos.

Uma coisa é que noto, desde que cheguei no Brasil, um renascimento, talvez com outras características, do jeito de ser Igreja que vive nas comunidades eclesiais de base. Acho que esse jeito, em que se une fé e vida, está tomando corpo de novo no Brasil, segmentos expressivos do episcopado vão reconhecendo que tantas críticas contra esse modo de viver o cristianismo eram injustas.

É esse o norte do Papa Francisco, não?
O Papa Francisco nos mostra o que significa viver desde a confiança em Deus e seu projeto, um Deus que se faz gente e caminha no meio do povo, que não tem medo de enfrentar os poderosos e ser voz dos pobres e oprimidos, com quem se identifica até no modo de viver. Isso incomoda dentro e fora da Igreja. Na Igreja  estão os verdadeiros inimigos de Francisco, gente que se aproveitou e aproveita da estrutura para ter vida boa enquanto ignora o sofrimento dos pobres.

 

Você é padre e jornalista. E revelou-se um fotógrafo dos bons. Como é esse jeito de unir sacerdócio e jornalismo?
Como Igreja somos chamados a dar a conhecer aquilo que a gente do povo  vive. Uma vez escutei uma afirmação que me marcou: aquilo que não é conhecido não existe. Como comunicador penso que minha missão é mostrar ao mundo a realidade dos povos, das pessoas com quem convivo e da natureza maravilhosa que nos cerca. Escrever e fotografar é um jeito de evangelizar, de ajudar as pessoas a refletir sobre situações muitas vezes desconhecidas.

 

Tiro fotos dos lugares por onde vou. Na Amazônia, acho que isso ajuda a mostrar como os povos indígenas têm preservado e cuidado da Casa Comum. É uma forma de assumir as propostas e o espírito da Laudato Si e de promover a conversão ecológica. Na era da imagem, essas fotos ajudam as pessoas a se encontrarem com o Deus Criador e a agradecer porque existem pessoas, os povos indígenas, que pensam no cuidado como atitude vital.

[Entrevista a Mauro Lopes]
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